A história de uma equinácea

Há plantas que acabam por ficar ligadas aos momentos mais marcantes do nosso percurso, como se passassem a fazer parte da nossa própria biografia.

A equinácea (Echinacea purpurea), originária das pradarias e clareiras de bosque do leste da América do Norte, ergue-se no verão sobre caules eretos e robustos, coroada por inflorescências de tons rosados e por um cone central proeminente e pontiagudo que atrai abelhas, borboletas e inúmeros polinizadores.

É uma planta vivaz amplamente reconhecida pelas suas propriedades medicinais e estudada em todo o mundo pela riqueza dos compostos bioativos que acumula nas flores, folhas e raízes.

Ao longo da minha vida, colaborei em centenas de estudos científicos, em Portugal e no estrangeiro, disponibilizando amostras de dezenas de espécies de plantas medicinais para universidades, centros de investigação e empresas.

Em cada envio seguia muito mais do que material vegetal. Seguiam anos de observação, ensaio, seleção e cultivo. Seguia o conhecimento adquirido no contacto diário com as plantas, construído estação após estação, e a esperança de que aquelas folhas, flores, sementes ou raízes pudessem contribuir para responder a questões que a ciência procurava ainda desvendar.

Entre todos esses trabalhos, houve um que jamais esquecerei. Durante a pandemia de COVID-19, fui contactado pelo Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, para disponibilizar amostras de várias espécies vegetais, entre elas a equinácea.

O seu destino foi o projeto PLANTCOVID – Aplicações de Extratos de Plantas com Ação Dirigida ao SARS-CoV-2, desenvolvido em parceria com o Instituto Politécnico de Bragança, o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes e a Next Generation Chemistry.

Os investigadores verificaram que um dos extratos estudados apresentava uma elevada capacidade antioxidante e uma atividade antiviral muito expressiva em ensaios laboratoriais de contacto direto com SARS-CoV-2, alcançando uma redução superior a 99,99% da atividade viral nas condições experimentais avaliadas.

Tratava-se de resultados obtidos em laboratório, com potencial para futuras aplicações de proteção e desinfeção, abrindo caminho ao aproveitamento dos compostos naturais destas plantas.

Entre os compostos identificados encontravam-se o ácido caftárico e o ácido chicórico, dois dos constituintes mais característicos da equinácea.

Naqueles meses de incerteza, quando o mundo procurava respostas para um vírus que alterara profundamente a vida de todos nós, saber que extratos obtidos a partir de plantas cultivadas em Portugal tinham demonstrado uma atividade antiviral tão relevante foi uma notícia difícil de descrever em palavras.

Mais do que números ou resultados laboratoriais, representava a possibilidade de as plantas continuarem a inspirar novas soluções num dos maiores desafios de saúde pública da nossa geração.

Recordo com nitidez o momento em que recebi esta informação. Foi um daqueles instantes raros em que muitos anos de dedicação encontraram finalmente um sentido mais amplo.

Durante alguns segundos, passaram-me pela memória os campos de cultivo, as colheitas, as horas passadas a observar plantas e a aprender com elas. Percebi que todo este percurso tinha contribuído, ainda que de forma modesta, para um esforço coletivo de conhecimento num dos períodos mais exigentes da história recente. 

Talvez por isso a equinácea tenha conquistado um lugar especial na nossa casa. No inverno bebemos com regularidade a sua infusão, seguindo uma tradição que acompanha esta planta há gerações, e partilhamos este pequeno ritual em família.

Não se trata apenas de uma bebida. Em cada chávena reencontro a mesma planta sob uma nova forma. Já não apenas como a flor exuberante que iluminava o campo durante o verão, mas também como o resultado de séculos de utilização tradicional e décadas de investigação científica.

A fotografia que acompanha este texto é uma das mais belas alguma vez captadas nos meus campos de cultivo, que foram os primeiros e, durante muito tempo, os únicos campos de produção de equinácea em Portugal.

Sempre que a observo, vejo muito mais do que uma flor visitada por uma borboleta. Vejo a biodiversidade em ação, o diálogo permanente entre plantas e polinizadores e a extraordinária capacidade da natureza para despertar curiosidade, gerar conhecimento e inspirar novas descobertas.

É nesta ligação entre o campo e o laboratório, entre a experiência prática e a investigação científica, que reconheço uma parte importante da minha vida dedicada às plantas medicinais.
 

 

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