Botânica olfativa

Há dias, durante uma saída com o Museu do Porto nos jardins do Palácio de Cristal, parei junto à árvore que cresce perto do parque infantil, mesmo ao lado de uma das casas de banho que existem no jardim. Fomos de propósito à sua procura, para nos abrigarmos debaixo daquela sombra confortável, larga e fresca.

Contei ao grupo que a descobri numa circunstância pouco solene. Um dia, enquanto esperava que o meu filho regressasse da casa de banho, aproximei-me dela para fugir ao sol e encostei-me ao seu tronco. Olhei para ela demoradamente e pensei: eu não te conheço.

Esta sensação, em mim, tem sempre alguma gravidade. Tenho horror à cegueira vegetal, sobretudo quando a cegueira é minha. Então fiz aquilo que faço muitas vezes quando uma planta me intriga e o nome ainda anda escondido entre a forma, a folha e o cheiro. Peguei numa folha, observei-a, senti-lhe a textura, esmaguei-a entre os dedos e levei-a ao nariz. Cheirava a canela.

A árvore apresentou-se primeiro pelo perfume. Depois vieram as nervuras, a folha persistente, o porte, a casca, a família botânica, a confirmação possível. Era uma caneleira (Cinnamomum verum), ali em pleno Porto, discreta entre casas de banho, crianças a brincar e gente a passar sem suspeitar que a canela também podia dar sombra.

Foi nessa altura que me saiu uma comparação pouco académica, mas muito eficaz. Disse ao grupo que talvez eu reconheça as plantas como os cães se reconhecem uns aos outros. Os cães chegam, farejam-se, recolhem informação, humores, medos, entusiasmos e hierarquias invisíveis.

Eu faço a minha versão botânica dessa saudação. Aproximo-me, pego numa folha, esmago-a entre os dedos e levo-a ao nariz. Como as árvores não têm rabo, cheiro-lhes as folhas. A gargalhada foi imediata.

E talvez haja nesta pequena indignidade olfativa alguma verdade. Antes dos nomes, antes das chaves dicotómicas, antes das certezas confirmadas pelos livros, há um encontro físico com a planta. O olhar aproxima-se, a mão confirma, o nariz interpreta.

A botânica também nasce desta intimidade prática posta ao serviço da atenção. Há plantas que se deixam reconhecer pela flor, outras pela casca, outras pelo fruto, outras por esse perfume íntimo que só aparece quando lhes tocamos.

Quanto às plantas, nunca saberei se também me farejam de volta. Talvez sim. Talvez aquela caneleira tenha percebido logo quem eu era. Um humano inquieto, encostado a uma árvore junto à casa de banho, a esmagar folhas entre os dedos para aprender o nome da sombra que o protegia.
 

 

Comentários

Mensagens populares