Quiuí, quivi ou quibi?

Recordo a primeira vez que vi kiwis, tal como recordo onde estava no dia 11 de setembro de 2001. O kiwi entrou-me na infância pela estranheza. Antes de lhe conhecer o sabor, ficou-me a imagem daquela pequena esfera felpuda, cara, rara, pousada numa mercearia do Porto com a autoridade característica das coisas que chegam de muito longe.

Foi algures em meados dos anos oitenta, na Casa São Miguel, uma mercearia de referência na rotunda da Boavista, na minha cidade natal, que os vi expostos como pequenas joias vegetais, castanhos, felpudos, improváveis, alvo de curiosidade e cobiça popular. Tinham qualquer coisa de anúncio, de viagem, de parente emigrado, de mesa onde a novidade se servia com alguma solenidade.

Custavam cinco contos o quilo, quase vinte e cinco euros na conversão direta, valor que a memória, essa economista sentimental, ainda hoje encarece. Vinham vestidos com uma casca áspera e parda, em tudo semelhante à estranha ave que lhes empresta o nome comercial.

Curiosamente, o fruto fez o caminho inverso do pássaro. A planta saiu da China, ganhou mundo pela Nova Zelândia e acabou batizada com o nome de uma ave neozelandesa, noturna, terrestre, frágil perante predadores introduzidos e ainda hoje dependente de programas intensos de conservação.

Também o nome chegava embrulhado em hesitação. Como se dizia aquilo em português corrente. Quiuí, quivi ou quibi? Ainda hoje a palavra oscila na boca de muita gente, como se o fruto conservasse, na pronúncia, a memória da sua viagem.

Pouca gente saberá que esta planta tem origem chinesa. As actinídeas pertencem ao género Actinidia, com várias espécies e formas cultivadas. O kiwi verde mais comum é Actinidia chinensis var. deliciosa.

Durante séculos foram apreciados na China como frutos silvestres e de uso local, sobretudo em regiões montanhosas do centro e sul do país, antes de entrarem nos herbários, jardins botânicos e catálogos europeus. A Europa encontrou-os primeiro como curiosidade científica.

Em meados do século XVIII, o jesuíta francês Pierre Noël Le Chéron d’Incarville recolheu e enviou para a Europa os primeiros espécimes de Actinidia chinensis. Embora tenham ficado guardados em herbário durante décadas até à sua descrição científica formal, o fruto acabaria mais tarde por ficar conhecido no Ocidente como groselha-chinesa.

Muito depois, já no início do século XX, sementes vindas da China chegaram à Nova Zelândia. Em 1904, Mary Isabel Fraser trouxe sementes da China para Whanganui, e Alexander Allison semeou-as pouco depois. As plantas frutificaram em 1910.

Daí nasceu uma aventura agrícola que transformou a groselha-chinesa no fruto kiwi moderno, com a cultivar ‘Hayward’, selecionada nos anos vinte e nomeada em 1956, a marcar a história comercial do fruto verde. O nome comercial kiwifruit foi adotado em 1959 pela empresa neozelandesa Turners & Growers, substituindo gradualmente a designação groselha-chinesa nos mercados internacionais.

Foi graças a este fruto que aprendi o significado da palavra antípodas. Para uma criança do Porto, a Nova Zelândia era o outro lado do mundo, quase uma hipótese geográfica.

O kiwi ajudava a desenhar esse mapa. Cabia na mão, mas trazia dentro dele uma distância imensa, feita de missões botânicas, viveiristas, pomares experimentais, seleção varietal e mercados capazes de transformar um fruto chinês de uso local numa cultura agrícola de escala mundial.

Em 1973, numa altura em que os primeiros ensaios comerciais timidamente espreitavam a Norte, o Dr. Ponciano Serrano foi pioneiro ao instalar em Vila Nova de Gaia uma das primeiras coleções e plantações da região. Trouxe plantas de França e reconheceu, antes de muitos outros, as excelentes condições daquela terra para a produção de kiwis.

A coincidência toca-me de perto. Esse primeiro pomar português de kiwi nasceu em Gaia, no mesmo concelho onde, anos mais tarde, eu haveria de plantar o meu próprio começo enquanto agricultor profissional.

Foi também em Gaia que fui pioneiro nas plantas aromáticas, medicinais e condimentares, levando para a terra culturas que muitos recebiam com a mesma estranheza que rodeara, décadas antes, aquele fruto felpudo. Kiwis e aromáticas. Duas agriculturas improváveis lançadas a partir do mesmo concelho, cada uma a abrir o seu caminho onde antes não havia nenhum.

A região oferecia condições edafoclimáticas particularmente favoráveis, com influência atlântica, humidade suficiente, solos adequados e invernos capazes de satisfazer, em muitos locais, as necessidades de frio da cultura. A actinídea pedia água, condução, poda, estrutura, polinização cuidada e atenção ao equilíbrio vegetativo. O Norte percebeu depressa que aquele fruto estranho podia ganhar raízes sérias.

Colhido entre outubro e dezembro, o kiwi terá sido um dos primeiros frutos que, na minha memória, chegou às casas portuguesas com uma promessa claramente funcional, num tempo em que essa expressão ainda não fazia parte da linguagem comum.

Era apresentado como uma espécie de medicamento vivo, fresco e nutritivo. Trazia consigo a fama da vitamina C, da fibra, da acidez limpa, da polpa verde e das pequenas sementes negras dispostas em círculo, como se a natureza tivesse ali desenhado uma aula de botânica em miniatura.

Desconfiava-se da polpa verde, porque a fruta habitual lá em casa raramente tinha aquela cor por dentro. Depois vinha a surpresa da doçura ácida, a frescura quase elétrica, a colher a cortar a polpa ao meio, a casca deixada como pequena taça castanha no prato.

E ai de quem não gostasse. Se era caro, tinha de ser bom. Essa frase, meio brincadeira e meio sociologia alimentar, explica muito sobre a chegada de certos alimentos às nossas mesas.

Muitas famílias levaram primeiro para casa o prestígio da novidade. O gosto veio depois, à mesa, disciplinado pelo preço, pela promessa de saúde e por essa estranha autoridade que certos alimentos ganham quando chegam envoltos em raridade.

Pela mão do meu querido Professor Carlos Frutuosa, os kiwis chegaram à Escola Agrícola de Santo Tirso, num pomar experimental onde os alunos mais afortunados puderam aprender a olhar para aquela cultura com rigor técnico.

Ali, a novidade de mercearia ganhava corpo agrícola. Tornava-se planta conduzida, podada, observada, polinizada, colhida e medida. A actinídea revelava o seu verdadeiro carácter. Vigorosa, trepadora, exigente, generosa quando bem instalada, severa perante o improviso, dependente de suporte firme, rega criteriosa, bom arejamento e polinização competente.

Desses ensaios, visitas, pomares e conversas nasceram produtores atentos e técnicos competentes. Fizeram-se especialistas, empresários agrícolas e fileiras organizadas. Entre eles, recordo o meu colega Vítor Araújo, ligado a uma das histórias mais expressivas da produção nacional.

Em poucas décadas, o Norte de Portugal transformou uma curiosidade felpuda num fruto de elevada qualidade, capaz de competir com produções internacionais e de mostrar que a inovação agrícola também se faz quando uma região reconhece, a tempo, a planta certa para o seu clima, o seu saber e a sua ambição.

Hoje olho para o kiwi com uma ternura particular. Vejo nele a infância, a Casa São Miguel, a rotunda da Boavista, o espanto perante o preço, a hesitação do nome, o professor que levou a cultura para a escola e os produtores que a trouxeram para a paisagem. Vejo também uma lição maior. Um fruto pode chegar de muito longe e, ainda assim, ganhar lugar num território.

Precisa de ciência, viveiros, pomares bem desenhados, polinizadores, mercado, conservação pós-colheita e gente que saiba transformar curiosidade em cultura. O kiwi fez essa travessia. Veio da China, ganhou passaporte comercial na Nova Zelândia e encontrou no Norte de Portugal uma casa agrícola onde a estranheza inicial amadureceu em competência.

  


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