As batatas não se semeiam. Plantam-se.
Há temas capazes de dividir famílias, amigos e até horticultores experientes. Um deles é, surpreendentemente, a forma correta de falar sobre a cultura da batata (Solanum tuberosum).
Basta alguém dizer que vai “semear batatas” para se reacender o velho conflito entre a linguagem popular e o rigor da biologia vegetal.
Nos meus tempos de Faculdade, o professor da cadeira de culturas arvenses costumava dizer que havia dois tipos de alunos: os que achavam que se semeavam batatas e os que sabiam que as batatas se plantavam.
A batata que colocamos na terra não é uma semente. É um tubérculo, isto é, um caule subterrâneo modificado, especializado na acumulação de reservas e capaz de originar novos rebentos a partir das suas gemas, popularmente conhecidas como “olhos”.
Quando se coloca uma batata inteira ou uma parte de tubérculo na terra para obter uma nova planta, não se está a semear. Está-se a plantar, recorrendo à propagação vegetativa clonal através de tubérculos.
Curiosamente, quase ninguém diria que vai “semear” uma sardinheira ou uma hidrângea quando faz estacas dessas plantas. Todos compreendem intuitivamente que a estacaria é uma forma de propagação vegetativa.
No entanto, no caso da batata, séculos de hábito popular e a força da linguagem comercial acabaram por normalizar uma expressão cientificamente incorreta.
Talvez por isso a velha expressão “vá plantar batatas” tenha muito mais rigor científico do que muitas pessoas imaginam. Durante décadas foi usada para desvalorizar alguém, quase como sinónimo de tarefa menor ou sem importância.
Mas, ironicamente, é precisamente essa expressão popular que descreve corretamente a forma de propagação desta cultura essencial.
O mais curioso é perceber que esta discussão não é nova. Há 114 anos, agrónomos portugueses já alertavam para o erro. Num manual de 1912 da minha biblioteca pessoal, dedicado à cultura da batata, pertencente à coleção “Livraria do Lavrador”, podia já ler-se uma frase exemplar:
“São muitas as variedades de batatas que se podem utilizar para plantar, ou para semente, como impropriamente se costuma dizer”.
Há mais de um século já se reconhecia claramente que chamar “semente” ao tubérculo era uma incorreção, ainda que profundamente enraizada no uso popular
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A persistência desta designação resulta, em grande parte, de uma designação técnica, comercial e legal perfeitamente compreensível.
A persistência desta designação resulta, em grande parte, de uma designação técnica, comercial e legal perfeitamente compreensível.
A expressão “batata-semente” permite distinguir os tubérculos destinados à plantação daqueles destinados ao consumo alimentar, mas refere-se sempre tubérculos para plantação e não a sementes.
Funciona como categoria comercial, logística e técnica. O problema surge quando essa designação leva muitas pessoas a acreditar que a batata é efetivamente uma semente.
E aqui a questão torna-se quase caricata. O marketing tem uma capacidade extraordinária de moldar perceções e repetir mensagens até estas parecerem verdades absolutas.
Naturalmente, existem sementes verdadeiras de batata. Algumas cultivares florescem e produzem frutos e sementes.
Contudo, essas sementes interessam sobretudo aos programas de melhoramento genético e à investigação científica. A produção agrícola e hortícola da batata faz-se quase exclusivamente através de propagação clonal, utilizando tubérculos.
É precisamente esta forma de multiplicação vegetativa que permite conservar ao longo das gerações as características genéticas específicas e o desempenho agronómico de cada cultivar.
Aceitar a expressão popular é compreensível. Ela faz parte da memória coletiva, das feiras, dos mercados e da linguagem rural transmitida entre gerações. Mas compreender a origem de um erro não obriga à sua perpetuação.
O papel de quem trabalha em agronomia, horticultura e biologia vegetal é precisamente ajudar a esclarecer, ensinar e preservar o rigor científico sem arrogância nem paternalismo.
Tal como acontecia há mais de um século, as batatas, no sentido hortícola comum, não se semeiam. Plantam-se.

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