Plantar para preservar: o futuro das figueiras tradicionais portuguesas
Uma das culturas mais complexas e fascinantes é a da figueira (Ficus carica) e do extraordinário género Ficus, que inclui mais de 800 espécies espalhadas pelo mundo.
Botanicamente, o figo não é um fruto verdadeiro, mas sim uma infrutescência designada por sicónio. No seu interior escondem-se numerosas pequenas flores, voltadas para dentro, que após fecundação originam múltiplos pequenos frutos.
Existem figueiras baforeiras, também chamadas figueiras-de-toque, funcionalmente masculinas e essenciais à polinização. Os seus figos, embora tecnicamente comestíveis, são geralmente pouco apreciados para consumo humano. Já as figueiras domésticas são produtoras dos deliciosos figos que chegam às nossas mesas.
Em Portugal, o Registo Nacional de Variedades de Fruteiras da DGAV de 2025 inclui 16 denominações tradicionais inscritas:
Bêbera Branca, Bêbera Preta, Belmandil, Burjassote Branco, Castelhana Branca, Côtea, Da Ponte de Quarteira, Euxária Branca, Euxária Preta, Figo Doce, Lampa Branca, Lampa Preta, Moscatel, Pingo de Mel, Princesa e Verdeal.
Muitas destas variedades possuem nomes de enorme beleza e antiguidade, verdadeiros fragmentos vivos da memória agrícola portuguesa. Mas o património varietal português é muito mais vasto do que aquilo que hoje consta nos catálogos oficiais.
As coleções nacionais de germoplasma conservadas pelo INIAV e pela DRAP Algarve incluem quase uma centena de variedades tradicionais portuguesas de figueira, muitas delas já praticamente desaparecidas da agricultura comercial e sobrevivendo apenas em coleções, quintais antigos ou pequenos pomares familiares.
Nomes como Branco da Terceira, Corno de Cabra, Moscatel de Odiáxere, Palmares, São João Branco, Cabaçal, Figo Rei ou Frei Bernardo representam um património genético e cultural de valor incalculável, que corre hoje sério risco de erosão genética e desaparecimento.
Ao longo das últimas décadas, a DRAP Algarve e o INIAV desenvolveram um importante trabalho de prospeção, recolha, conservação e caracterização destas variedades tradicionais, preservando um património genético que esteve perto de desaparecer em muitas regiões do país.
As coleções de germoplasma de figueira existentes em Tavira e Alcobaça representam hoje um dos mais importantes reservatórios de biodiversidade agrícola portuguesa.
Quanto ao seu desenvolvimento fisiológico, existem os figos lampos, que se desenvolvem na madeira do ano anterior e amadurecem geralmente no início do verão. São normalmente maiores, menos doces e, em muitas variedades portuguesas, formam-se sem fecundação nem necessidade de polinização, sendo por isso considerados, na prática, partenocárpicos.
Existem também os figos vindimos, que surgem nos ramos do próprio ano, inseridos na axila das folhas, amadurecem no final do verão e são geralmente mais doces, aromáticos e valorizados comercialmente.
Dependendo da variedade, podem formar-se sem polinização ou necessitar de caprificação, um processo tradicional em que se utilizam figos de baforeira com vespas polinizadoras, para assegurar um bom vingamento.
Do ponto de vista agronómico, as variedades de figueira agrupam-se em diferentes comportamentos fisiológicos, consoante produzam uma ou duas colheitas anuais - figueiras uníferas e bíferas - e exijam, ou não, caprificação.
Em território continental, os figos lampos amadurecem sobretudo entre meados de junho e julho, enquanto os figos vindimos são colhidos maioritariamente entre o final de agosto e o início de outubro, dependendo da variedade e da região.
Algumas variedades portuguesas, como Pingo de Mel, Moscatel, Bêbera Branca, Bêbera Preta, Burjassote Branco, Lampa Branca ou Verdeal, produzem habitualmente figos vindimos comestíveis, sem necessidade de caprificação.
Outras, como Belmandil, Castelhana Branca, Euxária Branca ou Euxária Preta, necessitam de caprificação para assegurarem bom vingamento e produção regular.
E depois existe a extraordinária Lampa Preta, talvez uma das mais fascinantes de todas. Os seus figos lampos são partenocárpicos e comestíveis, mas os figos vindimos precisam de caprificação para vingarem plenamente.
Caso os figos necessitem de polinização, entra em cena uma das mais extraordinárias relações simbióticas do mundo vegetal, estabelecida entre a figueira e uma pequenina vespa (Blastophaga psenes). Esta relação dura há milhões de anos.
Este processo agrícola tradicional, conhecido por caprificação, tira partido desta relação simbiótica. Na prática, os agricultores colocavam nas figueiras domésticas colares de figos provenientes das baforeiras, no interior dos quais viviam as vespas polinizadoras carregadas de pólen.
Estas pequeninas vespas acabam frequentemente por morrer no interior do sicónio, sendo progressivamente degradadas durante o amadurecimento do figo, graças à presença de enzimas proteolíticas, como a ficina. Será a figueira uma planta carnívora?!
Para finalizar, partilho uma curiosidade que não se encontra habitualmente em publicações científicas ou técnicas.
Muitas pessoas saberão que cair de uma figueira, porque os seus ramos de madeira mole se partem facilmente, foi durante muito tempo causa de morte em todo o mundo rural. Um dos mais antigos e reputados viveiristas portugueses produziu durante décadas figueiras com um marketing extraordinário.
Eram as únicas que não se partiam perante a necessidade de se trepar à árvore para alcançar os frutos. O “segredo” foi guardado durante gerações.
A propagação das cultivares era assegurada por estacaria. Ao contrário da maioria das espécies, as estacas de figueira conseguem enraizar mesmo quando inseridas no substrato… invertidas! É verdade!
Ao enraizar, a nova planta lança ramos que formam junto ao tronco principal uma espécie de U, ficando essa zona reforçada e mais resistente ao peso de quem trepa à árvore. Segredo revelado!
Os figos e as figueiras são verdadeiramente extraordinários. E talvez Portugal, país de forte influência mediterrânica e de enorme riqueza varietal, merecesse hoje muito mais agricultores profissionais dedicados a esta cultura ancestral.
Felizmente, ainda existem viveiros portugueses onde é possível encontrar algumas destas figueiras, embora a oferta varie muito de ano para ano e nem sempre corresponda à riqueza conservada nas coleções públicas.
Viveiros como Castromil ou Viveiros Portugal mantêm figueiras tradicionais em comercialização, mas as variedades mais raras continuam muitas vezes confinadas a coleções, pomares antigos e redes informais de propagação.
Cultivar uma figueira de uma variedade portuguesa é muito mais do que produzir figos. É preservar biodiversidade, memória agrícola e património cultural.
Botanicamente, o figo não é um fruto verdadeiro, mas sim uma infrutescência designada por sicónio. No seu interior escondem-se numerosas pequenas flores, voltadas para dentro, que após fecundação originam múltiplos pequenos frutos.
Existem figueiras baforeiras, também chamadas figueiras-de-toque, funcionalmente masculinas e essenciais à polinização. Os seus figos, embora tecnicamente comestíveis, são geralmente pouco apreciados para consumo humano. Já as figueiras domésticas são produtoras dos deliciosos figos que chegam às nossas mesas.
Em Portugal, o Registo Nacional de Variedades de Fruteiras da DGAV de 2025 inclui 16 denominações tradicionais inscritas:
Bêbera Branca, Bêbera Preta, Belmandil, Burjassote Branco, Castelhana Branca, Côtea, Da Ponte de Quarteira, Euxária Branca, Euxária Preta, Figo Doce, Lampa Branca, Lampa Preta, Moscatel, Pingo de Mel, Princesa e Verdeal.
Muitas destas variedades possuem nomes de enorme beleza e antiguidade, verdadeiros fragmentos vivos da memória agrícola portuguesa. Mas o património varietal português é muito mais vasto do que aquilo que hoje consta nos catálogos oficiais.
As coleções nacionais de germoplasma conservadas pelo INIAV e pela DRAP Algarve incluem quase uma centena de variedades tradicionais portuguesas de figueira, muitas delas já praticamente desaparecidas da agricultura comercial e sobrevivendo apenas em coleções, quintais antigos ou pequenos pomares familiares.
Nomes como Branco da Terceira, Corno de Cabra, Moscatel de Odiáxere, Palmares, São João Branco, Cabaçal, Figo Rei ou Frei Bernardo representam um património genético e cultural de valor incalculável, que corre hoje sério risco de erosão genética e desaparecimento.
Ao longo das últimas décadas, a DRAP Algarve e o INIAV desenvolveram um importante trabalho de prospeção, recolha, conservação e caracterização destas variedades tradicionais, preservando um património genético que esteve perto de desaparecer em muitas regiões do país.
As coleções de germoplasma de figueira existentes em Tavira e Alcobaça representam hoje um dos mais importantes reservatórios de biodiversidade agrícola portuguesa.
Quanto ao seu desenvolvimento fisiológico, existem os figos lampos, que se desenvolvem na madeira do ano anterior e amadurecem geralmente no início do verão. São normalmente maiores, menos doces e, em muitas variedades portuguesas, formam-se sem fecundação nem necessidade de polinização, sendo por isso considerados, na prática, partenocárpicos.
Existem também os figos vindimos, que surgem nos ramos do próprio ano, inseridos na axila das folhas, amadurecem no final do verão e são geralmente mais doces, aromáticos e valorizados comercialmente.
Dependendo da variedade, podem formar-se sem polinização ou necessitar de caprificação, um processo tradicional em que se utilizam figos de baforeira com vespas polinizadoras, para assegurar um bom vingamento.
Do ponto de vista agronómico, as variedades de figueira agrupam-se em diferentes comportamentos fisiológicos, consoante produzam uma ou duas colheitas anuais - figueiras uníferas e bíferas - e exijam, ou não, caprificação.
Em território continental, os figos lampos amadurecem sobretudo entre meados de junho e julho, enquanto os figos vindimos são colhidos maioritariamente entre o final de agosto e o início de outubro, dependendo da variedade e da região.
Algumas variedades portuguesas, como Pingo de Mel, Moscatel, Bêbera Branca, Bêbera Preta, Burjassote Branco, Lampa Branca ou Verdeal, produzem habitualmente figos vindimos comestíveis, sem necessidade de caprificação.
Outras, como Belmandil, Castelhana Branca, Euxária Branca ou Euxária Preta, necessitam de caprificação para assegurarem bom vingamento e produção regular.
E depois existe a extraordinária Lampa Preta, talvez uma das mais fascinantes de todas. Os seus figos lampos são partenocárpicos e comestíveis, mas os figos vindimos precisam de caprificação para vingarem plenamente.
Caso os figos necessitem de polinização, entra em cena uma das mais extraordinárias relações simbióticas do mundo vegetal, estabelecida entre a figueira e uma pequenina vespa (Blastophaga psenes). Esta relação dura há milhões de anos.
Este processo agrícola tradicional, conhecido por caprificação, tira partido desta relação simbiótica. Na prática, os agricultores colocavam nas figueiras domésticas colares de figos provenientes das baforeiras, no interior dos quais viviam as vespas polinizadoras carregadas de pólen.
Estas pequeninas vespas acabam frequentemente por morrer no interior do sicónio, sendo progressivamente degradadas durante o amadurecimento do figo, graças à presença de enzimas proteolíticas, como a ficina. Será a figueira uma planta carnívora?!
Para finalizar, partilho uma curiosidade que não se encontra habitualmente em publicações científicas ou técnicas.
Muitas pessoas saberão que cair de uma figueira, porque os seus ramos de madeira mole se partem facilmente, foi durante muito tempo causa de morte em todo o mundo rural. Um dos mais antigos e reputados viveiristas portugueses produziu durante décadas figueiras com um marketing extraordinário.
Eram as únicas que não se partiam perante a necessidade de se trepar à árvore para alcançar os frutos. O “segredo” foi guardado durante gerações.
A propagação das cultivares era assegurada por estacaria. Ao contrário da maioria das espécies, as estacas de figueira conseguem enraizar mesmo quando inseridas no substrato… invertidas! É verdade!
Ao enraizar, a nova planta lança ramos que formam junto ao tronco principal uma espécie de U, ficando essa zona reforçada e mais resistente ao peso de quem trepa à árvore. Segredo revelado!
Os figos e as figueiras são verdadeiramente extraordinários. E talvez Portugal, país de forte influência mediterrânica e de enorme riqueza varietal, merecesse hoje muito mais agricultores profissionais dedicados a esta cultura ancestral.
Felizmente, ainda existem viveiros portugueses onde é possível encontrar algumas destas figueiras, embora a oferta varie muito de ano para ano e nem sempre corresponda à riqueza conservada nas coleções públicas.
Viveiros como Castromil ou Viveiros Portugal mantêm figueiras tradicionais em comercialização, mas as variedades mais raras continuam muitas vezes confinadas a coleções, pomares antigos e redes informais de propagação.
Cultivar uma figueira de uma variedade portuguesa é muito mais do que produzir figos. É preservar biodiversidade, memória agrícola e património cultural.

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