Enquanto os extraterrestres não chegam

Aproxima-se velozmente o período do ano em que o país se inclina perigosamente a sul, sob o peso da multidão que cobre por completo áreas imensas de areal, procurando o seu lugar ao sol.

Entretanto, um pequeno punhado de arrojados portadores do cartão de cidadão português, vivendo no território ou chegando, ainda que temporariamente, de fora, juntamente com hordas de estrangeiros estupefactos com tantas maravilhas criminosamente ao abandono, delicia-se como pode nas centenas de linhas de água de qualidade assombrosa que milagrosamente ainda persistem neste país.

O assombro é tal que apetece seguir as recomendações da NASA e começar os preparativos para sermos visitados por espécies de outros planetas, ansiamos nós, mais evoluídos, que consigam, com o seu avançado conhecimento, gerar bom senso em todos os portugueses, para assumirem como desígnio fundamental cuidar do paraíso em que tiveram o imenso privilégio de nascer.

Instalado definitivamente o bom senso, restaria consolidá-lo, transformando-o de seguida num produto de exportação para o resto do mundo.

Removidos quase todos os eucaliptos, acácias e outras espécies invasoras do território, restaurado o estado de paraíso à beira-mar plantado, continentais e ilhéus passariam a viver em exclusivo no declarado Quinto Império, que o filósofo Agostinho da Silva há muito advogou para o seu povo.

As árvores da economia do futuro seriam plantadas para produzir solo, água, chuva, clima temperado, biodiversidade, alimento e paisagem habitável. Uma contabilidade finalmente capaz de reconhecer valor no húmus, na sombra, na nascente, no voo dos insetos e na lenta prosperidade de um bosque.

Como bons alunos que somos de tantas outras filosofias e doutrinas, os visitantes pedagogos de outras galáxias poderiam partir, seguros do papel decisivo que esta pequena nação e seus habitantes desempenhariam na nova ordem mundial, em que o bom senso germinado em Portugal cresceria de forma próspera nas consciências dos restantes terráqueos.

Milhares de cidadãos novos chegariam a Portugal, entretanto transformado num gigantesco ateliê de carvalhos, castanheiros, sobreiros, azinheiras, cursos de água saudáveis e fauna e flora recuperadas pela generosidade comum.

Viriam à procura de formação cívica, moral e ética, perante toda a criação.

E seríamos celebrados, em todas as nações, em todas as línguas, por todos os credos. Porque mudámos o mundo valorizando aquilo que sempre nos rodeou, precisando apenas de um pequeno e improvável estímulo.

Enquanto os extraterrestres não chegam, podemos começar os preparativos.

Talvez pelo interior, onde o país ainda guarda água limpa, sombra de árvores grandes, aldeias com futuro por cumprir e uma beleza que dispensa propaganda. Levemos investimento, ciência, trabalho e bom senso. 

O resto talvez venha por acréscimo. Quem sabe se a inteligência extraterrestre que esperamos não começa, afinal, por uma visita nossa ao país que nos calhou em sorte?


 

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