Entre o jardim e a paisagem: paralelos entre jardineiros e vigilantes da natureza

A prática do restauro ecológico, cada vez mais central nos debates sobre sustentabilidade, não pode ser dissociada de uma longa tradição de ofícios que lidam diariamente com a gestão do mundo vivo. Entre esses ofícios, dois destacam-se: o do jardineiro em parques e jardins históricos e o do vigilante da natureza em áreas protegidas.
 
À primeira vista parecem realidades díspares - um inscrito na herança cultural e artística, o outro no domínio da conservação da natureza e da biodiversidade. Contudo, uma análise mais atenta revela afinidades estruturais que merecem ser sublinhadas.

O jardineiro é guardião de um património cultural que se exprime em formas vegetais. A sua prática depende de um conhecimento situado, acumulado ao longo dos anos, sobre a fisiologia das plantas, as dinâmicas dos solos, a circulação da água e os ritmos sazonais.

De modo análogo, o vigilante da natureza desenvolve um saber territorializado: conhece os locais exatos onde sobrevivem espécies raras, regista variações fenológicas, acompanha dinâmicas populacionais de plantas e animais. Em ambos os casos, trata-se de conhecimento empírico-científico enraizado no lugar, indispensável para decisões de gestão.

Nos jardins históricos, o jardineiro controla pragas e infestantes, substitui exemplares em fim de ciclo, preserva alinhamentos e estruturas vegetais que sustentam a leitura histórica do espaço.

Nos parques naturais, o vigilante atua na prevenção e combate de fogos, no controlo de espécies invasoras, na vigilância contra colheitas ilegais ou vandalismo. Ambos partilham a função de mediadores entre equilíbrio ecológico e risco permanente, garantindo a continuidade de sistemas vivos que não são estáticos, mas dinâmicos.

Se o jardineiro recolhe sementes e estacas para manter viva uma composição vegetal histórica, o vigilante colhe sementes de espécies autóctones para reforçar povoamentos ou apoiar programas de restauro. Aqui, a afinidade é particularmente reveladora: em ambos os casos, a prática envolve a propagação orientada, um gesto de prolongamento da vida que traduz o reconhecimento de que conservar implica regenerar.

Tanto jardineiros como vigilantes desempenham um papel pedagógico. O primeiro transmite ao visitante a história de uma árvore centenária ou de um desenho paisagístico; o segundo guia grupos em percursos interpretativos, explicando interações entre flora e fauna.

A função de mediação é central: ambos tornam inteligível e experienciável o valor patrimonial e ecológico dos espaços, permitindo que cidadãos não especialistas compreendam a importância da sua conservação.

A jardinagem, enquanto arte de cuidar de plantas num espaço culturalmente qualificado, e o restauro ecológico, enquanto ciência e prática de regeneração de ecossistemas degradados, partilham uma mesma lógica: a ética do cuidado contínuo.

Reconhecer os paralelos entre jardineiros e vigilantes da natureza é reconhecer que o restauro ecológico não é apenas uma prática técnico-científica, mas uma cultura do cuidado que pode ser apropriada por diferentes agentes, desde especialistas até cidadãos comuns.

Diferenças estruturais

Apesar das afinidades, é importante reconhecer as diferenças que distinguem jardins históricos de parques naturais. Os primeiros são espaços delimitados, muitas vezes protegidos por muros ou cercas, com entradas controladas e sistemas de vigilância avançados, onde o jardineiro pode observar e intervir numa escala humana.

Já os parques naturais estendem-se por milhares de hectares, em alguns casos atravessando fronteiras, exigindo vigilância dispersa, patrulhamento constante e o recurso a tecnologias como drones ou sensores remotos.

Também os objetivos divergem: nos jardins históricos a prioridade é conservar o desenho e a autenticidade cultural, mesmo quando dependem de espécies exóticas; nos parques naturais a meta é salvaguardar a integridade ecológica, favorecendo espécies autóctones e processos naturais.

Até o público se relaciona de forma distinta com estes espaços: quem visita um jardim histórico procura fruição estética e memória cultural, enquanto os parques naturais atraem públicos heterogéneos, envolvidos em percursos longos, turismo de natureza ou atividades tradicionais, exigindo outra forma de mediação e sensibilização.

Finalmente, os parques naturais distinguem-se ainda pelo convívio constante com comunidades humanas que habitam esses territórios há séculos - agricultores, pastores, e mais recentemente operadores turísticos - que são muitas vezes também proprietários de parte do território e parceiros fundamentais numa lógica de cogestão.

O que o restauro ecológico pode aprender com a jardinagem

Essas diferenças não impedem que o restauro ecológico colha lições valiosas de séculos de prática da jardinagem. A primeira é a disciplina do cuidado quotidiano: jardins históricos só sobrevivem porque gerações sucessivas de jardineiros garantiram continuidade, e essa mesma constância é necessária para que projetos de restauro não se esgotem após a fase inicial de plantação.

A jardinagem ensina também a gerir solos e água com engenho, técnicas que podem ser transpostas para a recuperação de ecossistemas degradados. Outro contributo é a dimensão estética: os jardins mostram que é possível unir função ecológica e experiência sensível, algo essencial para que a sociedade se aproxime e valorize o restauro.

Por fim, a jardinagem legou-nos a tradição do registo e da documentação meticulosa das plantas, prática que hoje encontra paralelo nos sistemas modernos de monitorização ecológica. Ao integrar estas aprendizagens, o restauro ecológico pode tornar-se mais eficaz, mais duradouro e mais compreensível para o cidadão comum.

Se nos jardins históricos predomina a lógica da manutenção de composições vegetais estáveis e legíveis, no restauro ecológico o desafio é devolver espaço aos processos naturais. Sucessão ecológica, regeneração espontânea, dinâmicas do fogo, polinização ou fluxos hídricos são forças vitais que não podem ser totalmente controladas, apenas acompanhadas e facilitadas.

Aqui reside uma diferença crucial: enquanto a jardinagem procura preservar um desenho herdado, o restauro ecológico reconhece que a paisagem deve retomar a sua capacidade de se auto-organizar, ainda que com resultados por vezes imprevisíveis.

Também os valores de referência divergem: nos jardins históricos busca-se a autenticidade cultural - a manutenção de espécies e formas que testemunham uma época e um estilo.

Nos ecossistemas, o horizonte é a integridade ecológica, que se traduz em resiliência, diversidade e equilíbrio funcional. Essa distinção não invalida os paralelos, antes os enriquece: a jardinagem ensina-nos a disciplina do cuidado, mas o restauro recorda-nos que, a longo prazo, o essencial não é preservar uma forma estática, mas garantir a continuidade de processos vivos que sustentam a biodiversidade e a vida humana.

Há ainda um movimento contemporâneo que reforça esta convergência: os jardins urbanos estão a evoluir para a utilização crescente de espécies autóctones, mais resilientes às alterações climáticas e mais adaptadas às condições edafoclimáticas locais.

Esta tendência traduz uma lógica de aproximação entre o parque natural e o espaço urbano, trazendo para dentro das cidades práticas de seleção vegetal que privilegiam a biodiversidade nativa, reduzem consumos de água e promovem maior resiliência.

Num futuro cada vez mais presente, em que a Península Ibérica enfrentará pressões climáticas severas - ondas de calor, secas prolongadas, fenómenos extremos - esta integração da lógica do restauro no coração da cidade será não apenas desejável, mas necessária. Jardins e ruas poderão assim tornar-se laboratórios vivos de adaptação ecológica, em benefício simultâneo da natureza e da sociedade.

Os paralelos entre estes dois ofícios revelam que a fronteira entre património cultural e natural é mais permeável do que à primeira vista se supõe. Jardineiros e vigilantes da natureza são, em escalas distintas, guardiões de sistemas vivos, cuja integridade depende da sua vigilância, saber e capacidade de regenerar.

Trazer esta convergência para o centro do debate pode alargar o alcance social do restauro ecológico, tornando-o não apenas uma disciplina científica, mas também uma prática cultural acessível, partilhada e necessária para enfrentar os desafios ecológicos contemporâneos.

Assumo esta reflexão não apenas como observador, mas como alguém que percorreu ambos os caminhos. Tive a oportunidade de gerir um dos mais emblemáticos jardins históricos portugueses, o Parque de Serralves, e hoje encontro-me profundamente envolvido em projetos de restauro ecológico em diferentes territórios.

Sou Engenheiro Agrónomo, homem da ciência e técnico de campo, mas também alguém apaixonado por plantas, que deseja tornar o conhecimento do restauro acessível ao cidadão comum, convidando todos a participar na discussão sobre a melhor forma de conservar as espécies em risco de extinção.

Tal como ninguém admite perder as plantas emblemáticas dos seus jardins favoritos, também não podemos aceitar a perda de plantas absolutamente fascinantes das nossas paisagens naturais - algumas das quais sobrevivem no seu estado espontâneo com menos de cinquenta exemplares maduros em todo o país. Reconhecer esta realidade é o primeiro passo para transformar a conservação em responsabilidade partilhada. 

Between the Garden and the Landscape: Parallels between Gardeners and Conservation Officers

The practice of ecological restoration, increasingly central to debates on sustainability, cannot be dissociated from a long tradition of professions that deal daily with the management of the living world. Among these professions, two stand out: the gardener in historic parks and gardens, and the conservation officer in protected areas.

At first glance they may seem like disparate realities, one rooted in cultural and artistic heritage, the other within the sphere of nature conservation and biodiversity. Yet a closer look reveals structural affinities that deserve to be highlighted.

The gardener is the guardian of a cultural heritage expressed through living plant forms. Their practice relies on situated knowledge, accumulated over the years, about plant physiology, soil dynamics, the circulation of water, and seasonal rhythms.

Similarly, the conservation officer develops territorialised knowledge: they know the exact locations where rare species survive, record phenological variations, and track population dynamics of plants and animals. In both cases, this is empirical scientific knowledge anchored in place, indispensable to management decisions.

In historic gardens, the gardener controls pests and weeds, replaces specimens at the end of their life cycle, and preserves alignments and plant structures that sustain the historical legibility of the space.

In natural parks, the conservation officer works on wildfire prevention and suppression, the control of invasive species, and surveillance against illegal harvesting or vandalism. Both share the role of mediators between ecological balance and permanent risk, ensuring the continuity of living systems that are not static but dynamic.

If the gardener collects seeds and cuttings to keep a historic plant composition alive, the conservation officer collects seeds of native species to reinforce stands or support restoration programmes. Here, the affinity is particularly revealing: in both cases, practice involves guided propagation, a gesture that extends life and reflects the recognition that to conserve is also to regenerate.

Both gardeners and conservation officers play a pedagogical role. The former tells visitors the story of a centenarian tree or a landscape design; the latter guides groups along interpretive trails, explaining interactions between flora and fauna.

The mediating function is central: both make the heritage and ecological value of these spaces intelligible and experiential, enabling non specialists to understand the importance of their conservation.

Gardening, as the art of caring for plants within a culturally qualified space, and ecological restoration, as the science and practice of regenerating degraded ecosystems, share the same logic: an ethic of continuous care.

To recognise the parallels between gardeners and conservation officers is to recognise that ecological restoration is not merely a technical scientific practice, but a culture of care that can be taken up by different agents, from specialists to ordinary citizens.

Structural differences

Despite these affinities, it is important to acknowledge the differences that distinguish historic gardens from natural parks. The former are delimited spaces, often protected by walls or fences, with controlled entrances and advanced surveillance systems, where the gardener can observe and intervene at a human scale.

Natural parks, by contrast, extend over thousands of hectares, in some cases crossing borders, requiring dispersed surveillance, constant patrolling, and the use of technologies such as drones or remote sensors.

Objectives also diverge: in historic gardens, the priority is to conserve the design and cultural authenticity, even when these depend on exotic species; in natural parks, the aim is to safeguard ecological integrity, favouring native species and natural processes.

Even the public relates to these spaces differently: visitors to a historic garden seek aesthetic enjoyment and cultural memory, while natural parks attract heterogeneous publics involved in long routes, nature tourism, or traditional activities, requiring another form of mediation and awareness raising.

Finally, natural parks are also distinguished by constant coexistence with human communities who have inhabited these territories for centuries, farmers, shepherds, and more recently tourism operators, who are often also owners of part of the land and fundamental partners within a logic of co management.

What ecological restoration can learn from gardening

These differences do not prevent ecological restoration from drawing valuable lessons from centuries of gardening practice. The first is the discipline of daily care: historic gardens survive only because successive generations of gardeners ensured continuity, and the same constancy is necessary so that restoration projects do not run out of momentum after the initial planting phase.

Gardening also teaches how to manage soils and water with ingenuity, techniques that can be transferred to the recovery of degraded ecosystems. Another contribution is the aesthetic dimension: gardens show that it is possible to unite ecological function and sensory experience, which is essential if society is to engage with and value restoration.

Finally, gardening has bequeathed a tradition of meticulous plant recording and documentation, a practice that today finds a parallel in modern ecological monitoring systems. By integrating these learnings, ecological restoration can become more effective, more durable, and more comprehensible to the ordinary citizen.

If historic gardens are governed by the logic of maintaining stable, legible plant compositions, in ecological restoration the challenge is to give space back to natural processes. Ecological succession, spontaneous regeneration, fire dynamics, pollination, or hydrological flows are vital forces that cannot be fully controlled, only accompanied and facilitated.

Here lies a crucial difference: while gardening seeks to preserve an inherited design, ecological restoration recognises that the landscape must recover its capacity for self organisation, even if results are sometimes unpredictable.

Reference values also diverge: in historic gardens one seeks cultural authenticity, the maintenance of species and forms that testify to an era and a style.

In ecosystems, the horizon is ecological integrity, expressed as resilience, diversity, and functional balance. This distinction does not invalidate the parallels; it enriches them: gardening teaches the discipline of care, but restoration reminds us that, in the long run, what matters is not preserving a static form, but ensuring the continuity of living processes that sustain biodiversity and human life.

There is also a contemporary movement that reinforces this convergence: urban gardens are evolving towards the increasing use of native species, more resilient to climate change and better adapted to local edaphoclimatic conditions.

This trend reflects a logic of approximation between the natural park and the urban space, bringing into cities plant selection practices that privilege native biodiversity, reduce water consumption, and promote greater resilience.

In an ever more immediate future, in which the Iberian Peninsula will face severe climatic pressures, heatwaves, prolonged droughts, extreme events, this integration of restoration logic into the heart of the city will not only be desirable but necessary. Gardens and streets may thus become living laboratories of ecological adaptation, to the simultaneous benefit of nature and society.

The parallels between these two professions reveal that the boundary between cultural and natural heritage is more permeable than it may first appear. Gardeners and conservation officers are, at different scales, guardians of living systems, whose integrity depends on their vigilance, knowledge, and capacity to regenerate.

Bringing this convergence to the centre of the debate can broaden the social reach of ecological restoration, making it not only a scientific discipline, but also a cultural practice that is accessible, shared, and necessary to face contemporary ecological challenges.

I offer this reflection not only as an observer, but as someone who has walked both paths. I had the opportunity to manage one of Portugal’s most emblematic historic gardens, the Serralves Park, and today I am deeply involved in ecological restoration projects across different territories.

I am an agronomist engineer, a man of science and a field technician, but also someone passionate about plants, who wishes to make knowledge of restoration accessible to the ordinary citizen, inviting everyone to take part in the discussion on the best way to conserve species at risk of extinction.

Just as no one would accept losing the emblematic plants of their favourite gardens, neither can we accept the loss of absolutely fascinating plants from our natural landscapes, some of which survive in the wild with fewer than fifty mature individuals across the entire country. Recognising this reality is the first step towards transforming conservation into a shared responsibility.


 Teixo (Taxus baccata) - Parque Nacional da Peneda-Gerês
Yew – Peneda-Gerês National Park

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