Entre o pó e o preconceito


Foi talvez a publicação mais viral de todo o meu percurso profissional, partilhada milhares de vezes e republicada por vários órgãos de comunicação em Portugal. Contribuiu para acalmar muitas pessoas, assustadas com o fenómeno, mas foi também terrível para mim, porque fui enxovalhado em certos meios académicos, retratado publicamente, acusado de espalhar informação falsa. 
 
Só mais tarde percebi, para mal dos meus pecados, que muitos desses académicos, alguns deles catedráticos, com responsabilidades sérias no campo científico, nem sequer faziam ideia que estas nuvens de pó servem de combustível para a floresta amazónica. 
 
Atravessam regularmente o oceano Atlântico, carregadas de fósforo essencial à enorme biodiversidade, já que nos solos tropicais todo o que existe é facilmente lixiviado pela chuva frequente.

Durante demasiado tempo olhámos para o céu pintado de laranja apenas como um incómodo, uma ameaça à saúde pública, um episódio meteorológico indesejado que suja carros e toldos. Esquecemo-nos de perguntar de onde vem essa poeira, o que transporta, que histórias geológicas e biológicas carrega consigo. 
 
O deserto do Saara não é apenas um mar de areia estéril. É a memória mineral de antigos lagos, de solos outrora férteis, de ciclos climáticos longos que deixaram fósforo, cálcio, ferro e oligoelementos finamente moídos à mercê do vento. Quando essas partículas chegam aos nossos campos, às nossas florestas, aos nossos oceanos, não chegam vazias.

A ciência internacional conhece este fenómeno há décadas. Sabe-se que uma parte significativa do fósforo que sustenta a Amazónia não nasce na floresta, chega do outro lado do Atlântico, vinda de África. 
 
Sabe-se também que o ferro transportado nestas poeiras alimenta o fitoplâncton marinho, base invisível de cadeias alimentares inteiras e regulador silencioso do clima. Nada disto é misticismo nem poesia ingénua. É ecologia em estado puro, feita de ligações improváveis e escalas planetárias.

O que me entristeceu na altura não foi a crítica, essa faz parte do caminho de quem comunica ciência fora dos corredores fechados. O que me custou foi perceber como ainda há uma visão fragmentada, redutora, incapaz de integrar processos ecológicos complexos, sobretudo quando estes não cabem facilmente numa caixa disciplinar. 
 
Falar de solos é falar de atmosfera, de oceanos, de história climática, de microorganismos invisíveis e de tempo profundo. Ignorar isso é empobrecer o debate e, pior ainda, empobrecer as soluções.

Por isso esta notícia não é apenas uma validação pessoal. É um sinal de maturidade científica. É a prova de que começamos finalmente a olhar para os solos agrícolas como sistemas vivos, abertos, ligados a processos globais. 
 
Num país com solos pobres, frequentemente exaustos por décadas de uso intensivo e pouca matéria orgânica, compreender o papel destas deposições naturais pode ser decisivo. Não para romantizar o fenómeno nem ignorar os riscos reais para a saúde humana, mas para o integrar num conhecimento mais amplo, mais honesto, mais ecológico.

Talvez agora possamos falar das poeiras do Saara sem medo do ridículo, sem sobranceria académica, sem dogmas. Talvez possamos aceitar que a natureza funciona em rede e que, por vezes, a fertilidade de um solo em Portugal começa muito longe, algures num antigo fundo lacustre africano, levantado pelo vento e confiado ao céu.
 

 

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Qual é a coisa qual é ela que tem dente, mas nem é bicho, nem é gente?

Qual é a coisa qual é ela que tem dente, mas nem é bicho, nem é gente? Esta é uma das adivinhas favoritas do meu filho Francisco, que tem 7 anos e não se cansa de a lançar a quem com ele se cruza.

E eu sorrio sempre, porque dentro desta pequena charada infantil se esconde uma história muito maior do que ele imagina. Nela ressoam civilizações ancestrais, cozinhas acesas, remédios caseiros e campos mediterrânicos, onde o alho (Allium sativum) marca presença na vida humana há milhares de anos.

Desde cedo, surgiu nos vales e montanhas da Ásia Central e seguiu o ser humano nas migrações, nas caravanas e nos primeiros gestos da agricultura. Entrou nas cozinhas, nas batalhas e nos rituais, servindo ao mesmo tempo de alimento, remédio e amuleto, um talismã discreto a que se atribuía o poder de afastar doenças e males invisíveis.

Há nele uma força que atravessou impérios, desertos e continentes, e que hoje repousa com naturalidade nas nossas mesas. Talvez seja essa convivência prolongada que explique porque se tornou parte indissociável da experiência humana.

O alho nasce como um pequeno coração subterrâneo que pulsa no escuro da terra e guarda dentro de si o perfume quente do mundo antigo. Ao longo de milénios, ligou povos e crenças. É, sem dúvida, uma das plantas cultivadas mais importantes na história da humanidade.

Foi deixado nas encruzilhadas da Grécia como oferenda para proteger casas e lares, colocado nas tumbas dos faraós para acompanhar o descanso dos reis na vastidão do além, mastigado pelos soldados de Roma para fortalecer o corpo e o ânimo, descrito nos papiros médicos do Egito e nos manuscritos da China que registavam o poder das plantas com a precisão de quem desenha um mapa atento do corpo humano.

As mais antigas referências, inscritas em tabuleiros suméricos de há mais de quatro mil anos e no célebre papiro de Ebers do Egito faraónico, registam-no como alimento e como remédio para males do coração, problemas respiratórios, parasitoses e estados de fraqueza. No mundo clássico, gregos e romanos recorreram ao alho para recuperar vigor.

Hipócrates e outros autores posteriores recomendavam preparos para aliviar fadiga, descongestionar o peito e ajudar o organismo a restabelecer-se. Ao longo das margens do Mediterrâneo, surgia como planta protetora, pendurado nas casas ou integrado em rituais de passagem.

A sua importância era tão grande que os soldados romanos o levavam consigo nas campanhas e as populações rurais o utilizavam diariamente, na cozinha e na medicina doméstica.

Em Portugal continental e nas ilhas atlânticas, foi integrado desde cedo na alimentação e na agricultura, tornando-se inseparável do azeite e dos coentros que dão carácter às cozinhas do Sul e do interior.

Acompanhou a agricultura de pequena escala, as hortas de família, os mercados locais e as tradições culinárias que moldaram este território ao longo dos séculos. A sua presença atravessa o quotidiano e a festa, unindo pratos humildes e pratos de celebração num mesmo fio de sabor que acompanha o país há séculos.

Encontrou comunidades que lhe reconheceram utilidade e sabor, tornando-se presença constante nas panelas de ferro, nas caldeiradas do litoral, nas açordas que confortam os fins de tarde, no bacalhau que atravessou mares frios até chegar às nossas mesas.

Traz profundidade às migas e aos ensopados de leguminosas, tempera o peixe antes de encontrar as brasas, abrilhanta as sopas onde repousa o aroma da horta.

No Alentejo, estudos etnobotânicos realizados em diferentes contextos rurais mostram que continua a ser um dos ingredientes mais citados nas receitas tradicionais, lado-a-lado com o pão de trigo, o azeite, o feijão e os coentros. Surge no piso que muitas cozinheiras continuam a preparar, esmagando alho e coentros com azeite e sal.

O alho, o azeite e o coentro formam uma espécie de Santíssima Trindade da gastronomia portuguesa, um sopro divino que desliza para o interior das panelas e transforma o simples em inesquecível. Quando estes três se encontram, a cozinha torna-se altar, o gesto de cozinhar aproxima-se de um antigo ritual, daqueles que atravessam gerações e permanecem porque fazem sentido no corpo e na memória.

É esta trindade que acorda as amêijoas de Portimão e lhes dá a alma que o mar manteve guardada. É ela que ilumina a açorda alentejana, feita de pão velho e água quente, erguida ao estatuto de divindade quando o alho se abre, o azeite se derrama e o coentro se solta no vapor.

É esta mesma união que governa pratos como as iscas à portuguesa, onde o fígado se oferece a esta tríade aromática como quem se entrega a uma bênção, deixando que o coentro fresco afine aquilo que o alho despertou e que o azeite elevou.

Quando estes três se juntam, o país inteiro reconhece o gesto. Há um perfume que sobe da frigideira e que diz casa, diz família, diz mesa aberta. É uma trindade sem dogmas, feita apenas de sabor e de história, de mãos humanas que aprenderam, sem pressa, a forma exata de convocar aquilo que nos alimenta por dentro.

E talvez por isso o alho, o azeite e o coentro sejam mais do que ingredientes. São uma divindade doméstica, uma companhia fiel para celebrar o que é simples e o que é grande, o que é antigo e o que permanece sempre novo.

Há que saber perdoar os coentrófobos, pois deles será o reino dos céus. Não têm culpa, trazem no corpo uma gramática ancestral que decifra o mundo de forma diferente.

Aqueles que não conseguem partilhar o encanto do coentro são criaturas sensoriais guiadas por uma herança genética que transforma o perfume desta planta num eco distante de sabão ou detergente.

Não é teimosia, não é má vontade, muito menos falha de carácter. É apenas a forma como um recetor olfativo, herdado como tantos outros traços familiares, lê os aldeídos aromáticos que dão alma ao coentro. Onde muitos encontram frescura verdejante, eles encontram estranheza. Onde eu encontro um sinal de pertença, eles sentem um travo desconcertante.

Guardemo-los à mesa com a mesma ternura com que acolhemos quem fala outra língua. Porque a gastronomia portuguesa é larga, generosa, e há sempre espaço para quem chega sem gostar de coentros, mas com vontade de partilhar o pão, o lume e a conversa.

Importa dizer, a bem da harmonia social, que quando se comem pratos com alho, com muito alho, convém fazer disso um ato partilhado. Um gesto coletivo, quase familiar. O alho é generoso no sabor, mas implacável nos efeitos colaterais.

Já todos passámos por experiências pouco felizes em espaços fechados, uma viatura após o almoço, uma reunião demasiado próxima da sobremesa, ou aquela curta, mas memorável viagem de elevador, em que alguém decide libertar um arroto a alho com convicção.

Um simples arroto pode tornar-se motivo de desconforto, de discussão ou até de discórdia entre os mais cúmplices dos casais. Tem essa capacidade singular de agregar ou excluir. Se todos à mesa tiverem partilhado os mesmos grelos salteados com alho, essa libertação gasosa tende a ser recebida com resignação solidária. O cheiro dilui-se na igualdade. Ninguém acusa ninguém. É um pacto tácito.

Mas quando é apenas um a fazê-lo, a experiência muda radicalmente. Somos subitamente invadidos pela sensação de estarmos a ser sugados para o interior do aparelho digestivo dessa pessoa, num pesadelo sensorial que, apesar de durar poucos segundos, se estende na perceção como uma eternidade. É uma violência invisível, mas eficaz. 
 
Ao arroto junta-se quase sempre o hálito a alho, persistente e pouco diplomático, que prolonga a refeição para lá da mesa e da boa vontade de quem escuta. O alho não se limita a temperar o prato. Quando entra no corpo, faz-se notar.

Após a ingestão, os seus compostos sulfurados são absorvidos, circulam no sangue e acabam por ser libertados pelos pulmões e pelas glândulas sudoríparas. É por isso que o hálito muda e a transpiração ganha aquele odor persistente e inconfundível.

Não é descuido nem exagero popular. É bioquímica elementar. O alho atravessa o organismo e sai por onde pode, marcando temporariamente o corpo com a sua presença. Quem come alho, anuncia-o.


Por isso deixo aqui um dos conselhos mais úteis deste texto. Quando a refeição promete alho farto, escolham todos o mesmo prato. Facilita a convivência, protege a paz doméstica e evita ressentimentos desnecessários. Com alho, mais vale estarmos todos juntos do que alguém sozinho a carregar o peso aromático da escolha.

Ao longo dos séculos, foi também guardião das casas e companheiro dos remédios simples. Pendurava-se em tranças nas despensas, oferecia-se nas encruzilhadas, colocava-se um dente no bolso para afastar males que ninguém ousava nomear. Nos dias de constipação, esmagava-se no caldo quente para limpar o peito e devolver força ao corpo cansado.

Em muitas aldeias, ainda subsiste o hábito de beber ao amanhecer a água onde repousou um dente de alho, uma velha crença de proteção e vigor. 

No final do século XIX, a literatura veio cristalizar uma crença antiga. Em Dracula, de Bram Stoker, o alho surge como elemento central de proteção, não como superstição vaga, mas como prática metódica. Van Helsing impõe o uso de alho nos quartos, nas janelas e junto ao corpo, transformando-o num verdadeiro ritual doméstico de defesa.

Stoker bebeu diretamente do folclore da Europa Central e Oriental, onde o alho era usado para afastar o mal, proteger casas e criar fronteiras simbólicas contra o indizível. O romance fez mais do que contar uma história. Fixou no imaginário moderno a ideia do alho como guardião do limiar entre o seguro e o ameaçador, entre o lar e aquilo que não deve entrar.


Quando o dente de alho é cortado ou esmagado, ocorre uma reação breve e decisiva, mediada por uma enzima, que converte um composto sulfurado estável, a aliina, em alicina, uma molécula altamente reativa que explica grande parte do seu carácter.

A alicina e outros compostos sulfurados exibem atividade antimicrobiana, antifúngica e antiviral, contribuem para modular a pressão arterial e influenciam discretamente os lípidos sanguíneos, além de participarem em vias inflamatórias com resultados encorajadores em estudos experimentais sobre doenças como a endometriose.

As fibras prebióticas do alho alimentam a microbiota intestinal e ajudam a manter o equilíbrio de um dos ecossistemas mais sensíveis do corpo humano.

Os benefícios existem e estão bem documentados, mas revelam-se sobretudo quando o alho é preparado em formas estudadas e controladas. A ingestão direta de dentes crus, embora tradicional em algumas regiões, pode ser incómoda e, em certas pessoas, provocar irritação das mucosas do trato digestivo. 

Nas últimas décadas, o alho ganhou uma nova expressão através de processos de transformação controlada que alteram profundamente a sua composição química e o seu perfil sensorial.

O alho preto não é uma variedade nem um produto fermentado no sentido clássico. Resulta de um processo controlado de envelhecimento térmico, em ambiente húmido e sem intervenção microbiana, durante várias semanas.

Neste tempo, os compostos sulfurados mais agressivos diminuem, a textura torna-se macia e surgem sabores adocicados, resultado de reações químicas complexas. A alicina dá lugar a compostos mais estáveis, como a S-alil-cisteína, associados a maior biodisponibilidade e menor agressividade digestiva.

Já o alho fermentado envolve a ação de microrganismos, normalmente bactérias ácido-lácticas, em condições controladas de humidade e ausência de oxigénio. Este processo pode ocorrer com dentes inteiros ou triturados e conduz à produção de ácidos orgânicos, alterações do pH e transformação adicional dos compostos sulfurados. Tal como acontece com outros alimentos fermentados, há indícios de benefícios na digestibilidade e na interação com a microbiota intestinal.

Importa sublinhar que nenhum destes processos cria propriedades mágicas nem invalida o valor do alho fresco. O alho preto e o alho fermentado são expressões modernas de uma planta ancestral, que revelam como a transformação controlada pode suavizar o impacto digestivo, ampliar certos efeitos antioxidantes e abrir novas possibilidades culinárias, sem substituir a riqueza química e cultural do alho fresco, esmagado no momento certo, como sempre fizeram as cozinhas do Mediterrâneo.


Apesar da sua longa história junto do ser humano, guarda uma particularidade que o distingue de muitas outras plantas cultivadas. Na prática agrícola comum, é uma planta quase sempre estéril e multiplica-se sobretudo por via vegetativa, dente após dente, geração após geração.

O que tantas vezes chamamos variedades são, na realidade, populações clonais regionais mantidas pelos agricultores, escolhidas ao longo do tempo pela forma, pela capacidade de conservar, pelo aroma mais intenso, pelo sabor reconhecido pela tradição e pela adaptação às terras onde cresciam.

São linhagens antigas, quase sempre sem nome registado, preservadas pela prática e pela memória, mais do que por qualquer sistema formal.

As populações tradicionais de alho português e mediterrânico foram sendo substituídas por material importado, mais uniforme, escolhido sobretudo pelo preço e pelo tamanho, o que acelerou a erosão de uma diversidade construída ao longo de gerações.

A erosão genética é real e foi documentada. No Banco Português de Germoplasma Vegetal conservam-se cerca de 292 acessos de Allium sativum, correspondentes maioritariamente a populações tradicionais portuguesas recolhidas em várias regiões do país, testemunhos vivos daquilo que o campo começa a perder.

Cada um distingue-se pela forma, pelo perfil aromático e pela composição química. Cada acesso é um testemunho vivo da diversidade que existiu nas hortas portuguesas antes de o mercado se tornar uniforme.

Estas diferenças traduzem-se na prática em cabeças de alho geralmente de tamanho médio, com dentes bem formados e perfil sensorial mais equilibrado, sem o travo áspero e cansado que tantos alhos modernos deixam na boca.

É esse alho, mais denso, mais complexo, ligado à terra de onde veio, que se está a perder quando deixamos que o mercado se faça quase só de importações indiferenciadas, que empobrecem o sabor, uniformizam a oferta e afastam dos nossos pratos a riqueza sensorial do alho que crescia nas hortas familiares.

Nas ilhas, onde durante séculos se cultivaram hortícolas moldadas pela orografia e pelo clima atlântico, a presença do alho também se vai rarefazendo perante a facilidade das importações. Esta perda não é apenas agrícola. É cultural e sensorial. É a perda de um sabor mais delicado e mais quente, de um perfume que fica nas mãos e na memória, de uma textura mais densa e firme que anunciava qualidade antes mesmo de entrar no tacho.

Estudos recentes revelaram diferenças mensuráveis entre alhos de regiões como Trás-os-Montes e o Algarve, visíveis nos teores de lípidos, proteínas, açúcares e compostos bioativos, refletindo adaptações às condições locais. Estas variações mostram a riqueza que o território português ainda guarda, mesmo na ausência de cultivares formalmente reconhecidos.

Tal como a batata ou os bolbos de tulipa, o alho não se semeia, planta-se. Cada dente é um pequeno órgão de reserva que dará origem a uma nova planta, réplica fiel daquela de que foi separado. Em geral, a plantação faz-se no outono e início do inverno, quando a terra ainda guarda humidade e o frio ajuda ao enraizamento.

Os dentes são colocados com a ponta voltada para cima, a poucos centímetros de profundidade, tipicamente entre 3 e 6 centímetros, ou cerca de uma a duas vezes a altura do próprio dente, conforme o solo e o calibre. Assim ficam protegidos da luz e das geadas, mas sem serem enterrados em excesso, para que a planta encontre facilmente o caminho da superfície.

Prefere solos soltos e bem drenados, não tolera encharcamentos. Humidade no início para despertar, frio para enraizar, e depois a secura que permite que a cabeça se forme com firmeza. Quando a primavera avança e as folhas começam a amarelecer pela base, o agricultor sabe que o ciclo se completou.

É então que se levantam as plantas, deixando-as secar ao sol ou à sombra, em locais bem ventilados, até que as túnicas sequem e se tornem firmes e o aroma se concentre, como sempre fizeram as mãos experientes dos hortelãos que conhecem este cultivo há gerações. 
 
A prática de entrançar o alho pertence ao saber antigo das hortas e das cozinhas rurais. Depois da colheita e da secagem, as cabeças de alho, ainda com as hastes flexíveis, são reunidas e entrelaçadas à mão, formando réstias ou cabos que se penduram em locais secos e bem ventilados.

Não é um gesto decorativo, mas um ato de conservação inteligente, que permite ao alho secar lentamente, evitar a podridão e durar meses sem perder carácter.

Assim entrançado, o alho fica à vista e à mão, acompanhando o quotidiano das casas, marcando o tempo da colheita e lembrando que, antes das despensas modernas, a sobrevivência dependia de gestos simples, repetidos com cuidado e conhecimento transmitido de geração em geração.

Estas tranças ou réstias são uma das minhas memórias favoritas do mundo rural. Ainda hoje as compro em feiras locais e às vezes também as uso!

O alho oferece ao mundo uma lição rara. Cresce escondido, protegido por camadas que guardam a paciência da vida, e só revela a sua força quando é tocado, esmagado ou levado ao calor, momento em que desperta os compostos que lhe dão carácter, aroma e virtudes.

Mostra-nos que o sabor e a cura podem nascer do mais simples, que nas coisas pequenas se escondem alquimias maiores do que o pensamento e que a terra guarda, na sua quietude, respostas que acompanham a história humana desde os seus primeiros gestos.

Permanece, assim, sereno e marcante, ponte entre o sagrado e o quotidiano, guardião de cozinhas e companheiro discreto das mesas onde se celebra a vida. Cada dente que se abre é um fragmento de antigas memórias que chegam até à mesa, lembrando-nos que é na terra e nas plantas que se inscreve uma parte essencial daquilo que somos.

Adoro cozinhar, gosto de estar rodeado de ingredientes frescos, biológicos, e de improvisar uma receita, um petisco. Como ainda vivo rodeado de agricultores, tenho sempre ingredientes de luxo à mão, exceto alho seco. O alho seco é o ingrediente base de quase tudo o que coloco dentro de um tacho.

O que se encontra hoje na maioria das superfícies comerciais tem dentes demasiado gordos, pouco aromáticos e um travo final que tantas vezes roça o desagradável. Raramente conserva a qualidade desejada e, em agricultura biológica regenerativa, de produção local, é dificílimo encontrar.

A produção nacional recua ano após ano e o mercado enche-se de alho importado, escolhido sobretudo pelo tamanho e pelo preço, mais do que pelo sabor ou pela adaptação à nossa terra.

O resultado é claro e inquietante. As formas tradicionais de alho, selecionadas durante gerações por agricultores que privilegiavam o aroma, a textura e a capacidade de conservação, vão desaparecendo silenciosamente do campo.

É por isso que faço este apelo. Que os horticultores de Portugal recuperem as populações tradicionais que ainda persistem, que as cultivem em agricultura biológica regenerativa e que o mercado lhes devolva o espaço que merecem.

Gostava que este texto fosse um contributo para o nascimento de um movimento pró@lho português, um movimento que devolva ao tacho, à mesa e à terra aquilo que lhes pertence desde sempre.

Porque dentro de cada dente de alho vive um pedaço da nossa história, um fragmento da nossa saúde e uma centelha da nossa identidade. E seria imperdoável deixá-lo apagar-se sem lutar pela sua preservação. É fundamental não confundir alhos com bugalhos!
 

 

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Porque devemos proteger o musgo

O musgo é um dos grupos de plantas terrestres mais antigos que aprenderam a viver fora da água e continuam hoje a acompanhar-nos, com a mesma discrição persistente de sempre.

Cresce devagar sobre a pedra fria, na frescura das ravinas, na sombra das velhas florestas e nas planícies encharcadas, onde a água se demora sem pressa, como se encontrasse um chão feito para a acolher.

A sua estrutura acolhe a humidade e liberta a água com suavidade, enquanto o carbono se acumula em repouso prolongado, sedimentado ao longo de gerações de crescimento lento. Nas turfeiras, os esfagnos das terras altas criam condições únicas para armazenar reservas de carbono, por unidade de área frequentemente muito superiores às das plantas vasculares que com eles convivem.

São pequenas plantas sem flores nem sementes, que influenciam de forma decisiva o equilíbrio da água, moderam a atividade do solo e sustentam uma diversidade ampla de microrganismos, invertebrados e plantas jovens, que encontram naquele tapete vivo um abrigo onde podem germinar e crescer.

Em Portugal existem musgos raros que exigem atenção redobrada. A espécie Riella helicophylla, por exemplo, sobrevive apenas em pequenas zonas do sotavento algarvio. No continente, mais de uma dezena de briófitos apresentam estatuto de ameaça, entre os quais Marsupella profunda, classificada como criticamente em perigo.

Nos Açores existem também várias espécies vulneráveis, dependentes da estabilidade das suas florestas húmidas e turfeiras. Na Madeira, onde a bruma sustenta comunidades únicas, destacam-se Bryoxiphium madeirense e Thamnobryum fernandesii, ambas restritas a poucos cursos de água e paredes sombrias.

Este conjunto discreto de seres vivos recorda-nos que a conservação não se faz apenas de grandes paisagens, mas de cada fragmento de habitat onde a água e a sombra ainda permitem que estas formas de vida persistam.

A legislação nacional que transpõe a Convenção de Berna, atualmente integrada no Decreto-Lei n.º 38/2021, aplica-se a todo o território português e proíbe a colheita, a apanha, o corte e a destruição dos habitats das espécies de flora incluídas nos respetivos anexos de proteção estrita.

Nas Regiões Autónomas, esta norma mantém-se plenamente em vigor e é complementada por orientações regionais que reforçam a fiscalização e a sensibilização pública.

Nos Açores, avisos recentes recordam que a remoção de leiva ou musgão (Sphagnum spp.) constitui uma contraordenação ambiental muito grave, reforçando o papel destas espécies na estabilidade das turfeiras e na regulação da água e do carbono.

Na Madeira, a proteção decorre igualmente da legislação nacional e dos planos de gestão de áreas protegidas que salvaguardam os habitats de montanha onde muitos briófitos sobrevivem.

Estas medidas existem porque a perda de musgo numa turfeira equivale a retirar uma peça essencial do ciclo da água e da guarda natural de carbono, fragilizando ecossistemas que demoram décadas a recuperar.

Mesmo onde a lei não impõe proibição direta, a apanha de musgo deve ser evitada. Estas comunidades são muito sensíveis ao pisoteio e à remoção da camada viva que retém a humidade. Cada porção retirada corresponde a anos de crescimento, que tardam em recompôr-se, e reduz a capacidade do solo para conservar água nas estações secas.

A recolha para fins decorativos, sobretudo na época natalícia, é uma das causas de regressão de várias populações, razão pela qual o ICNF e outros organismos apelam há anos para que não se arranque musgo para construir presépios e outros ornamentos.

A conservação começa em gestos simples. Caminhar com cuidado em zonas húmidas. Evitar a recolha de musgos e ensinar os mais jovens a reconhecê-los como guardiões de água e de quietude. Respeitar as áreas protegidas e seguir as orientações locais.

Apoiar projetos de recuperação de turfeiras e participar em atividades de ciência cidadã que registam a presença de espécies vulneráveis. Cada gesto reforça a teia frágil que sustenta estes seres antigos. Ao protegermos o musgo, protegemos um pedaço profundo do tempo e do clima.

Guardamos não só as espécies raras que vivem nas margens salinas de Castro Marim ou nos prados encharcados das ilhas, mas também a esperança de que a terra pode permanecer fértil, fresca e viva, se escutarmos estes pequenos testemunhos verdes que nos pedem apenas respeito e atenção.

Há sempre um caminho simples para honrar o musgo sem o ferir. A cortiça que imita a terra intacta, as pinhas caídas que a floresta oferece sem perda, as rodelas de fruta seca que iluminam o inverno, os pequenos ramos de poda que ainda guardam o perfume do campo e até os presépios de madeira ou feltro que duram uma vida inteira.

São alternativas usadas em muitos lugares do mundo, recordam-nos que a verdadeira beleza não precisa de arrancar nada ao manto húmido das ravinas. Se escolhermos materiais que encontramos no solo sem causar dano, tecidos que se reutilizam, plantas vivas que continuam connosco depois de dezembro, cada presépio transforma-se num sinal simples de cuidado.

Também as autarquias podem dar o exemplo, lembrando às comunidades que a proteção do musgo começa nos gestos de todos. Em muitos lugares do país erguem-se, por esta altura, centenas de presépios que celebram a criatividade das escolas, associações e famílias.

Se cada junta, câmara ou instituição incluir nos seus regulamentos a proibição do uso de musgo verdadeiro e premiar as propostas que recorrem a materiais sustentáveis, estará a transformar a tradição num exercício de preservação.

Assim, o presépio deixa de ser apenas um adorno de inverno e passa a ser uma forma de ensinar que a beleza não precisa de ferir o solo nem de remover o que faz falta aos aquíferos e à vida que neles se apoia.

Quando o poder local valoriza quem protege, a comunidade aprende que preservar o musgo é também preservar a água, o território e o futuro. E assim, poupando o musgo a uma prática descuidada, deixamos no solo a frescura de que ele precisa para continuar a guardar água, carbono e vida.
 

 

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A couve de Portugal

A couve-portuguesa (Brassica oleracea var. costata) ergue-se nas hortas do país como uma velha rainha que nunca precisou de coroa para ser reconhecida.

Carrega muitos nomes, como se cada região lhe tivesse oferecido uma parte da sua memória. Os agricultores do Norte e do Interior chamam-lhe penca, palavra antiga que descreve as suas folhas largas e suculentas.

Noutros cantos do país veste nomes herdados das gentes que a cultivam, tornando-se penca-de-Chaves, penca-de-Mirandela ou penca-da-Póvoa. Em Viseu e Mangualde surge como glória-de-Portugal, enquanto no vale do Tejo se apresenta como couve-de-Valhascos.
 
Nos arredores de Lisboa é simplesmente couve-portuguesa. Mais a sul, no Alentejo, encontra-se a Couve-murciana, de folhas amplas e talos doces. Em muitas hortas por todo o país continua a ser chamada tronchuda, nome que nasceu da forma aberta do seu corpo vegetal e do talo carnudo que se corta para o tacho.

Esta multiplicidade de nomes não é dispersão, mas pertença. Todas estas designações remetem para uma única variedade (Brassica oleracea var. costata), moldada ao longo de gerações de agricultores e reconhecida como parte viva do património agrícola nacional.

Importa distingui-la da couve-galega (Brassica oleracea var. acephala), que pertence a um grupo distinto da mesma espécie. As duas vivem lado-a-lado no vasto território de Brassica oleracea, mas seguiram caminhos próprios, desenhando formas e usos que o agricultor reconhece sem hesitar.

A couve-galega cresce em altura com uma serenidade altiva. Pode ultrapassar os dois metros, lançando um caule firme do qual se desprendem folhas longas e flexíveis que balançam ao vento como bandeiras verdes da paisagem agrícola. 

A sua abundância foliar, rústica e persistente ao inverno, fez dela presença constante nas hortas portuguesas, alimentando famílias e animais de criação. É dessa elegância alta e esguia que nasce o caldo-verde, prato emblemático da culinária nacional, onde as folhas cortadas em finos filamentos se transformam numa seda vegetal quente e aconchegante. 

A couve-tronchuda (Brassica oleracea var. costata), por sua vez, revela outra forma de habitar o espaço. Não cresce em altura como a galega, antes se abre em largura, num compasso vegetal moldado pela influência atlântica que percorre o litoral português, onde hoje se encontram grande parte dos seus cultivos.

As folhas apresentam-se amplas, espessas e arredondadas, sustentadas por talos carnudos que moldam um corpo vegetal robusto, quase escultórico. Esta arquitetura confere-lhe a resistência necessária para longas cozeduras e torna-a indispensável em caldos, sopas e cozidos, onde mantém a textura firme e o sabor profundo. 

Há nela uma humildade robusta. O talo grosso e tenro lembra um rio de carne vegetal que se abre desde o coração até à orla das folhas, cada tronchuda é uma geografia onde se escrevem invernos longos e memórias familiares.

Estudos morfológicos e genéticos confirmam que galega e tronchuda são dois conjuntos distintos de variedades tradicionais dentro da mesma espécie, moldados por séculos de seleção local. Duas expressões portuguesas do mesmo património botânico, duas vozes da mesma terra a recordar quem somos.

Não oferecem apenas alimento, oferecem continuidade. Quando entram no segundo ano e lançam as hastes florais, o agricultor acompanha o amadurecimento das síliquas com a mesma paciência com que acompanha as estações.

Para proteger a semente, tesouro frágil cobiçado pelo vento e pelos pássaros, cobre as flores com um saco de rede fina, método simples que a experiência reconhece como eficaz. Assim, as vagens amadurecem em segurança até serem colhidas e debulhadas à mão.

Cada rede a balançar no campo lembra que estas couves não são apenas plantas da horta, mas heranças vivas que passam de geração em geração, guardando no grão escuro a memória do passado e a promessa do futuro.

A couve-portuguesa é apenas um entre muitos cultivares desta família, mas foi na Península Ibérica que encontrou o seu palco maior, aperfeiçoado ao longo de gerações por agricultores que lhe deram forma, vigor e temperamento. 

Entre todas as brássicas que habitam o nosso quotidiano, ergue-se como presença constante e familiar, regressando aos pratos sempre que o frio aperta e o apetite procura conforto.

Os dados oficiais revelam que as couves são a cultura hortícola com maior volume de produção em Portugal, sustentando uma tradição agrícola e culinária que perdura. E é nesse universo que a tronchuda guarda o seu lugar firme e discreto, nascido da confiança que os portugueses lhe dedicam há gerações.

Dentro da espécie Brassica oleracea, onde convivem repolhos, couves-flor e brócolos, este cultivar português ergue-se como figura singular. Lá fora, surge descrita como tronchuda cabbage, Portugal cabbage ou Portuguese cabbage, ocupando lugar próprio na sinonímia hortícola internacional. 

Talvez por isso tantos lhe chamem, em tom de brincadeira séria, o Cristiano Ronaldo das hortas portuguesas, não pelas comparações fáceis, mas porque a sua fama ultrapassou há muito as fronteiras do país.

A diáspora levou a semente além-mar e, nas Bermudas, a planta ganhou tal prestígio que foi enviada em quantidades consideráveis para Nova Iorque no início do século XX. Em Inglaterra entrou no século XIX como Portugal cabbage, permanecendo nas hortas de quem preservava variedades tradicionais.

Nos quintais rurais, nas hortas urbanas, nos socalcos húmidos do Norte ou nas parcelas onde é cultivada ao longo do nosso litoral, demonstra uma adaptabilidade notável.

Estudos científicos mostram que as couves portuguesas constituem um conjunto de variedades tradicionais de grande singularidade a nível mundial, marcado por uma enorme diversidade de formas e por uma ligação profunda ao território. Cada planta é um arquivo vivo da agricultura portuguesa e um reservatório genético valioso para o futuro.

São plantas que toleram frio, geadas breves, solos pobres, ácidos e húmidos, temperaturas baixas de inverno. Conservam características consideradas antigas dentro da espécie, revelando traços que ajudam a compreender a evolução das couves cultivadas.

Na cozinha, a sua presença é inevitável. O sabor doce e vegetal, a cozedura suave, o seu papel nos cozidos e caldos, as pencas engrossadas pelo frio que tornam o Natal mais verdadeiro, tudo nela parece destinado a alimentar corpo e memória.

Oferece um perfil nutricional leve, pouca energia, carotenóides abundantes, vitaminas A e C e minerais essenciais como cálcio, fósforo e potássio. É também um alimento de proteção. Rica em fibra, essencial para a saúde intestinal, contribui para reduzir o risco de cancro do cólon e para manter um trânsito regular e uma microbiota equilibrada. 

Como todas as brássicas, transporta glucosinolatos que, ao serem transformados durante o corte ou a digestão, dão origem a compostos estudados pelo seu potencial efeito protetor. Num país onde se come cada vez menos hortícolas, manter a couve-portuguesa na mesa é um gesto simples de saúde pública, tão sensato quanto ancestral.

É um alimento que nutre sem alarde, cuja natureza íntima confirma aquilo que as gerações sempre disseram à mesa. FAZ BEM, faz-nos bem com uma simplicidade que desarma.

Contudo, apesar desta longa história de reconhecimento, enfrenta hoje o desafio da erosão genética. Muitos dos tipos regionais que lhe davam cor, forma e identidade foram sendo substituídos por cultivares uniformes, mais ajustadas às exigências do comércio intensivo.

As nossas variedades tradicionais são um património vivo, frágil e irrepetível, guardando séculos de seleção humana, representarão uma perda genética irreversível, caso deixem de ser cultivadas.  
 
Investigações recentes mostram que estas variedades, pela sua rusticidade e resiliência, têm potencial para responder aos desafios das alterações climáticas. A couve-portuguesa é também futuro.

Há algo de épico na forma como se ergue ao sol de inverno. Entre os muitos cultivares desta grande linhagem das brássicas, este destacou-se pela mão dos portugueses, tornando-se um emblema singular, a nossa couve de referência, a couve de Portugal que o mundo aprendeu a reconhecer.

Há plantas que carregam um país inteiro dentro de si. A couve-portuguesa é uma delas. Cada vez que uma criança provar pela primeira vez a sua folha tenra, continuará uma história iniciada há séculos na Península Ibérica, quando uma planta modesta começou o seu longo caminho até se tornar, legitimamente, na estrela definitiva das nossas hortas.

Estará à sua mesa este Natal?
 

 

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Um retrato dos grelos portugueses

Há palavras que transportam a memória funda da terra e dos gestos agrícolas que a moldaram. Entre elas, poucas soam tão enraizadas na cultura portuguesa como grelos.

O termo grelos funciona como um guarda-chuva linguístico que abarca as inflorescências jovens de várias espécies cultivadas para diferentes fins. São caules tenros que surgem quando a planta se prepara para florir e que, colhidos no instante certo, conservam a suavidade vegetal e o amargor elegante que lhes dá carácter.

No caso do nabo (Brassica rapa subsp. rapa), a mesma planta oferece ao longo do seu ciclo três colheitas distintas. A raiz tuberosa que conhecemos como nabo, as folhas jovens chamadas nabiças e, mais tarde, o botão floral ainda fechado, delicado e firme, que a tradição reconhece como grelos.

A diferença entre nabiças e grelos nasce do tempo vegetal da própria planta: as primeiras colhidas na fase inicial do crescimento, quando tudo ainda é folha, as segundas no limiar da floração, quando o caule guarda dentro de si a promessa da flor. Assim, raiz, folha e rebento coexistem numa só espécie e cada momento oferece ao paladar uma textura e um carácter distintos. 

Nas populações tradicionais de couve-nabiça, pertencentes a Brassica rapa, os rebentos florais surgem com abundância sobretudo nos meses frios, prolongando a generosidade desta espécie. Embora a verdadeira couve-nabo corresponda a Brassica napus var. napobrassica, é sobretudo o grande ramo das Brassica rapa que alimenta, no nosso país, os rebentos florais que o povo reúne sob o nome de grelos.

A estas juntam-se, por afinidade de uso e tradição, as inflorescências juvenis da couve-portuguesa (Brassica oleracea var. costata), variedade antiga também chamada penca ou tronchuda, cujos caules jovens partilham a mesma vocação culinária.

E, porque cada região se relaciona com a planta de forma própria, também a língua colhe o que a terra oferece. Em muitas terras, os rebentos da couve-portuguesa são conhecidos como espigos. No Norte, certos rebentos de couve recebem o nome de netos, evocando a descendência viva da planta mãe. 

À medida que abandona a fase vegetativa, a planta alonga o caule e forma os primeiros botões florais. É nesse instante preciso que o grelo atinge a textura ideal, firme e macia. Se a flor se abre, a fibra endurece e perde-se a delicadeza que o define. 

A diversidade de espécies, de variedades locais e de modos de cultivo faz com que os grelos apareçam em vagas sucessivas ao longo do ano. Há grelos densos que amadurecem no rigor do Inverno, rebentos luminosos que anunciam a Primavera e colheitas tardias que prolongam o verde até ao início do Verão. É esta alternância natural, própria do ritmo das hortas, que assegura a sua presença constante na cozinha portuguesa.

Colher no momento certo é a arte antiga que molda este alimento e acompanha séculos de domesticação do nabo no noroeste peninsular, onde inúmeras variedades foram apuradas para produzir inflorescências abundantes e saborosas.

Na Galiza, tal valor cultural tornou-se tão profundo que os Grelos de Galicia receberam Indicação Geográfica Protegida, reconhecimento oficial de uma tradição que atravessa séculos e continua viva na paisagem agrícola galega.

Os gestos culinários que lhes fazem justiça são simples e antigos. Cozem-se em água a ferver para fixar a cor e amaciar a fibra ou salteiam-se em azeite com alho para libertar o perfume vegetal que lhes é característico. 

Quando se procura traduzir grelos para inglês surgem expressões como spring greens ou turnip greens, aparentadas, mas imperfeitas. Aproximam-se da realidade, mas nenhuma delas contém a amplitude botânica, a diversidade regional e o imaginário culinário que a palavra portuguesa transporta. 

A ciência confirma a intuição ancestral. Os grelos são hortícolas de valor calórico reduzido e de notável densidade nutricional. Cem gramas de grelos crus oferecem vitaminas A, C e K, folatos, fibra e minerais como cálcio e potássio.

As brassicáceas que lhes dão origem são também fonte de glucosinolatos, compostos que ao serem transformados em isotiocianatos participam em mecanismos bioquímicos estudados pela investigação contemporânea, sobretudo no domínio da proteção cardiovascular e dos sistemas de defesa celular.

O sabor dos grelos nasce do encontro entre a química íntima da planta e o momento da colheita. Certas moléculas sulfuradas oferecem um amargor subtil que se harmoniza quando o rebento é apanhado antes da flor abrir. A firmeza do caule e a delicadeza das pequenas folhas revelam a força vital da planta num momento de pura transição, quando a floração ainda é apenas promessa. 

Na cozinha portuguesa, os grelos são mais do que um ingrediente, são um sinal de identidade. Entram no bacalhau cozido com todos, acentuam a riqueza dos rojões à moda do Minho, aprofundam caldos de arroz de frango e conferem carácter vegetal a cozidos regionais. Trazem consigo o sabor da terra fria e o ritmo das hortas que se renovam ao compasso das estações. 

Lá fora, parentes próximos percorrem caminhos gastronómicos diferentes. No sul dos Estados Unidos, as turnip greens cozinham-se longamente com carnes fumadas. Em Itália, as cime di rapa evocam uma alma vegetal semelhante e encontram eco em massas e pratos de azeite e alho. No Japão, rebentos de Brassica rapa são colhidos muito cedo para conservas e fermentações que celebram a chegada da Primavera.

A investigação agronómica portuguesa reforça este património. Variedades tradicionais do nabo (Brassica rapa subsp. rapa) e das diversas formas de couve-nabiça, igualmente pertencentes a Brassica rapa, continuam a ser estudadas quanto ao seu valor genético, químico e sensorial, revelando a profundidade de um património agrícola que merece ser protegido. 

Em simultâneo, a crescente curiosidade internacional pelos grelos tem dado visibilidade a este alimento atlântico de grande riqueza em micronutrientes e fitoquímicos, cuja simplicidade aparente esconde uma complexidade botânica e cultural que atravessa séculos de cultivo.

Há também o percurso mais humano e simbólico da palavra grelo. O rebento que desponta e anuncia fertilidade tornou-se metáfora da intimidade feminina e, assim, o termo passou a designar no uso popular o clítoris.

Esta associação não nasce de irreverência, mas da forma ancestral como a língua portuguesa recorre às imagens da natureza para nomear o corpo com discrição e poesia. A flor ainda por abrir converte-se em imagem possível da flor secreta do corpo, unindo símbolo e pudor num mesmo gesto linguístico. 

No fim, os grelos desenham uma dança onde se encontram botânica, cultura e sabor. Crescem na claridade fria do Inverno, colhem-se na juventude da planta e chegam ao prato como um dos gestos mais genuínos da cozinha portuguesa.

A simplicidade com que emergem e a forma como se entranham na memória coletiva fazem deles um dos mais marcantes tesouros verdes de Portugal, portadores de séculos de conhecimento agrícola e de uma intimidade culinária que continua a dar sentido à nossa mesa.
 

 

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O enigma do medronheiro

O medronheiro (Arbutus unedo) entrou na minha vida pela porta discreta das serras portuguesas, mas o trilho que levou até ele começou muito antes, nas savanas distantes que eu via em criança nos documentários de televisão. Havia então uma árvore africana, a marula (Sclerocarya birrea), envolta em histórias tão fascinantes quanto inverosímeis.

Víamos nesses documentários jovens elefantes, macacos, javalis e antílopes a cambalearem junto às marulas, numa coreografia que parecia nascida do próprio fruto caído e fermentado. Aquelas imagens, filtradas pela infância, tinham para mim a intensidade de um assombro primitivo, como se a natureza guardasse ali um enigma vindo de terras distantes.

Durante anos aceitei esse espetáculo sem desconfiança, sem imaginar que por detrás daquela dança havia um tema complexo, que ainda hoje convoca investigadores. A relação profunda entre animais, frutos fermentados e substâncias capazes de moldar o comportamento.

Não é apenas mito ou fantasia. É um território de dúvida fecunda, onde as perguntas continuam vivas e a ciência avança com cautela, reconhecendo que há fenómenos que ainda escapam à medição exata.

O que hoje se conhece é mais complexo e infinitamente mais interessante. Trabalhos recentes realizados em Botswana mostraram que os frutos da marula abrigam uma comunidade surpreendentemente rica de leveduras selvagens, capazes de transformar os açúcares do fruto em etanol em quantidades relevantes. 

Estas investigações revelaram que a marula fermenta com rapidez e que, em teoria, a sua composição aromática e alcoólica pode influenciar o comportamento de várias espécies frugívoras.

Os próprios autores reconhecem que esta fermentação cria condições plausíveis para estados de intoxicação, ainda que insuficientes para afirmar que elefantes, macacos ou outros mamíferos africanos chegam realmente a embriagar-se na natureza. A narrativa permanece num território intermédio, onde a observação popular e a curiosidade científica avançam lado-a-lado, à espera de provas que desfaçam ou confirmem o enigma.

Ao mesmo tempo, a investigação mais recente sobre o papel ecológico do etanol nas paisagens naturais trouxe uma revelação discreta e profunda. O álcool não é uma extravagância humana, mas uma presença discreta e constante nos ecossistemas. 

Frutos muito maduros ou caídos acumulam pequenas percentagens de álcool por fermentação espontânea, inúmeros animais frugívoros consomem-nos como parte da sua rotina alimentar.

Sabe-se hoje, por exemplo, que os chimpanzés podem ingerir diariamente quantidades equivalentes, em termos relativos, a um copo de cerveja humano, sem sinais de embriaguez, porque metabolizam o etanol com natural eficiência.

Há também registos de aves e pequenos mamíferos que, ao comerem frutos fermentados ou néctares alcoólicos, exibem comportamentos compatíveis com desorientação, estes, sim, descritos com maior detalhe. Assim, o consumo de substâncias psicoactivas naturais por animais deixou de ser mera anedota para se afirmar como parte reconhecida da ecologia evolutiva.

É neste amplo contexto que sempre coloquei o medronheiro. Em Portugal, foi a árvore que, no meu imaginário, mais se aproximou da marula africana. Nos meus anos de estudante na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, novembro tinha um ritual próprio.

Caminhávamos demoradamente pelo campus à procura dos medronhos mais maduros, quase rendidos ao toque, vermelhos, rugosos, carregados daquela doçura que só o frio sabe intensificar.

Havia anos de abundância e anos de quase absoluto vazio. Só mais tarde percebi que essa oscilação é bem conhecida pelos produtores, falam de anos de safra e de contrassafra, descritos pela ciência como variabilidade interanual marcada, condicionada por geadas, secas, ventos fortes durante a floração e pelo estado fisiológico das plantas.

Tal como aconteceu com a marula, também o medronheiro gerou o seu próprio mito, a ideia teimosa de que comer muitos frutos poderia provocar tonturas ou até uma pequena bebedeira. Hoje sabemos que os frutos maduros na árvore praticamente não contêm álcool e que não existe qualquer registo clínico ou experimental de embriaguez em adultos por consumo de medronhos frescos.

O único cenário plausível, embora nunca comprovado, seria o de uma criança pequena comer frutos caídos já em início de fermentação, mais vulnerável ao álcool por ter menor densidade corporal e metabolismo ainda imaturo, ecoando aqueles relatos de juventude em que tantos lembram uma leve atordoação, o rosto a aquecer, o riso a nascer sem esforço ou uma breve sensação de desequilíbrio depois de devorar medronhos em excesso.

Mas a embriaguez que realmente conhecemos é outra. É a da aguardente que o ser humano soube extrair destes frutos, destilada em alambiques de cobre nas serras de Monchique e do Caldeirão, guardada como património cultural e económico, protegida por indicação geográfica e sustentáculo de muitas famílias deste sul serrano.

O medronheiro, porém, é muito mais do que os seus frutos. É autóctone de Portugal continental e atravessa o país inteiro, firmando-se em solos pobres, subindo encostas íngremes, insinuando-se por ravinas profundas, ocupando clareiras de mato mediterrânico.

Adapta-se ao xisto, ao granito, ao calcário e até a solos mais delgados, exibindo uma versatilidade rara entre as espécies autóctones. Nos Açores surge sobretudo na Terceira, como espécie introduzida, e na Madeira apenas por mão humana.

A sua biologia tem uma cadência singular. As flores aparecem no outono, quando tantas plantas recolhem energias, e oferecem alimento vital aos polinizadores. Ao mesmo tempo, os frutos do ano anterior amadurecem devagar até janeiro, criando uma continuidade que poucos arbustos conseguem igualar.

As raízes prendem os taludes, amparam a erosão e favorecem a infiltração de água. Depois dos incêndios, rebenta com um vigor quase instintivo a partir da base, tornando-se peça essencial em muitos programas de restauro ecológico.

Nas serras do Sul, o fruto do medronheiro ganhou um peso económico e cultural que atravessa gerações. A sua colheita, fermentação e destilação deram forma a uma fileira que reúne pequenos produtores, cooperativas e um saber transmitido durante gerações.

A aguardente que daí nasce condensa numa gota a paisagem serrana e o engenho humano. Em paralelo, os seus frutos alimentam compotas, doces e licores, e o mel de medronheiro, escuro, amargo e riquíssimo em compostos fenólicos, destaca-se como um dos méis mais singulares de toda a flora portuguesa.

A compreensão científica desta espécie tem-se aprofundado progressivamente. Investigadores estudam a sua diversidade genética, procuram linhagens mais tolerantes à seca, analisam a sua resposta ecofisiológica ao fogo, descrevem compostos bioactivos com interesse nutracêutico e integram o medronheiro em modelos de mosaicos agroflorestais concebidos para enfrentar as pressões crescentes das alterações climáticas.

Assim, a espécie deixou de ser apenas um elemento tradicional da paisagem para se afirmar como protagonista nos debates sobre o futuro ecológico do país.

Partilho uma bela curiosidade sobre a cidade de Madrid, que escapa ao olhar apressado de tantos viajantes. No centro da Puerta del Sol ergue-se a figura de um urso empinado sobre as patas traseiras, estendendo-se para alcançar os frutos de um medronheiro.

Símbolo heráldico da capital espanhola desde a Idade Média, reúne numa única imagem a cidade e esta árvore persistente, celebrando a fertilidade, a resistência e a ligação profunda entre território e identidade.

E, no entanto, quantos passam diante dessa estátua sem reconhecer naquele arbusto de copa arredondada o nosso velho conhecido, o mesmo medronheiro que cresce nas serras portuguesas?

E quando deixo que todas estas imagens se aproximem, a árvore africana que continua a despertar investigação, os chimpanzés que convivem com o etanol natural dos frutos, os mamíferos que por vezes cedem ao apelo dos frutos fermentados e o medronheiro português com os seus globos vermelhos a iluminar o inverno, revela-se uma continuidade inesperada entre ecologia, comportamento animal e cultura humana.

E é nessa linha que o medronheiro encontra o seu lugar. Não como fonte de embriaguez, mas como espécie que entrelaça ciência, paisagem, economia rural e a memória sensível de quem o encontra nos caminhos do nosso país.
 
 



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Bolotas e a soberania alimentar

Imagine-se perante um carvalho. Feche os olhos. Respire o seu aroma de madeira antiga. Volte a abri-los e imagine agora uma plantação viva, extensa, ondulante, ocupando dezenas, centenas, milhares de hectares. Não para produzir madeira. Não para adornar paisagens.

Mas para alimentar seres humanos e animais, como um grande pomar de troncos robustos e copas largas, uma verdadeira cultura agroflorestal de longa duração, tão portuguesa como o pão que nos acompanha desde sempre.

A provocação é simples e poderosa. Sabia que as bolotas de várias espécies de Quercus são um dos alimentos mais antigos dos nossos antepassados ibéricos?

A arqueologia confirma o seu uso desde a Pré-História. Em inúmeros sítios escavados por toda a Península Ibérica surgem bolotas carbonizadas, utensílios de trituração e vestígios de armazenamento que revelam uma prática alimentar antiga e persistente, a balanofagia, o consumo humano de bolotas.

Durante milénios, muito antes de o trigo ou o centeio moldarem as primeiras civilizações agrícolas, as bolotas foram alimento quotidiano, reserva energética e sustento das comunidades que habitavam estes territórios. Era a comida que a terra oferecia sem exigir arroteias, irrigação ou lavoura, um recurso generoso que marcou de forma profunda a nossa história alimentar.

Séculos mais tarde, quando chegaram ao continente novas culturas vindas de longe, a batata trazida das Américas, o milho dourado dos conquistadores, o arroz que viria a transformar os campos alagados do Sul, as bolotas já tinham alimentado gerações incontáveis. Foram sustento, reserva, pão e companhia desde tempos imemoriais, muito antes de qualquer um destes alimentos assumir o protagonismo que hoje lhes reconhecemos.

A história repete-se em ciclos. A bolota, que alimentou os nossos antepassados desde a Pré-História, voltou a ser tábua de salvação em tempos de privação. Nos montados e carvalhais do século XX, sobretudo durante as décadas marcadas pela Guerra Civil Espanhola, pela Segunda Guerra Mundial e pela pobreza extrema no meio rural, muitas famílias alentejanas sobreviveram graças a ela.

A memória oral recolhida no Alentejo é clara e profundamente viva. Gente que apanhava bolota nos montados onde os porcos pastavam, crianças que a comiam como conduto da escola, mulheres que a cozinhavam com arroz, feijão ou couve, homens que enchiam sacos durante a noite para vender aos compradores ambulantes. O fruto seco que hoje olhamos com desatenção foi, durante séculos, pão de vida.

A diversidade das espécies de Quercus portuguesas permitiu esta relação profunda. Temos o sobreiro (Quercus suber), soberano das terras mais atlânticas, e a azinheira (Quercus rotundifolia), resistente às amplitudes térmicas do interior. No Norte surgem os carvalhais de folha caduca, com o carvalho-alvarinho (Quercus robur), o carvalho-português (Quercus faginea) e o carvalho-negral (Quercus pyrenaica). Todas estas espécies produzem bolotas comestíveis, embora com características distintas.

A ciência confirma aquilo que a tradição sempre soube. A bolota de azinheira é, em geral, a mais doce e a menos adstringente, graças ao seu teor mais reduzido de taninos, o que a torna naturalmente mais fácil de consumir e é hoje uma das espécies reconhecidas para consumo humano no espaço europeu.

As restantes espécies, embora igualmente nutritivas, pedem cuidados de preparação, sobretudo a remoção dos taninos que lhes conferem amargor. Assim surgem técnicas antigas para retirar os taninos e devolver doçura ao fruto, como a lixiviação em água corrente durante dias, a cozedura prolongada ou a desidratação lenta, que transformam a dureza inicial num alimento delicado e saboroso.

Cada árvore é um mundo. Mesmo dentro da mesma espécie, a variabilidade genética faz com que existam árvores particularmente doces, conhecidas localmente e procuradas geração após geração. É este diálogo entre diversidade natural e conhecimento humano que mantém viva a arte de comer bolota.

Os saberes tradicionais são um património delicado. No passado, sabiam conservar as bolotas durante todo o ano, usando técnicas engenhosas que hoje reaprendemos com surpresa. Avelavam-nas (processo natural de desidratação lenta e controlada). Guardavam-nas em arcas de madeira, virando-as regularmente para evitar humidades, permitindo que murchassem e ganhassem doçura.

Fumavam-nas na chaminé, em cestos feitos de rebentos de oliveira, durante semanas, obtendo um fruto seco de sabor profundo, durável e nutritivo. Cozinhavam-nas em sopas, em pastéis, em bolos e ainda preparavam um “café” de bolota torrada, muito apreciado.

Mas o século XXI trouxe algo novo. A ciência voltou a escutar a tradição e empresas portuguesas, inspiradas nos antigos modos de fazer, começaram a resgatar a bolota e a transformá-la em alimentos modernos, saudáveis e sustentáveis.

Os estudos realizados em Portugal demonstram o seu potencial nutricional. Revelam que as bolotas são ricas em hidratos de carbono complexos e apresentam teores interessantes de ácido oleico e linoleico, bem como de antioxidantes, vitamina E e compostos fenólicos.

Não contêm glúten, o que as torna acessíveis a mais pessoas, e possuem amidos que conferem às massas uma textura estável e qualidades tecnológicas muito apreciadas na panificação e na pastelaria.

A investigação conduzida pela Universidade do Porto, pela Universidade de Évora e por equipas multidisciplinares de agroecologia e tecnologia alimentar tem vindo a caracterizar várias espécies e a validar cientificamente o que a tradição já sabia. A bolota é um alimento completo, versátil e seguro.

O trabalho pioneiro da Herdade do Freixo do Meio marcou um antes e um depois na fileira contemporânea da bolota. Em 2008 surgiu ali o primeiro produto moderno transformado a partir deste fruto. A partir desse gesto inaugural nasceu também uma narrativa de regeneração ecológica, de economia circular, de valorização do montado e de inovação com sentido.

Outras empresas seguiram o caminho. Hoje encontramos farinhas de bolota, bolotas desidratadas e descascadas, bebidas vegetais, compotas, cremes de barrar, pastas salgadas, bombons, biscoitos, broas, pães e infusões.

A farinha de bolota fina e estável, produzida com processos de secagem controlada, permitiu a padronização de receitas e abriu portas à exportação. Hoje, algumas empresas portuguesas exportam produtos de bolota para vários países europeus, do pão às farinhas, dos biscoitos às compotas, revelando o potencial económico desta fileira.

Está demonstrado que as espécies Quercus faginea, Quercus rotundifolia, Quercus suber e Quercus pyrenaica produzem bolotas comestíveis e nutricionalmente relevantes. As diferenças na composição destas espécies ampliam as possibilidades culinárias e tornam a bolota um ingrediente versátil para explorar novos caminhos gastronómicos.

Mas o caminho da bolota não se esgota na ciência nem na economia. Estende-se para lá disso, porque é também uma proposta ecológica e uma decisão estratégica. Num país que importa mais de metade dos alimentos que consome, torna-se urgente criar alternativas sólidas e de longo prazo que reforcem a soberania e a resiliência alimentar.

É fundamental promover alimentos ajustados ao clima mediterrânico, capazes de suportar a seca, crescer sem irrigação intensiva, regenerar solos e dar estabilidade aos ecossistemas.

Os carvalhos respondem a estas questões com uma sabedoria antiga. São árvores de elevado valor ecológico, estruturantes do território e capazes de produzir alimento durante décadas ou até séculos, mesmo em condições adversas.

Imaginemos, então, montados e carvalhais multifuncionais, concebidos como verdadeiros pomares silvestres. Sistemas agroflorestais que produzem proteína vegetal, gordura saudável, fibra e antioxidantes, enquanto sequestram carbono, protegem o solo, aumentam a infiltração de água e preservam a biodiversidade.

Um país onde a bolota é novamente ingrediente quotidiano, base de farinhas, pães, cafés, cremes, bebidas e doces. Escolas a ensinar as crianças a reconhecer as diferentes espécies de carvalhos e a transformar bolotas. Imaginemos chefs a reinventar a culinária ibérica a partir de um alimento milenar.

Os projetos em curso vão nesse sentido. Existem grupos de investigação dedicados à valorização das bolotas do género Quercus, projetos de mapeamento genético, estudos sobre tecnologias de processamento e iniciativas de economia circular. Há também esforços que recuperam práticas antigas para lhes dar utilidade contemporânea, aproximando o saber tradicional da investigação mais recente, criando oportunidades para o desenvolvimento rural.

Empresas emergentes integram a bolota em cadeias de valor locais, reforçando a economia dos montados e carvalhais, enquanto alguns agricultores ensaiam modelos de recolha, secagem e transformação com baixo impacto energético.

A bolota não é apenas alimento. É proposta. É caminho. É memória e futuro. É ferramenta de resiliência num tempo em que as cadeias de distribuição globais se mostram vulneráveis.

É recurso abundante num país que já foi dominado por carvalhais e que pode voltar a ser, com inteligência, cuidado e visão ecológica. É oportunidade para criar sistemas alimentares verdadeiramente mediterrânicos, adaptados ao nosso clima, à nossa história e à nossa cultura.

Talvez seja este o momento de olhar para os carvalhos com outros olhos. Não apenas como sombra ou madeira. Mas como alimento. Como soberania. Como resiliência. Como promessa de um país que se reencontra com as suas raízes para garantir o seu futuro.
 

 

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A luz guardada nas árvores

Quando acendemos a lareira, pensamos muitas vezes que estamos apenas a queimar madeira. Mas o que arde ali é outra coisa. É luz. Luz antiga. Luz partilhada. A chama que se ergue diante de nós é o regresso do Sol que as árvores guardaram durante anos.

Aquele calor não é apenas calor. É o eco de fotões que viajaram desde a superfície solar até às folhas de um carvalho, de um castanheiro, de um pinheiro. 

Fotões que iluminaram verões da nossa infância, tardes de praia, caminhadas no campo, momentos em que crescíamos distraídos do facto de que uma árvore, serena e paciente, recolhia essa mesma luz para nos a oferecer de novo um dia.

Durante décadas, a árvore recebeu o Sol que também nos banhou. Cada primavera em que renascia, cada verão em que alargava a copa, fazia aquilo que apenas os seres fotossintéticos sabem fazer. Transformava claridade em substância.

Convertia energia luminosa em matéria, fabricando açúcares que depois arrumava com cuidado no tronco, prendendo o brilho dos dias em ligações de carbono que se tornavam madeira. Anel após anel, a árvore foi arquivando esta luz, solidificando o passar das estações, guardando dentro de si as primaveras que também nós experienciamos.

Por isso, quando uma árvore tem a nossa idade, a sua combustão é o regresso de uma claridade que atravessou as mesmas estações que nós.

Aquele fogo liberta a luz dos verões que nos viram crescer, a mesma radiação que tocou a nossa pele quando éramos crianças maravilhadas com as marés, com o voo dos insetos, com o cheiro das algas, com o ruído das pinhas a estalar ao sol.

Adolescentes que descobriam o mundo sem pressa, encantados com o rumor das árvores, com o brilho do rio depois da chuva, com a dança lenta das nuvens sobre o campo. Adultos que aprenderam a abrandar diante da vastidão tranquila do horizonte, onde a luz pousa sem exigir nada.

Todo esse Sol que um dia nos aqueceu o rosto ficou também guardado no tronco que agora colocamos na lareira. 

A ciência explica o milagre com simplicidade desarmante. Graças à fotossíntese, a árvore captou energia solar e usou-a para construir moléculas ricas em ligações químicas. Ficaram presas ali, no lenho, sob a forma de celulose, hemicelulose e lenhina. A madeira tornou-se um cofre de luz. 

Quando o fogo se aproxima, esse cofre abre-se. O calor quebra as ligações que a árvore criou ao longo da vida e a energia regressa ao mundo como chama viva, como claridade quente que enche a nossa casa. A combustão é o gesto inverso da fotossíntese, a devolução luminosa daquilo que antes foi colhido do céu.

É por isso que aquele primeiro estalido da lenha parece sempre mais profundo do que um simples ruído. São paredes celulares a ceder, sim, mas é também uma memória a libertar-se. Cada faísca que salta é um fragmento de verão. Cada brasa é um resto de tarde luminosa que brilhou sobre a árvore e sobre nós.

Cada chama é uma frase escrita na linguagem elementar do carbono, a lembrar-nos que a luz que um dia recebemos continua aqui, renascida em fogo.
 
Guarda-se nos anéis de uma árvore como se guardasse numa caixa-forte as estações que vivemos ao lado dela. E um dia, quando a lenha arde na sala onde conversamos, a luz dessas estações regressa inteira, aquecendo-nos como nos aqueceu quando éramos outros. 

O fogo que nos ilumina hoje é o mesmo Sol que nos tocou na pele quando descobríamos o mundo. A lareira apenas revela o que sempre esteve lá. A energia de todas as primaveras e todos os verões que nos viram crescer, devolvida em forma de chama.

Quando acendemos a lareira, devíamos lembrar-nos de que cada tronco é um corpo inteiro de luz acumulada, anos de claridade tecidos em madeira.

E porque essa luz não se repete, porque cada árvore é um milagre irrepetível da paisagem, cabe-nos honrar o gesto de a queimar. Por cada chama que se eleva, deveria nascer uma jovem árvore algures no mundo, para continuar a escrever a história que aquela deixou por terminar.

Pois o fogo consome, mas a floresta renova. E se a lareira nos aquece hoje, é porque um dia uma árvore se deixou atravessar pelo Sol para o guardar no seu lenho. Agora é a nossa vez de devolver. Plantar é o modo humano de agradecer. É fazer regressar à terra a promessa luminosa que o tronco cumpriu. É garantir que as estações futuras terão onde pousar a sua claridade.

Que cada chama nos lembre isto: o fogo só é completo quando abre caminho a outra vida. Queimar madeira é aceitar uma herança de luz; plantar uma árvore é prolongá-la.

E assim, quando a próxima lareira for acesa, não teremos apenas um lar mais quente. Teremos também um mundo mais pleno, capaz de guardar novamente o Sol que um dia regressará, em forma de chama, para nos aquecer outra vez.
 

 

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O Azevinho e o Príncipe

Nas encostas sombrias onde a humidade se demora entre raízes ancestrais, como uma prece subterrânea, ergue-se o azevinho (Ilex aquifolium), eterno no seu verde que não se rende ao tempo. Em Portugal continental ele é relíquia e sentinela, remanescente de climas extintos, guardião de matas frescas onde o rumor do mundo cessa e dá lugar ao silêncio primordial da floresta.

Nas ilhas atlânticas outras vozes do mesmo género sussurram com ele. Na Madeira vive o perado (Ilex perado subsp. perado), mais macio na folha, mais moldado pela respiração húmida da Laurissilva. 
 
Também nos Açores existe o seu eco botânico, o perado-dos-Açores (Ilex perado subsp. azorica), moldado por brumas e ventos oceânicos. Todos são fragmentos de uma linhagem antiga, dispersos como notas de um mesmo poema vegetal. 
 
Em Portugal continental a distribuição desta árvore desenha uma mancha atlântica no Norte e Centro, encontrando refúgio nas serras húmidas, nos vales frescos, nos barrancos que guardam a sombra como se fosse um tesouro. 
 
A Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental classifica a espécie como de Preocupação Menor, mas reconhece que alguns núcleos isolados permanecem vulneráveis, pela rarefação do habitat e pela pressão de origem humana. 
 
Ao longo dos séculos, esta planta foi símbolo de poder. Os romanos associaram-lhe virtudes protetoras, os povos celtas viram nela um talismã contra a escuridão do inverno, presença sagrada nos bosques onde se celebrava o triunfo da vida sobre a noite mais longa. No Natal cristão, as folhas persistentes tornaram-se promessa de vida que renasce e os frutos brilhantes ecoaram a cor da esperança. 
 
Esta mesma beleza simbólica, tão fundida na sensibilidade europeia, acendeu nas últimas décadas uma procura quase febril de ramos, sobretudo na quadra natalícia. As mãos humanas, movidas por um desejo antigo de trazer o verde para dentro de casa, colheram sem medida, arrancaram sem pensar, descarnaram exemplares seculares. 
 
Assim, o encanto transformou-se em ferida. Muitos núcleos espontâneos foram mutilados, outros desapareceram, como se a própria floresta tivesse sido obrigada a apagar a sua luz para que a nossa brilhasse. 
 
Por isso a lei protegeu a espécie cedo. O Decreto-Lei n.º 423 de 1989 ergueu-lhe um escudo legal e proibiu o corte, arranque, transporte ou venda de exemplares espontâneos em Portugal continental, admitindo apenas exceções muito restritas. 
 
A tradição teve de aprender a conter a mão. Quem deseja ramos deve comprá-los a viveiristas credenciados, optando por plantas cultivadas legalmente e não colhidas na penumbra dos bosques. Assim a celebração não fere o que celebra e a memória da espécie permanece de pé na paisagem. 

A árvore gosta de sombra luminosa, de solos frescos, profundos e ácidos, de brisas suaves que a mantenham desperta. Adapta-se bem ao jardim quando lhe damos o lugar certo, crescendo com a lentidão digna de quem vive séculos. 
 
Tem um enorme talento enquanto ornamental. Existem variedades com folhas variegadas, salpicadas de creme, outras de verde quase negro, algumas de porte mais compacto e outras em que as margens se tornam menos armadas, deixando sobressair a elegância do contorno. 
 
O azevinho divide-se entre machos e fêmeas, plantas distintas que dependem uma da outra para cumprir o seu ciclo. Nos indivíduos masculinos o pólen liberta-se ao movimento do ar e ao toque diligente dos insetos que percorrem as flores em busca de néctar, sendo estes o principal veículo de polinização. 
 
As flores femininas, discretas e recetivas, esperam esse grão minúsculo vindo de uma planta masculina próxima, pois sem ele não haverá fecundação. Quando o pólen chega, inicia-se um processo lento e silencioso que culmina na formação dos frutos vermelhos que iluminam o inverno. A frutificação depende desta colaboração entre vento, insetos e proximidade entre plantas masculinas e femininas. 
 
Há, contudo, exceções curiosas no vasto mundo das variedades cultivadas. Alguns cultivares selecionados ao longo do último século revelam comportamentos distintos daqueles que se observam nas populações silvestres. 
 
Como o Ilex aquifolium ‘J.C. van Tol’, capaz de frutificar mesmo sem a presença de um macho por perto, e híbridos ornamentais, como Ilex cornuta ‘Burfordii’, conhecidos pela sua frutificação consistente quando cultivados isoladamente. 
 
Esta frutificação deve-se, em grande parte, à partenocarpia, um processo biológico em que o fruto se desenvolve sem que ocorra a fertilização dos óvulos. No caso do género Ilex, como sugerido por estudos recentes, muitos destes frutos surgem após o simples estímulo do pólen, mas sem que haja fusão dos gâmetas, formando-se assim drupas estéreis, desprovidas de embrião. São frutos que imitam o ciclo reprodutivo, mas não o completam. 
 
Estas variedades cultivadas, úteis para jardins pela sua frutificação fiável, não refletem o comportamento ancestral do azevinho nativo, que permanece inteiramente dependente da dança entre pólen, vento e insetos. São variações de jardim, exceções convenientes, mas estranhas ao compasso lento e rigoroso da espécie tal como existe na natureza. 
 
As folhas brilhantes e coriáceas guardam segredos mais subtis do que a sua aparência permite adivinhar. Nas zonas ao alcance dos herbívoros, erguem espinhos nítidos, lâminas vegetais feitas para dissuadir mandíbulas. 
 
À medida que a copa escapa aos dentes dos animais, essas armas abrandam, esbatem-se, desaparecem, como se a árvore finalmente respirasse sem a sombra da ameaça. Mas quando as mãos humanas insistirem em podá-la, impondo cortes sucessivos, ela responde como sempre respondeu à pressão do mundo à sua volta. Renova a couraça, faz nascer folhas armadas, devolve os espinhos aos lugares onde a vulnerabilidade voltou a existir. 
 
Esta plasticidade defensiva, hoje revelada por estudos epigenéticos e morfológicos, mostra que a árvore não esquece. Guarda a memória do que a feriu e inscreve essa lembrança no contorno das folhas, como se o corpo vegetal escrevesse a sua própria história em cada margem afiada que cria. 
 
As sementes, por sua vez, entregam-se a uma dormência profunda. Guardam dentro de si um embrião ainda incompleto, como uma promessa que precisa de tempo para aprender a ser árvore. Mantêm travões fisiológicos que as seguram no escuro da terra. Precisam de calor para começar a despertar e, depois, de frio para completar o seu renascimento. 
 
Este ciclo de estratificações, quente e depois fria, dura meses, por vezes anos. A germinação pode levar entre 18 e 24 meses, como se cada semente quisesse repetir a lentidão do próprio azevinho. Só quando o embrião se torna inteiro, quando o frio lhe dá a ordem suave para avançar, é que rompe a casca e sobe, devagar, em direção à luz. 
 
Sempre contei com o frigorífico como um aliado fiel, mestre a enganar as sementes, fazendo-as crer na chegada de um frio antecipado para que germinassem ao ritmo das minhas necessidades. 
 
O potencial terapêutico desta árvore inclui compostos fenólicos, triterpenos e outros metabolitos com atividade antioxidante e anti-inflamatória. 
 
Ensaios in vitro e em animais apontam para possíveis efeitos na proteção hepática e na modulação de parâmetros metabólicos, mas a evidência permanece preliminar e longe de qualquer recomendação clínica consolidada. Ainda assim, esta presença discreta de virtudes deixa-a no radar silencioso da investigação farmacognóstica. 
 
O nosso azevinho tem um parente distante e exótico, a erva-mate (Ilex paraguariensis), espontânea em vários países da América-do-Sul, de cujas folhas e ramos se prepara uma das bebidas mais reconhecidas do mundo, o mate ou chimarrão. Os povos indígenas Guarani estão entre os primeiros a venerá-la e cultivá-la, num tempo em que a paisagem existia sem fronteiras e só a floresta ditava limites. 
 
Mais tarde, missões jesuítas e produtores coloniais transformaram a planta numa cultura de grande importância económica na região do Paraná, do Paraguai e do norte da Argentina. Hoje a erva-mate é cultivada e colhida sobretudo nesses países, e a bebida circula pelo mundo, chegando a Portugal através de casas de chá, lojas especializadas e comunidades migrantes. 
 
Rica em cafeína, teobromina e compostos antioxidantes, esta infusão amarga e vigorosa aquece os dias e cria comunhão. O mate é celebração, ritual, partilha, talvez por isso agrade tanto ao espírito humano. 

No meu percurso enquanto viveirista e agricultor, tive o raro privilégio de cultivar esta planta protegida durante mais de duas décadas, propaguei milhares de azevinhos que hoje povoam parques e jardins do nosso país. 
 
Numa das parcelas de cultivo, reservada à delicadeza tropical da erva-príncipe (Cymbopogon citratus), ergui uma sebe monumental de azevinhos-fêmea. Era uma muralha verde, firme e paciente, que amparava a fragilidade daquela gramínea tropical de metabolismo C4, feita para o calor e a luz intensa, uma criatura da estação quente que prospera quando as temperaturas altas dominam os dias. 
 
Nos dias frios, porém, desfalece. Uma simples noite abaixo de zero basta para a queimar, porque o seu corpo vegetal foi moldado em climas onde o inverno quase não existe. 
 
Protegida por essa fortaleza viva, a erva-príncipe cresceu ao ar livre, ali onde tantas vezes o frio lhe poderia roubar a vida. Foi essa barreira de azevinhos que me tornou um dos poucos produtores nacionais capazes de a cultivar nestas condições, desafiando o clima e confiando na sabedoria das árvores para resguardar uma planta que, de outro modo, jamais suportaria o rigor atlântico. 
 
Entre os ramos de azevinho prosperavam famílias inteiras de várias espécies de aves, aliados famintos, sempre pronto a devorar quaisquer pragas que se quisessem instalar entre príncipes. Nunca tive de realizar qualquer tratamento nesta parcela de cultivo, que por sua vez agradeceu a proteção e produziu lotes para infusões e tisanas várias vezes premiados internacionalmente. 
 
Que casamento extraordinário, azevinho e erva-príncipe! Esta sebe viva, com pouco mais de 10 anos de cuidado, superou os 7 metros de altura. É uma das plantações mais notáveis da minha vida. 
 
Sob licença do ICNF, produzi e comercializei os seus ramos, oferecendo alternativas legais à procura natalícia. Fiz dessa produção um gesto de responsabilidade social. As coroas feitas com os ramos de azevinho ajudaram a comunidade a angariar milhares de euros para quem precisava. Cada ramo comercializado a partir de plantas cultivadas foi, para mim, também um ramo salvaguardado na natureza.
 
Falei desta árvore na televisão e em salas de aula, escrevi sobre ela, ensinei a respeitá-la. Conheço alguns exemplares de porte espantoso na natureza e em jardins urbanos, árvores fabulosas que guardam histórias mais longas do que muitas vidas humanas. 
 
Hoje há também zonas do Parque Nacional da Peneda-Gerês onde novos projetos de restauro ecológico, como iniciativas de recuperação de bosques autóctones, começam a criar condições para que espécies de sombra e de montanha, entre as quais o azevinho, reforcem a sua presença. 
 
O azevinho permanece como testemunho de resiliência e beleza, uma árvore que apenas deseja atravessar connosco o futuro, guardando na sua sombra a dignidade que o passado lhe confiou.
 

 





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