Resiliência alimentar civil
Há temas que vão ficando à margem das conversas até ao dia em que deixam de poder ser ignorados. A alimentação é um deles. Vivemos rodeados de abundância aparente, prateleiras cheias, mercados abastecidos, uma sensação confortável de que tudo estará sempre disponível. Mas esta tranquilidade assenta numa teia frágil, feita de dependências externas, cadeias longas e equilíbrios instáveis que raramente vemos, mas que sustentam o nosso quotidiano. Há muitos anos que comecei a ensinar foraging, a recuperar esse gesto ancestral de reconhecer o que a paisagem nos oferece, de distinguir o alimento do que não o é. Perdi a conta ao número de pessoas sideradas após descobrirem o maravilhoso que é poderem deliciar-se com azedas, urtigas, beldroegas ou umbigos-de vénus. Tornou-se também um dos passatempos mais solicitados pelos meus filhos, desde muito pequenos, nas inúmeras saídas de campo que fazemos pelo país. Caminhamos entre plantas que nos alimentam, quase sem darmos por isso. Vivemos rodeado...