A agronomia também exige respeito
Frase icónica de Elis Regina, um dos maiores vultos da cultura brasileira, partilhada numa curta entrevista em que fala sobre o rumo das relações humanas, pouco tempo antes de morrer.
A frase é extraordinária porque, na sua aparente simplicidade, abre uma reflexão profunda sobre o modo como a sociedade valoriza o conhecimento. Elis Regina toca precisamente nesse ponto sensível onde o saber prático, acumulado no corpo, no gesto, na atenção, na experiência e na responsabilidade de fazer, continua tantas vezes a ser tratado como saber menor.
Certos saberes nascem da proximidade com a realidade. Crescem na repetição dos dias, na observação paciente, no erro corrigido, na decisão tomada em condições imperfeitas, no contacto continuado com a matéria viva e na consciência de que cada gesto tem consequências. São saberes de quem conhece por dentro aquilo que muitos apenas comentam de fora.
Ao longo da vida, ouvi demasiadas vezes frases semelhantes, quase sempre dirigidas a profissões cujo conhecimento se confunde facilmente com disponibilidade, jeito, intuição ou boa vontade.
Como engenheiro agrónomo, reconheço bem essa forma subtil de desvalorização. Ao longo da minha vida profissional, vi muitos colegas partilharem generosamente conhecimento académico, científico e técnico construído por formação superior, investimento pessoal, experimentação, erro, estudo continuado e contacto direto com agrossistemas, jardins, plantas, solos, água, ciclos produtivos e espaços vivos, sempre com o fator aleatório como parceiro imprevisível.
Esse conhecimento fica muitas vezes longe de ser valorizado por quem o solicita, como acontece com tantas outras classes profissionais. No caso da agronomia, o problema começa logo na leitura redutora do que faz um engenheiro agrónomo, ainda muito presente na sociedade portuguesa.
Para muitos, o engenheiro agrónomo continua a ser alguém chamado para “dar uma opinião sobre umas plantas”, “ver uma terra”, “resolver uma praga”, “dizer o que se deve plantar”, “dar umas ideias para um jardim”, “ajudar ali com uma rega” ou “validar rapidamente uma decisão” que muitas vezes já nasceu mal pensada. Isto é ridículo.
Essa imagem pobre e limitada transforma conhecimento técnico em palpite, experiência profissional em conversa informal, diagnóstico em favor, acompanhamento em disponibilidade permanente e responsabilidade em mera opinião.
Reduz uma profissão inteira a uma espécie de conselho avulso, pedido no fim, quando o erro já foi cometido, o investimento já avançou, a árvore já foi mal plantada, a rega já foi mal dimensionada, o solo já foi compactado, a espécie escolhida não serve o lugar e o projeto exterior já está condenado a gastar dinheiro todos os anos para disfarçar uma má decisão inicial.
O engenheiro agrónomo é um profissional com formação superior especializada nas ciências agrárias, preparado para compreender, planear, gerir, avaliar e transformar sistemas vivos e produtivos.
Trabalha com solo, água, plantas, clima, biodiversidade, produção vegetal, paisagem, alimentação, território, sustentabilidade, legislação, economia agrícola, inovação técnica e decisão estratégica.
A sua intervenção atravessa explorações agrícolas, empresas, municípios, instituições, jardins históricos, propriedades privadas, projetos de restauro ecológico, planos de sustentabilidade, cadeias de valor agroalimentar e visitas técnicas ao terreno.
Pode ensinar numa ou em várias faculdades, gerir produção, acompanhar equipas, diagnosticar problemas, antecipar riscos, propor soluções, qualificar espaços exteriores, valorizar recursos naturais e ajudar pessoas e organizações a tomar decisões mais sólidas.
No meu caso, depois de muitos anos como agricultor profissional, a minha ocupação atual é a de engenheiro agrónomo e consultor. Trabalho com empresas, municípios, instituições e particulares, ajudando a interpretar propriedades, explorações, jardins, áreas naturalizadas e ativos empresariais a partir de décadas de conhecimento de campo acumulado, experiência prática, estudo dedicado e contacto direto com a matéria viva dos lugares.
Mais do que nunca, percebo que a agronomia se faz nessa zona exigente onde a ciência encontra o terreno, onde a teoria precisa de lama nos sapatos, onde a experiência pede método, onde cada decisão tem consequências sobre plantas, solos, água, pessoas, economia e futuro.
O engenheiro agrónomo deve ser encarado com a mesma seriedade reservada a qualquer profissional chamado a proteger património, reduzir risco e evitar decisões ruinosas.
Tal como um advogado pode evitar um contrato desastroso, um médico pode impedir que um problema simples se transforme numa tragédia e um engenheiro civil pode impedir que uma obra nasça torta, um engenheiro agrónomo pode evitar escolhas profundamente erradas num terreno, numa exploração, num jardim, numa plantação, numa rega, numa intervenção paisagística ou num projeto empresarial ligado à terra.
A sua intervenção pode significar milhares de euros poupados, anos de frustração evitados, árvores preservadas, solos protegidos, água bem usada, plantações com futuro, espaços exteriores mais equilibrados e decisões tomadas com entusiasmo, orçamento e consciência real das consequências.
A agronomia perde valor sempre que é empurrada para o terreno do favor rápido, da opinião gratuita e da conversa de circunstância. Um parecer técnico pedido à pressa, entre duas frases e sem tempo para observar, estudar e ponderar, transforma-se numa decisão tomada de olhos fechados sobre um sistema vivo que continuará a responder durante anos.
Representa o mesmo que pedir a um advogado uma opinião jurídica “só de cabeça”, a um médico um diagnóstico “só olhando”, a um engenheiro civil uma validação “só por alto” ou a um arquiteto um projeto “só com umas ideias”.
As profissões que lidam com risco, investimento, responsabilidade e consequências reais exigem tempo, conhecimento, método e respeito. A agronomia também.

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