Conectividade fluvial e prevenção de cheias no Mondego
Em 1464, uma carta régia de D. Afonso V já proibia queimadas nas margens do rio Mondego para evitar a erosão das margens e o consequente assoreamento do leito. Há algo de profundamente revelador nesta memória que atravessa séculos. Muito antes de existirem modelos hidrológicos ou relatórios técnicos, já se compreendia que o Mondego não é apenas água a correr, mas um organismo territorial, feito de margens, sedimentos, matéria viva e tempo. Nas últimas semanas, tenho assistido a acesos debates em torno da ideia, frequentemente simplificada, de que as barragens previnem cheias. Sabemos que, em certos episódios moderados, podem atenuar picos de caudal através da laminagem das cheias, mas não impedem eventos extremos, sobretudo quando as albufeiras estão cheias ou quando a precipitação se acumula em poucos dias, situação cuja probabilidade tem aumentado em vários contextos climáticos devido ao aumento da intensidade de eventos de precipitação extrema. Em situaçõ...