Diante da árvore mais alta da Europa
Em nenhum destes países. Na realidade, encontra-se bem mais perto do que poderia imaginar. A árvore mais alta da Europa cresce em Portugal, na Mata Nacional de Vale de Canas, em Coimbra.
A estimativa maisrecente atribui-lhe cerca de 75,20 metros. Este valor coloca o seu cimo ligeiramente acima dos 75 metros da Torre dos Clérigos, no Porto. Uma árvore plantada no século XIX cresceu até superar um dos monumentos mais reconhecíveis do país.
Finalmente fui ao seu encontro. Queria conhecer de perto esta árvore extraordinária, escondida numa mata às portas de Coimbra e muito longe da atenção que a sua importância europeia justificaria. Chama-se Karri Knight e é um eucalipto da espécie Eucalyptus diversicolor.
Junto do tronco, seguimos com os olhos a sua subida até o perdermos entre as copas. Recuamos alguns passos, mudamos de ângulo e voltamos a procurar o cimo. Na fotografia, nós cabemos por inteiro. Da árvore fica sempre uma parte por alcançar. Com cerca de 153 anos, tornou-se demasiado alta para caber num único olhar.
O karri é originário das regiões húmidas do sudoeste da Austrália Ocidental, onde forma florestas de grande porte. O nome científico Eucalyptus diversicolor refere-se à diferença de coloração entre as duas faces das folhas. A espécie apresenta uma casca lisa que se desprende em placas e lâminas, revelando uma sucessão de tons claros, rosados, ocres e acinzentados. As flores são brancas, ricas em néctar e muito procuradas por aves e insetos.
Plantado em 1873 pelos Serviços Hidráulicos do Mondego, o Karri Knight chegou aos nossos dias como um dos exemplares mais extraordinários do património arbóreo português. O Avison.º 9080/2002, publicado em 16 de agosto, classificou-o como árvore de interesse público, juntamente com a araucária que cresce a poucos metros de distância.
A sua altura foi medida em diferentes momentos. Em 2010, Dean Nicolle registou 72 metros com recurso a laser. Em 2015, uma equipa subiu à árvore e obteve 72,9 metros por medição direta. Em 2017, a Giant Trees Foundation registou 73 metros.
Portugal possui pelo menos dois registos oficiais de árvores acima dos 70 metros. Um deles, datado de 2016, atribui 72,9 metros a um Eucalyptus regnans situado no cimo do Vale de São Silvestre, na Mata Nacional do Buçaco.
A presença de dois exemplares portugueses neste reduzidíssimo grupo de gigantes europeus é extraordinária. Os invernos amenos, a influência atlântica, a disponibilidade de água, os solos profundos e a introdução de espécies provenientes de outras regiões do mundo favoreceram o desenvolvimento destas árvores.
Estes gigantes testemunham também um período marcante da história florestal portuguesa, durante o qual matas, jardins e arboretos receberam numerosas espécies exóticas para observação, ensaio e produção.
Mesmo ao lado do karri encontra-se uma araucária-de-Queensland (Araucaria bidwillii), classificada como árvore de interesse público no mesmo aviso. É uma conífera originária das florestas do Queensland, na Austrália, conhecida como bunya pine.
A espécie é monoica e forma estruturas reprodutivas masculinas e femininas no mesmo exemplar. As pinhas podem atingir grandes dimensões e contêm dezenas de sementes comestíveis, designadas em inglês por bunya nuts. Durante gerações, estas sementes tiveram grande importância alimentar, cultural e espiritual para vários povos indígenas do leste da Austrália, sobretudo do sudeste de Queensland e das regiões adjacentes do nordeste de Nova Gales do Sul.
A Monumental Trees atribui-lhe cerca de 54 metros. A Giant Trees Foundation considera este exemplar o mais alto da espécie na Europa.
À alegria de encontrar estas duas árvores juntou-se uma profunda preocupação com o estado da mata. Observei uma carga elevada de combustível vegetal, continuidade horizontal e vertical do combustível e uma preocupante presença de plantas invasoras.
Em agosto de 2005, um incêndio consumiu grande parte da Mata Nacional de Vale de Canas. Os danos conduziram ao corte raso de mais de 90 % da sua área e a um processo de rearborização iniciado no ano seguinte. O estado atual da mata exige uma gestão mais ativa, contínua e tecnicamente orientada.
Vale de Canas precisa de um programa integrado de restauro ecológico, sustentado por um diagnóstico rigoroso e por um acompanhamento a longo prazo. A recuperação da vegetação, o controlo das espécies invasoras, a gestão do combustível, a proteção do solo e da água, a condução da regeneração natural e a salvaguarda das árvores monumentais devem fazer parte de uma intervenção gradual, avaliada ao longo do tempo e ajustada à evolução da mata.
O próprio Karri Knight deveria beneficiar de um plano específico de gestão e acompanhamento. Uma árvore com esta dimensão, idade e proximidade dos visitantes exige inspeções periódicas realizadas por arboristas qualificados, com avaliação do colo, do tronco, da copa, do sistema de ancoragem e do solo envolvente.
O acompanhamento deveria incluir registo fotográfico, novas medições e medidas de prevenção perante incêndios, tempestades e raios.
O tronco do Karri Knight está coberto de nomes, iniciais, datas e corações gravados na casca pelos visitantes. O que levará alguém a cometer tamanha alarvidade?
A casca protege o tronco das agressões externas e cada corte pode atravessá-la e lesar os tecidos vivos subjacentes. No karri, a descamação da casca faz parte do desenvolvimento natural da espécie. As incisões feitas pelos visitantes constituem uma agressão e desfiguram um património que pertence a todos.
Junto dos dois exemplares, uma placa identifica as árvores e conta parte da sua história. Até chegar ali, quem procura a árvore mais alta da Europa avança praticamente sem orientação. Nos principais acessos faltam indicações e, dentro da mata, um percurso devidamente assinalado e mantido.
Uma sinalética discreta e coerente, acompanhada por regras de visita, ações de sensibilização e vigilância regular, ajudaria a orientar os visitantes e a prevenir novas inscrições ou outros danos. A proximidade ao tronco poderia assim ser mantida.
As entidades responsáveis pela gestão da mata e pela promoção turística da região deveriam reunir esforços em torno deste lugar. A árvore mais alta da Europa deveria constituir um ponto de visita obrigatório em Coimbra, acompanhado por uma estratégia de conservação à altura da sua importância.
Uma árvore que levou mais de um século e meio a ultrapassar os 75 metros merece cuidado diário, conhecimento técnico e respeito coletivo. O Karri Knight alcançou o topo da Europa. Cabe-nos agora estar à altura dele.








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