Da tempestade à responsabilidade
As chuvas deste fim-de-semana voltaram a lembrar-nos a fragilidade do território. No Algarve, um tornado associado à tempestade Cláudia arrancou estruturas como se fossem folhas secas. No litoral norte e no vale do Tejo, as ruas transformaram-se em rios breves que carregam tudo o que encontram.
A tempestade trouxe ventos fortes, precipitação intensa e episódios súbitos de inundação, tal como já vinha sendo antecipado pelos serviços meteorológicos europeus e nacionais. Pelo menos uma vida perdeu-se e dezenas de pessoas ficaram feridas na zona de Albufeira.
Noutras regiões, a Proteção Civil registou centenas de ocorrências ligadas a inundações, queda de árvores e danos em equipamentos públicos. Estes factos são reais e recentes e mostram que o clima que conhecíamos já não existe.
Ao mesmo tempo, a investigação do The Guardian revela que milhões de casas no Reino Unido passam a integrar áreas de risco cada vez mais elevado, com seguros que poderão tornar-se incomportáveis e com zonas que poderão mesmo deixar de oferecer condições de vida sem adaptações profundas.
O que se torna evidente no Reino Unido reflete um caminho que também trilhamos. As projeções que ali ganham forma ressoam aqui, como um eco que atravessa o Atlântico e nos encontra desprevenidos. O alerta dado pelo The Guardian em outubro revela toda a sua pertinência numa altura em que Portugal, de norte a sul, experimenta a inquietação de um clima cada vez mais imprevisível.
Se nada fizermos, veremos cidades portuguesas sujeitas a enxurradas urbanas cada vez mais frequentes, encostas saturadas que cedem, margens ribeirinhas que deixam de oferecer segurança e bairros expostos sempre que uma tempestade atlântica ganha intensidade.
A ciência explica que a combinação de chuva extrema, solos impermeabilizados e margens degradadas aumenta a probabilidade de cheias rápidas e danos materiais significativos. Não é alarmismo. É a realidade observada e documentada.
Ainda é possível escolher o rumo que damos ao território. O restauro ecológico devolve ao território a capacidade de respirar. Zonas húmidas restauradas, margens renaturalizadas, solos vivos capazes de infiltrar a chuva, corredores verdes que ligam bacias e retardam o escoamento.
Estas soluções baseadas na natureza são recomendadas pela Agência Europeia do Ambiente e pelo IPCC como peça fundamental na adaptação às alterações climáticas. Não competem com a engenharia convencional. Trabalham ao seu lado, multiplicam a sua eficácia e criam cidades verdadeiramente seguras.
As empresas portuguesas têm aqui um papel decisivo. Podem transformar os seus terrenos em espaços de retenção, substituir superfícies impermeáveis por solos vivos, plantar vegetação autóctone que estabiliza taludes e recolher água da chuva para aliviar a pressão sobre as redes urbanas. Podem integrar o restauro ecológico nos seus compromissos climáticos, tornando-se exemplo de responsabilidade e visão.
Os municípios, por sua vez, têm a escala e a capacidade de transformar o risco. São eles que podem renaturalizar margens, recuperar linhas de água, criar parques inundáveis, identificar zonas vulneráveis e ajustar o planeamento urbano para impedir que uma cheia se transforme num desastre. São eles que podem mobilizar comunidades, escolas, empresas e associações para uma resiliência partilhada.
Este fim-de-semana trouxe-nos uma lição severa, mas também uma evidência que já não se pode contornar. O futuro já não cabe no calendário antigo das estações, mas ainda depende das escolhas que fazemos agora.
Se escutarmos a ciência, se aprendermos com o que o Reino Unido enfrenta e com o que Portugal viveu nestes dias, percebemos que a hora de agir é agora. O restauro ecológico é mais do que uma intervenção ambiental. É uma estratégia de proteção, um gesto de lucidez e um pacto entre o lugar e quem nele habita.
Se soubermos escutar esta mensagem deixada pela água nos caminhos, estaremos mais perto de construir cidades que não temem a chuva e paisagens que devolvem segurança à vida que nelas floresce.
A tempestade trouxe ventos fortes, precipitação intensa e episódios súbitos de inundação, tal como já vinha sendo antecipado pelos serviços meteorológicos europeus e nacionais. Pelo menos uma vida perdeu-se e dezenas de pessoas ficaram feridas na zona de Albufeira.
Noutras regiões, a Proteção Civil registou centenas de ocorrências ligadas a inundações, queda de árvores e danos em equipamentos públicos. Estes factos são reais e recentes e mostram que o clima que conhecíamos já não existe.
Ao mesmo tempo, a investigação do The Guardian revela que milhões de casas no Reino Unido passam a integrar áreas de risco cada vez mais elevado, com seguros que poderão tornar-se incomportáveis e com zonas que poderão mesmo deixar de oferecer condições de vida sem adaptações profundas.
O que se torna evidente no Reino Unido reflete um caminho que também trilhamos. As projeções que ali ganham forma ressoam aqui, como um eco que atravessa o Atlântico e nos encontra desprevenidos. O alerta dado pelo The Guardian em outubro revela toda a sua pertinência numa altura em que Portugal, de norte a sul, experimenta a inquietação de um clima cada vez mais imprevisível.
Se nada fizermos, veremos cidades portuguesas sujeitas a enxurradas urbanas cada vez mais frequentes, encostas saturadas que cedem, margens ribeirinhas que deixam de oferecer segurança e bairros expostos sempre que uma tempestade atlântica ganha intensidade.
A ciência explica que a combinação de chuva extrema, solos impermeabilizados e margens degradadas aumenta a probabilidade de cheias rápidas e danos materiais significativos. Não é alarmismo. É a realidade observada e documentada.
Ainda é possível escolher o rumo que damos ao território. O restauro ecológico devolve ao território a capacidade de respirar. Zonas húmidas restauradas, margens renaturalizadas, solos vivos capazes de infiltrar a chuva, corredores verdes que ligam bacias e retardam o escoamento.
Estas soluções baseadas na natureza são recomendadas pela Agência Europeia do Ambiente e pelo IPCC como peça fundamental na adaptação às alterações climáticas. Não competem com a engenharia convencional. Trabalham ao seu lado, multiplicam a sua eficácia e criam cidades verdadeiramente seguras.
As empresas portuguesas têm aqui um papel decisivo. Podem transformar os seus terrenos em espaços de retenção, substituir superfícies impermeáveis por solos vivos, plantar vegetação autóctone que estabiliza taludes e recolher água da chuva para aliviar a pressão sobre as redes urbanas. Podem integrar o restauro ecológico nos seus compromissos climáticos, tornando-se exemplo de responsabilidade e visão.
Os municípios, por sua vez, têm a escala e a capacidade de transformar o risco. São eles que podem renaturalizar margens, recuperar linhas de água, criar parques inundáveis, identificar zonas vulneráveis e ajustar o planeamento urbano para impedir que uma cheia se transforme num desastre. São eles que podem mobilizar comunidades, escolas, empresas e associações para uma resiliência partilhada.
Este fim-de-semana trouxe-nos uma lição severa, mas também uma evidência que já não se pode contornar. O futuro já não cabe no calendário antigo das estações, mas ainda depende das escolhas que fazemos agora.
Se escutarmos a ciência, se aprendermos com o que o Reino Unido enfrenta e com o que Portugal viveu nestes dias, percebemos que a hora de agir é agora. O restauro ecológico é mais do que uma intervenção ambiental. É uma estratégia de proteção, um gesto de lucidez e um pacto entre o lugar e quem nele habita.
Se soubermos escutar esta mensagem deixada pela água nos caminhos, estaremos mais perto de construir cidades que não temem a chuva e paisagens que devolvem segurança à vida que nelas floresce.

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