A importância das redes de fungos micorrízicos
Debaixo dos nossos
passos existe uma arquitetura viva que começa agora a ganhar forma nos mapas da
ciência.
Um novo estudo publicado
na revista Science estimou, pela primeira vez à escala global, a
extensão e a biomassa das redes de fungos micorrízicos arbusculares nos
primeiros 15 centímetros do solo. Estas redes são feitas de hifas, filamentos
finíssimos que ligam fungos e plantas numa relação de troca vital.
As plantas entregam aos
fungos parte do carbono que capturam pela fotossíntese. Em retorno, os fungos
ajudam as plantas a obter nutrientes minerais, sobretudo fósforo e também azoto,
alargando o alcance funcional das raízes no solo. Esta parceria sustenta
florestas, prados, culturas agrícolas e muitos dos equilíbrios que fazem do
solo um organismo vivo.
Os resultados apontam
para uma dimensão difícil de imaginar. O estudo estima cerca de 110 quadriliões
de quilómetros de hifas vivas. Se pudéssemos alinhar estes filamentos
microscópicos, eles permitiriam percorrer a distância entre a Terra e o Sol mais
de 700 milhões de vezes.
A imagem é quase
cósmica, mas a sua importância é profundamente terrestre. Conhecer a densidade
destas redes ajuda-nos a compreender melhor a fertilidade do solo, a saúde das
plantas, a circulação de nutrientes, a resposta dos ecossistemas à seca e o
caminho do carbono entre a atmosfera, as raízes e a vida subterrânea.
Esta nova cartografia
pode transformar a forma como olhamos para a agricultura, para as florestas e
para o restauro ecológico. Os fungos micorrízicos arbusculares ligam raiz e
mineral, planta e paisagem, carbono atmosférico e solo vivo. Quanto mais
coberto, diverso, poroso e rico em matéria orgânica for o solo, melhores serão
as condições para que estas redes cumpram a sua função ecológica.
A sua importância
climática nasce desta intimidade com as plantas. Parte do carbono retirado da
atmosfera pela fotossíntese passa pelas raízes e entra nas redes fúngicas. O
estudo estima que estas redes recebam das plantas cerca de mil milhões de
toneladas métricas de carbono por ano, valor próximo de 4 mil milhões de
toneladas de dióxido de carbono equivalente. A ciência continua a investigar
quanto desse carbono permanece armazenado ao longo do tempo.
Preservar os fungos do
solo significa cuidar da fertilidade construída lentamente pela vida
subterrânea, da resiliência que nasce de solos cobertos, diversos e bem
estruturados, e da comunidade microscópica que sustenta grande parte da
vegetação terrestre. O futuro da agricultura e das florestas dependerá, cada
vez mais, da atenção que dermos a estes organismos e às relações que eles tecem
entre raízes, minerais, água e carbono.
Proteger estas redes é
também proteger a vida que nasce acima delas. Quando cuidamos do solo, cuidamos
da trama invisível que alimenta a paisagem.

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