Resiliência alimentar civil
Há temas que vão ficando à margem das conversas até ao dia em que deixam de poder ser ignorados. A alimentação é um deles.
Vivemos rodeados de abundância aparente, prateleiras cheias, mercados abastecidos, uma sensação confortável de que tudo estará sempre disponível. Mas esta tranquilidade assenta numa teia frágil, feita de dependências externas, cadeias longas e equilíbrios instáveis que raramente vemos, mas que sustentam o nosso quotidiano.
Há muitos anos que comecei a ensinar foraging, a recuperar esse gesto ancestral de reconhecer o que a paisagem nos oferece, de distinguir o alimento do que não o é. Perdi a conta ao número de pessoas sideradas após descobrirem o maravilhoso que é poderem deliciar-se com azedas, urtigas, beldroegas ou umbigos-de vénus.
Tornou-se também um dos passatempos mais solicitados pelos meus filhos, desde muito pequenos, nas inúmeras saídas de campo que fazemos pelo país. Caminhamos entre plantas que nos alimentam, quase sem darmos por isso. Vivemos rodeados de alimento, apenas desaprendemos a vê-lo.
Tal como no tempo em que o tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, dividiu o mundo conhecido e por conhecer entre Portugal e a Coroa de Castela, também no domínio das plantas vivemos entre a descoberta e o esquecimento.
Levámos para fora um património botânico que ajudou a moldar a alimentação global, difundindo espécies, saberes e práticas que ainda hoje sustentam milhões de pessoas. Mas, ao mesmo tempo, fomos incapazes de reconhecer plenamente a riqueza que existia dentro das nossas próprias fronteiras.
Gabriel Grisley, médico, botânico e químico alemão que chegou a Portugal em 1610, já se admirava com esta abundância ignorada, lamentando que um reino tão fértil em ervas saudáveis fosse habitado por tão poucos que delas tivessem conhecimento.
No início do século XVIII, o naturalista suíço Charles Fréderic de Merveilleux voltava a expor essa mesma contradição, descrevendo serras repletas de plantas úteis que os portugueses não aproveitavam, enquanto importavam de longe aquilo que tinham à porta de casa. E Lineu, em 1765, via em Portugal uma espécie de Índia europeia, repleta de recursos ainda por explorar.
Entre o fascínio pelo exótico e o desinteresse pelo que é próximo, construiu-se uma longa tradição de desvalorização do que cresce espontaneamente na nossa paisagem. Talvez por isso, hoje como ontem, continuemos a caminhar entre plantas que nos poderiam alimentar e cuidar, sem as reconhecer.
O artigo de Pedro Graça é um convite a olhar para esta realidade com mais lucidez. Fala de resiliência alimentar, mas no fundo fala de segurança, de autonomia e de responsabilidade coletiva.
Obriga-nos a pensar no que acontece quando o sistema falha e, mais importante ainda, no que estamos a fazer hoje para que não falhe amanhã. Vale a pena ler com atenção. Porque este é um daqueles temas que não pertencem apenas aos especialistas, pertencem a todos nós.
Vivemos rodeados de abundância aparente, prateleiras cheias, mercados abastecidos, uma sensação confortável de que tudo estará sempre disponível. Mas esta tranquilidade assenta numa teia frágil, feita de dependências externas, cadeias longas e equilíbrios instáveis que raramente vemos, mas que sustentam o nosso quotidiano.
Há muitos anos que comecei a ensinar foraging, a recuperar esse gesto ancestral de reconhecer o que a paisagem nos oferece, de distinguir o alimento do que não o é. Perdi a conta ao número de pessoas sideradas após descobrirem o maravilhoso que é poderem deliciar-se com azedas, urtigas, beldroegas ou umbigos-de vénus.
Tornou-se também um dos passatempos mais solicitados pelos meus filhos, desde muito pequenos, nas inúmeras saídas de campo que fazemos pelo país. Caminhamos entre plantas que nos alimentam, quase sem darmos por isso. Vivemos rodeados de alimento, apenas desaprendemos a vê-lo.
Tal como no tempo em que o tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, dividiu o mundo conhecido e por conhecer entre Portugal e a Coroa de Castela, também no domínio das plantas vivemos entre a descoberta e o esquecimento.
Levámos para fora um património botânico que ajudou a moldar a alimentação global, difundindo espécies, saberes e práticas que ainda hoje sustentam milhões de pessoas. Mas, ao mesmo tempo, fomos incapazes de reconhecer plenamente a riqueza que existia dentro das nossas próprias fronteiras.
Gabriel Grisley, médico, botânico e químico alemão que chegou a Portugal em 1610, já se admirava com esta abundância ignorada, lamentando que um reino tão fértil em ervas saudáveis fosse habitado por tão poucos que delas tivessem conhecimento.
No início do século XVIII, o naturalista suíço Charles Fréderic de Merveilleux voltava a expor essa mesma contradição, descrevendo serras repletas de plantas úteis que os portugueses não aproveitavam, enquanto importavam de longe aquilo que tinham à porta de casa. E Lineu, em 1765, via em Portugal uma espécie de Índia europeia, repleta de recursos ainda por explorar.
Entre o fascínio pelo exótico e o desinteresse pelo que é próximo, construiu-se uma longa tradição de desvalorização do que cresce espontaneamente na nossa paisagem. Talvez por isso, hoje como ontem, continuemos a caminhar entre plantas que nos poderiam alimentar e cuidar, sem as reconhecer.
O artigo de Pedro Graça é um convite a olhar para esta realidade com mais lucidez. Fala de resiliência alimentar, mas no fundo fala de segurança, de autonomia e de responsabilidade coletiva.
Obriga-nos a pensar no que acontece quando o sistema falha e, mais importante ainda, no que estamos a fazer hoje para que não falhe amanhã. Vale a pena ler com atenção. Porque este é um daqueles temas que não pertencem apenas aos especialistas, pertencem a todos nós.
Comentários