Alergias urbanas: a culpa não é das árvores

Nas cidades portuguesas cresce, de ano para ano, a ideia de que as plantas estão a tornar as pessoas mais doentes. E é fácil perceber porquê.

Chega a primavera, o ar ganha tons amarelados, os para-brisas ficam cobertos de pó fino e começam os espirros, os olhos inflamados e a fadiga de quem passa semanas inteiras a respirar com dificuldade.

Pouco depois surge a explicação imediata, dita quase como uma certeza absoluta. A culpa é das árvores. O plátano que acompanha a avenida, a oliveira encostada ao muro do quintal, o cipreste junto à entrada do cemitério, o pinheiro que recorta a encosta ao fundo da rua.

O pólen vê-se. Flutua na luz da manhã, acumula-se nas janelas e atravessa o ar quente das primeiras tardes de primavera, tornando-se impossível ignorá-lo numa época do ano em que muita gente começa a espirrar e a dormir pior.

Hoje sabemos que alterações climáticas, poluição atmosférica e degradação da qualidade do ar urbano passaram a interferir diretamente com os ciclos de produção e dispersão dos pólens e com a resposta inflamatória do organismo humano.

O documentário: "Un monde d’allergiques", realizado por Cosima Dannoritzer para a ARTE, ajuda a compreender esta realidade com enorme clareza. O pólen continua a fazer parte do ciclo reprodutivo das plantas com flor, mas circula hoje numa atmosfera profundamente diferente daquela que existia há poucas décadas. 
 
Os estudos epidemiológicos conduzidos em Portugal nas últimas décadas mostram prevalências elevadas de rinite e asma, sobretudo em meios urbanos.

Os estudos sobre rinite apontam para prevalências entre 21% e 26% da população portuguesa, frequentemente associadas a maior risco de asma. O estudo ARPA-Kids, realizado em 2007, é particularmente revelador. Cerca de 40% das crianças em idade pré-escolar apresentam rinite na região de Lisboa e Vale do Tejo. No Alentejo, esse valor desce para 8%.


Mais recentemente, o estudo EPI-ASTHMA, o maior levantamento nacional sobre asma realizado em Portugal, confirmou a elevada prevalência da doença respiratória na população adulta e revelou níveis preocupantes de subdiagnóstico e falta de controlo clínico.

Os resultados publicados em 2025 estimam que cerca de 700 mil adultos vivem com asma em Portugal, correspondendo a uma prevalência de 7,1% da população adulta. Cerca de 68% dos doentes não têm a doença adequadamente controlada e aproximadamente 23% não possuem diagnóstico registado no processo clínico.

Estes números ajudam também a perceber como as alergias respiratórias deixaram há muito de ser um problema sazonal menor para se transformarem numa questão estrutural de saúde pública. Mostram também como a falta de informação científica acessível continua a favorecer interpretações simplistas sobre o papel das árvores e dos espaços verdes nas cidades.

As gramíneas, os sobreiros, os carvalhos, as oliveiras, os castanheiros e muitas outras plantas alergénicas existem tanto no campo como nas cidades. Em muitos casos existem até em maior abundância fora dos centros urbanos.

Se a alergia respiratória fosse apenas uma resposta linear à quantidade de pólen presente no ar, o interior rural do país apresentaria os valores mais elevados de rinite e de asma. Não apresenta.

A atmosfera urbana mudou profundamente. O primeiro mecanismo importante está ligado ao clima. As plantas com flor respondem diretamente à temperatura. Invernos mais suaves e primaveras mais quentes fazem com que muitas espécies iniciem a floração mais cedo e prolonguem a libertação de pólen durante mais semanas.

Aquilo a que assistimos nas últimas décadas, à escala continental, é uma alteração progressiva do calendário botânico. Em 2021, uma investigação publicada nos Proceedings of the National Academy of Sciences analisou quase três décadas de monitorização polínica na América do Norte. Os resultados foram claros.

As estações polínicas tornaram-se, em média, cerca de vinte dias mais longas do que nos anos noventa e as concentrações atmosféricas aumentaram aproximadamente 21%. Uma parte significativa desta alteração está diretamente associada à influência humana sobre o sistema climático.

Na Europa, os resultados seguem a mesma tendência. Em Itália, Polónia e Reino Unido observam-se florações mais precoces, estações mais extensas e maiores cargas polínicas no ar. Portugal acompanha este padrão.

A Rede Portuguesa de Aerobiologia monitoriza semanalmente a atmosfera desde 2006 e os boletins mais recentes mostram primaveras de risco elevado em grande parte do território, com a oliveira (Olea europaea) e várias gramíneas a iniciarem a polinização cada vez mais cedo. 
 
Este trabalho de vigilância aerobiológica, desenvolvido em parceria com a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), tornou-se uma ferramenta importante de saúde pública nacional.

Existe depois um segundo fenómeno especialmente relevante. O dióxido de carbono, principal gás associado às alterações climáticas, favorece o crescimento e a atividade fotossintética de muitas espécies vegetais.
 
Quando expostas a concentrações elevadas de CO₂, várias plantas produzem mais flores e mais pólen. Em algumas espécies aumenta também a concentração das proteínas responsáveis pelas reações alérgicas, tornando o pólen potencialmente mais agressivo para o sistema respiratório.
 
A expressão “super-pólen” começou precisamente a ser utilizada para descrever este conjunto de fenómenos observados pela literatura científica nas últimas décadas, onde se cruzam estações polínicas mais longas, maior produção de pólen e aumento da alergenicidade de cada grão.
 
Há também plantas que chegam de fora e encontram nas cidades modernas condições ideais para se expandirem. A ambrósia (Ambrosia artemisiifolia), uma espécie invasora exótica já identificada em Portugal, tornou-se um dos exemplos mais estudados na Europa devido ao seu pólen altamente alergénico.
 
A erva-das-pampas (Cortaderia selloana), hoje amplamente disseminada em muitas paisagens portuguesas, levanta também preocupações crescentes pela enorme produção de material floral e pela sua rápida expansão. 
 
Estudos realizados no Norte de Espanha sugerem ainda forte reatividade cruzada entre o seu pólen e o de várias gramíneas alergénicas, com cerca de 89% dos doentes alérgicos a gramíneas a apresentarem também reatividade ao pólen da erva-das-pampas.
 
A sua floração tardia, estendendo-se até ao outono, pode contribuir para aumentar a duração da exposição alérgica em meio urbano e periurbano.
Tanto a ambrósia como a erva-das-pampas desenvolvem-se facilmente em solos pobres, margens de estradas, terrenos abandonados e espaços urbanos degradados.
 
A sua expansão mostra até que ponto alterações climáticas, circulação global de mercadorias, perturbação ecológica e saúde respiratória fazem hoje parte da mesma história.
 
E depois entra a poluição, transformando profundamente a forma como o pólen circula, se fragmenta e interage com o sistema respiratório humano. Um grão de pólen intacto é, do ponto de vista respiratório, uma partícula relativamente grande. Mede tipicamente entre 10 e 100 micrómetros. 
 
Quando inalado, fica retido no nariz e nas vias respiratórias superiores. Daí os espirros, a congestão nasal, a comichão e o lacrimejo típicos da rinite. Mas nas atmosferas urbanas modernas o pólen raramente circula sozinho. Partículas finas e muito finas libertadas pelos motores a gasóleo, ozono troposférico, dióxido de azoto e outros poluentes urbanos interagem continuamente com os grãos de pólen.
 
Algumas aderem à sua superfície. Outras alteram quimicamente a parede externa do grão. Outras ainda provocam a sua fragmentação. Quando isso acontece, o pólen rompe e liberta partículas microscópicas muito menores, chamadas partículas sub-polínicas.
 
Estas partículas conseguem penetrar profundamente nos alvéolos pulmonares, atingindo zonas onde o grão original nunca chegaria. E levam consigo proteínas alergénicas particularmente agressivas. É precisamente este mecanismo que ajuda a explicar fenómenos extremos como a chamada asma de trovoada.
 
Durante determinadas tempestades primaveris, a humidade elevada, as descargas elétricas e as correntes atmosféricas violentas provocam a rutura massiva dos grãos de pólen suspensos no ar.
 
Em novembro de 2016, em Melbourne, na Austrália, um episódio desta natureza desencadeou milhares de episódios respiratórios agudos, centenas de internamentos hospitalares e nove mortes em apenas algumas horas. O caso de Melbourne continua a ser considerado um dos maiores episódios de asma ambiental alguma vez registados.
 
Hoje sabemos que as partículas de escape diesel atuam diretamente sobre o pólen, alterando a sua estrutura química, transportando alergénios aderidos à superfície e amplificando a resposta inflamatória do organismo. Pólen e poluentes atmosféricos passaram, assim, a circular juntos no mesmo aerossol urbano.
 
A exposição crónica a poluentes atmosféricos, detergentes, microplásticos e outros irritantes do quotidiano moderno fragiliza progressivamente as barreiras protetoras do organismo, danificando as junções microscópicas entre as células do epitélio respiratório e favorecendo inflamação crónica e maior vulnerabilidade alérgica.
 
O tecido torna-se mais permeável, mais reativo e menos eficaz na sua função de proteção. Os alergénios passam a atingir camadas mais profundas e o sistema imunitário começa a responder com inflamação a estímulos que antes tolerava sem dificuldade.
 
Alterações ambientais, poluição e degradação da qualidade do ar afetam simultaneamente o pólen, a atmosfera urbana e a vulnerabilidade biológica das vias respiratórias humanas.
 
Estudos recentes mostram ainda que o próprio pólen recolhido em zonas mais poluídas apresenta alterações moleculares relativamente ao pólen recolhido em zonas menos contaminadas. A poluição modifica a composição química da parede do grão e altera a conformação das principais proteínas alergénicas.
 
O pólen que hoje respiramos numa grande avenida de Lisboa ou do Porto circula numa atmosfera profundamente diferente daquela que existia há cinquenta anos. É importante compreender isto antes de transformar árvores em inimigos públicos.
 
Cortar árvores não resolve o problema das alergias respiratórias. Em muitos casos pode até agravá-lo. As árvores reduzem ilhas de calor, capturam partículas atmosféricas, regulam a humidade do ar, sequestram carbono e melhoram a qualidade ambiental das cidades.
 
O desafio está em planear melhor a arborização urbana, diversificar espécies, reforçar a vigilância polínica e reduzir a poluição atmosférica das cidades. Está em desenhar espaços urbanos onde o trânsito não transforme o pólen num veículo inflamatório.
 
Está também em compreender que uma árvore junto de uma avenida saturada de partículas finas vive exposta à mesma atmosfera que afeta diariamente quem passa por baixo dela.
 
As alergias respiratórias urbanas obrigam-nos hoje a reconsiderar o planeamento e a gestão urbana. Obrigam-nos a pensar na qualidade do ar, na mobilidade, na impermeabilização dos solos, no excesso de tráfego e na forma como aquecemos continuamente o ambiente das cidades.
 
Talvez uma das maiores contradições deste tempo esteja precisamente aqui. Enquanto muitas pessoas apontam as árvores como responsáveis pelo agravamento das alergias, continua a ser a vegetação urbana que reduz temperatura, retém partículas atmosféricas e ajuda a tornar as cidades mais habitáveis.
 
Para quem trabalha com plantas, esta realidade torna-se impossível de ignorar. O debate sobre pólens e alergias não pode ficar reduzido às árvores. Tem de incluir o clima, a qualidade do ar, a poluição atmosférica e a forma como desenhámos as cidades onde hoje respiramos.
 

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