O jardim das roseiras perdidas
Há plantas que parecem continuar à espera de alguém capaz de reparar nelas. Comigo acontece assim com as roseiras abandonadas.
Encontro-as nos lugares mais improváveis. Em baldios escondidos entre prédios, junto a casas degradadas e logradouros onde já ninguém vive, em hortas entregues à vegetação, nas margens de campos agrícolas e em sebes antigas que ainda desenham os limites da paisagem rural.
Aparecem junto ao mar, moldadas pelo vento salgado e pela maresia, ou perdidas nas serras acima dos 1000 metros de altitude, entre giestas, silvas e fragas.
Algumas continuam a florir diante de pequenas casas rurais já vazias. Outras permanecem ao lado de moradias outrora cheias de vida, como se ainda recusassem abandonar aquele lugar.
A da imagem, em frente à praia de Lavadores, cresce num terreno que outrora pertenceu a uma família inglesa. Todos os anos transforma-se num tapete cor-de-rosa absolutamente extraordinário.
Milhares de pessoas passam ao lado sem reparar nela. E eu nunca consigo ficar indiferente quando encontro roseiras assim.
Há qualquer coisa de profundamente humano nestas plantas que continuam a crescer, a expandir-se e a florir muito para além da presença de quem as plantou.
Já encontrei roseiras que cobrem telhados inteiros, muros, anexos e árvores. Algumas avançam por vinhas abandonadas.
Outras misturam-se com glicínias e madressilvas até se tornarem quase inseparáveis. Outras trepam bem alto pelos troncos das árvores, que lhes servem de tutor.
Há roseiras que formam verdadeiras muralhas floridas em campos agrícolas deixados ao abandono. Cada uma parece guardar fragmentos de vidas passadas, de famílias, de quintais, de gestos simples repetidos durante décadas.
Quem as terá plantado? De onde foram trazidas? Qual será a espécie, a variedade, a história genética escondida em cada ramo? Há quanto tempo ali estarão?
Assim que as descubro, começo a imaginar as mãos que as podaram, as pessoas que lhes sentiram o perfume e as vidas que cresceram em redor delas.
Gostava de fazer parte de um projeto nacional que envolvesse percorrer Portugal continental e as ilhas para encontrar, identificar e propagar todas estas roseiras antes que desapareçam.
Ao mesmo tempo, criar um jardim botânico onde ocupassem um espaço próprio, ao lado de uma coleção das roseiras autóctones portuguesas. É verdade, também as temos e muitas vezes estão entre as que acabei de descrever.
Entre as mais comuns encontram-se a roseira-canina (Rosa canina), espalhada por caminhos e sebes de norte a sul, e a roseira-brava (Rosa sempervirens), frequente no litoral húmido e em zonas sombrias.
Mas existem também espécies muito mais raras e frágeis, como a roseira-ferrugínea (Rosa rubiginosa), hoje Criticamente em Perigo em Portugal continental, sobrevivendo apenas na serra da Estrela, ou espécies de distribuição muito restrita, como Rosa squarrosa e Rosa blondaeana.
Imagino este jardim como um grande mapa vivo da memória vegetal portuguesa, construído a partir de plantas resgatadas de ruínas, caminhos rurais, hortas esquecidas, velhos pátios e casas vazias. Um jardim onde cada roseira tivesse uma história para contar.
Conta a lenda que a Rainha Santa Isabel, surpreendida pelo rei D. Dinis enquanto distribuía pão aos pobres, respondeu:
“São rosas, senhor, são rosas.” E do seu colo caíram rosas.
Talvez o nosso milagre pudesse começar de outra forma. Encontrar estas roseiras espalhadas pelo país inteiro antes que desapareçam sob silvas, escavadoras, incêndios ou novas construções.
Reuni-las num grande jardim vivo da memória portuguesa. Um lugar onde continuassem a florir as roseiras que ninguém catalogou, que ninguém vende em viveiros e que sobreviveram apenas porque resistiram ao tempo, ao abandono e ao esquecimento.
Espero um dia conseguir cumprir este sonho.

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