Pecus
Há palavras que transportam rebanhos inteiros dentro de si. Pecuniário, pecúnia, pecúlio e peculato descendem todas do latim pecus, termo usado para designar gado, rebanho, riqueza viva que pastava, se reproduzia e alimentava.
Portugal foi perdendo grande parte dos seus rebanhos ao longo das últimas décadas. Com o abandono rural desapareceram pastores, caminhos de transumância e extensas áreas pastoreadas.
Em muitas regiões, o mato acumulou-se sobre antigos campos agrícolas e baldios, aumentando a continuidade do combustível vegetal e favorecendo incêndios de maior dimensão e intensidade, realidade amplamente documentada em estudos científicos sobre os ecossistemas mediterrânicos e a evolução da paisagem rural portuguesa.
Um rebanho não produz apenas carne ou leite. Produz paisagem, abre clareiras, reduz a continuidade do mato, mantém caminhos, fertiliza o solo, dispersa sementes e ajuda a construir mosaicos vegetais menos vulneráveis à propagação do fogo.
Em determinadas condições, o pastoreio extensivo pode contribuir para a redução da carga combustível e para a diminuição da intensidade dos incêndios rurais, sobretudo quando integrado numa gestão contínua da paisagem e articulado com outras práticas de ordenamento do território, embora a relação entre fogo, pastoreio e dinâmica ecológica varie consoante o contexto climático, social e económico.
Também existe uma verdade incómoda. Parte dos incêndios rurais continua associada ao uso negligente ou deliberado do fogo para renovação de pastagens. Os chamados fogos pastoris são uma prática ainda presente em várias serras e territórios de baixa densidade, onde o fogo é usado para estimular rebentações tenras destinadas ao gado, apesar dos elevados riscos ecológicos e sociais associados à perda de controlo dessas ignições.
Quando realizados com enquadramento técnico e autorização das autoridades competentes podem integrar estratégias de gestão da paisagem e redução de combustível. Quando feitos clandestinamente, muitas vezes fora das condições legais e de segurança exigidas, transformam-se numa importante causa de incêndios rurais fora de controlo.
Talvez por isso estas palavras nascidas do latim pecus ainda nos soem tão próximas da paisagem e da vida quotidiana. Quando alguém lança fogo à serra, ao monte ou ao bosque está a cometer uma forma de peculato ecológico. Rouba solo fértil, água limpa, biodiversidade, árvores, carbono armazenado, polinizadores, sombra e regulação climática.
Destrói aquilo que poderíamos chamar o nosso pecúlio coletivo, um património comum construído lentamente pela natureza e pelo trabalho de muitas gerações. O mesmo fogo que por vezes é lançado para criar pasto novo acaba por destruir o verdadeiro valor pecuniário da paisagem.
Os solos degradam-se. As linhas de água empobrecem. O ar torna-se mais tóxico. Perde-se capacidade de infiltração da chuva e aumenta a erosão. Diminuem os serviços dos ecossistemas que garantem água potável, produção de alimentos, regulação climática, proteção contra cheias, polinização, fertilidade dos solos, purificação do ar, armazenamento de carbono, madeira, fibras e qualidade de vida.
As recompensas em pecúnia destes serviços gratuitos da natureza deixam de estar disponíveis e passamos a viver como uma sociedade que consome recursos naturais a crédito, acumulando uma dívida ecológica cujos juros nenhum orçamento de Estado conseguirá pagar.
É talvez o maior e mais tolerado ato de peculato do nosso tempo, incendiar o capital natural que sustenta a vida coletiva e transformar em cinza, erosão, escassez e pobreza ecológica uma riqueza que demorou séculos a construir.
Precisamos de ser melhores pastores e um rebanho mais consciente, no poder local, na política e na sociedade civil, porque nenhuma paisagem resiste quando aqueles que a deveriam guardar perderam o sentido de comunidade, de responsabilidade e de futuro.

- Pecuniário significa relativo a dinheiro ou riqueza;
- Pecúnia corresponde a dinheiro ou fortuna;
- Pecúlio designa uma reserva de bens ou poupança acumulada;
- Peculato refere-se à apropriação ilícita de bens ou valores que deveriam servir o interesse coletivo.
Portugal foi perdendo grande parte dos seus rebanhos ao longo das últimas décadas. Com o abandono rural desapareceram pastores, caminhos de transumância e extensas áreas pastoreadas.
Em muitas regiões, o mato acumulou-se sobre antigos campos agrícolas e baldios, aumentando a continuidade do combustível vegetal e favorecendo incêndios de maior dimensão e intensidade, realidade amplamente documentada em estudos científicos sobre os ecossistemas mediterrânicos e a evolução da paisagem rural portuguesa.
Um rebanho não produz apenas carne ou leite. Produz paisagem, abre clareiras, reduz a continuidade do mato, mantém caminhos, fertiliza o solo, dispersa sementes e ajuda a construir mosaicos vegetais menos vulneráveis à propagação do fogo.
Em determinadas condições, o pastoreio extensivo pode contribuir para a redução da carga combustível e para a diminuição da intensidade dos incêndios rurais, sobretudo quando integrado numa gestão contínua da paisagem e articulado com outras práticas de ordenamento do território, embora a relação entre fogo, pastoreio e dinâmica ecológica varie consoante o contexto climático, social e económico.
Também existe uma verdade incómoda. Parte dos incêndios rurais continua associada ao uso negligente ou deliberado do fogo para renovação de pastagens. Os chamados fogos pastoris são uma prática ainda presente em várias serras e territórios de baixa densidade, onde o fogo é usado para estimular rebentações tenras destinadas ao gado, apesar dos elevados riscos ecológicos e sociais associados à perda de controlo dessas ignições.
Quando realizados com enquadramento técnico e autorização das autoridades competentes podem integrar estratégias de gestão da paisagem e redução de combustível. Quando feitos clandestinamente, muitas vezes fora das condições legais e de segurança exigidas, transformam-se numa importante causa de incêndios rurais fora de controlo.
Talvez por isso estas palavras nascidas do latim pecus ainda nos soem tão próximas da paisagem e da vida quotidiana. Quando alguém lança fogo à serra, ao monte ou ao bosque está a cometer uma forma de peculato ecológico. Rouba solo fértil, água limpa, biodiversidade, árvores, carbono armazenado, polinizadores, sombra e regulação climática.
Destrói aquilo que poderíamos chamar o nosso pecúlio coletivo, um património comum construído lentamente pela natureza e pelo trabalho de muitas gerações. O mesmo fogo que por vezes é lançado para criar pasto novo acaba por destruir o verdadeiro valor pecuniário da paisagem.
Os solos degradam-se. As linhas de água empobrecem. O ar torna-se mais tóxico. Perde-se capacidade de infiltração da chuva e aumenta a erosão. Diminuem os serviços dos ecossistemas que garantem água potável, produção de alimentos, regulação climática, proteção contra cheias, polinização, fertilidade dos solos, purificação do ar, armazenamento de carbono, madeira, fibras e qualidade de vida.
As recompensas em pecúnia destes serviços gratuitos da natureza deixam de estar disponíveis e passamos a viver como uma sociedade que consome recursos naturais a crédito, acumulando uma dívida ecológica cujos juros nenhum orçamento de Estado conseguirá pagar.
É talvez o maior e mais tolerado ato de peculato do nosso tempo, incendiar o capital natural que sustenta a vida coletiva e transformar em cinza, erosão, escassez e pobreza ecológica uma riqueza que demorou séculos a construir.
Precisamos de ser melhores pastores e um rebanho mais consciente, no poder local, na política e na sociedade civil, porque nenhuma paisagem resiste quando aqueles que a deveriam guardar perderam o sentido de comunidade, de responsabilidade e de futuro.

Comentários