O novo paradigma da água

Nas aulas de ciências, aprendemos o ciclo da água como se a paisagem fosse passiva. O sol aquecia o mar, a água evaporava, as nuvens viajavam, a chuva caía sobre a terra e os rios devolviam tudo ao oceano. A explicação era útil, mas deixava quase tudo o que vive na paisagem fora da história.

Nesse desenho, a paisagem surgia como cenário. Era o lugar onde a chuva caía, onde a seca se instalava, onde os rios passavam a caminho do mar. As árvores, os solos, as zonas húmidas, as raízes e a matéria orgânica ficavam reduzidos a pano de fundo, como se a água atravessasse a terra sem que a terra também a transformasse.

Hoje sabemos que esse desenho estava incompleto. A paisagem participa no ciclo da água e, ao fazê-lo, ajuda a moldar o clima. Uma encosta coberta de vegetação, um solo vivo, uma zona húmida preservada, uma floresta funcional, um olival com cobertos vegetais ou uma cidade com árvores e sombra influenciam a temperatura, a humidade do ar, a infiltração da chuva, a violência das enxurradas e alguns dos processos que favorecem a formação de nuvens e precipitação.

Durante décadas, o diálogo sobre o clima concentrou-se, com razão, no dióxido de carbono, no metano e na queima de combustíveis fósseis. Esta dimensão é decisiva.

A história continua debaixo dos nossos pés, nas folhas, nas raízes, na matéria orgânica, na porosidade do solo e na forma como cultivamos, drenamos, arborizamos, pastoreamos e urbanizamos. O clima também se decide na pele da paisagem.

Basta atravessar uma cidade durante uma onda de calor para perceber isto no corpo. Uma rua sem árvores, coberta de asfalto e fachadas quentes, torna-se uma superfície de febre. Uma rua arborizada oferece outra temperatura, outra respiração. A sombra reduz a radiação. As folhas transpiram água. O ar arrefece. A cidade muda porque a sua paisagem muda.

À escala de uma região inteira, o Planalto de Loess, na China, tornou-se um dos grandes exemplos mundiais de restauro ecológico. Uma área imensa, marcada por erosão severa, solos degradados e pobreza rural, foi objeto de uma vasta intervenção baseada na recuperação do coberto vegetal, em práticas agrícolas mais cuidadas, na retenção de água e na estabilização de encostas e ravinas.

A cobertura vegetal aumentou, a erosão e o arrastamento de sedimentos diminuíram drasticamente, a produção agrícola melhorou e milhões de pessoas viram a sua vida transformada.

A paisagem recompôs-se e começou a alterar também o ambiente à sua volta. Estudos recentes indicam efeitos diários de arrefecimento local superiores a 5 ºC durante a época de crescimento, associados ao aumento da vegetação e da evapotranspiração.

O aumento da cobertura vegetal pode influenciar também a precipitação regional, através de processos atmosféricos complexos. A lição é poderosa. Quando uma paisagem degradada se regenera, mudam os solos, a água, a vegetação, a economia rural e o clima local.

No Mediterrâneo ocidental, onde a Península Ibérica ocupa uma posição decisiva, esta leitura torna-se especialmente clara. As brisas marítimas encontram montanhas próximas da costa, verões secos, solos muitas vezes exaustos e chuvas cada vez mais difíceis de prever.

O investigador Millán Millán estudou a diminuição das chuvas convectivas de verão nesta região e propôs uma explicação decisiva para compreender o que acontece quando a terra perde capacidade de devolver água ao ar.

A chuva nascia desse encontro entre mar e terra, entre a brisa carregada de humidade, a vegetação que transpirava, os solos capazes de devolver água ao ar e as montanhas que obrigavam esse ar a subir, arrefecer e condensar.

À medida que drenámos e degradámos zonas húmidas, impermeabilizámos áreas costeiras, expandimos cidades, simplificámos campos agrícolas e reduzimos a vegetação ativa, a paisagem perdeu capacidade de alimentar esse processo com vapor de água. O ar passou a atravessar superfícies mais quentes, solos mais secos e paisagens com menor capacidade de devolver água à atmosfera.

O vapor de água tende então a ficar retido sobre o mar, acumulando energia, até regressar ao continente em episódios mais intensos de instabilidade. A região mediterrânica conhece bem este novo vocabulário de secas longas, calor extremo e chuvadas violentas.

A teoria da bomba biótica, proposta por Anastassia Makarieva e Victor Gorshkov, leva esta leitura para a escala das grandes florestas. A ideia é ousada e permanece em debate, como acontece com muitas hipóteses científicas que procuram explicar fenómenos grandes demais para caberem numa resposta simples.

Florestas extensas, biodiversas e ecologicamente funcionais, pela evapotranspiração intensa e pela condensação do vapor de água, podem ajudar a criar gradientes de pressão capazes de puxar ar húmido do oceano para o interior dos continentes.

Nesse movimento, a floresta surge como força termodinâmica. Solos vivos, clareiras, fauna, madeira morta, raízes profundas e copas fisiologicamente ativas participam na circulação da água, da energia e do ar.

A paisagem respira também numa dimensão microscópica. Das folhas, dos solos e dos microrganismos que aí vivem libertam-se aerossóis biológicos que sobem com o ar e podem participar nos processos íntimos da formação da chuva. Entre eles estão bactérias, esporos de fungos, pólen, fragmentos vegetais e outras partículas capazes de favorecer a formação de gelo nas nuvens.

A superfície de uma folha prolonga-se assim no ar. A chuva passa a ser lida como um processo atmosférico atravessado pela vida. De algum modo, a vegetação também ajuda a semear chuva!

Esta leitura encontra no campo agrícola a sua expressão mais concreta. É no solo que a água se perde, se guarda ou ganha caminho, que a chuva corre à superfície ou se transforma em reserva, que a fertilidade se desfaz ou se organiza. Um solo nu e mobilizado recebe a chuva como impacto.

Sobre a superfície desprotegida, a água desfaz agregados, arrasta partículas finas e nutrientes, abre sulcos e leva consigo uma parte da fertilidade.

Num solo coberto, estruturado e rico em matéria orgânica, a chuva encontra porosidade, abrigo e demora. A água infiltra-se, segue canais abertos por raízes e organismos vivos, permanece disponível durante mais tempo e regressa às plantas antes de voltar ao ar pela transpiração.

Sementeira direta, cobertos vegetais em olivais, vinhas e pomares, pastoreio rotativo, sebes vivas, compostagem, charcas, valas de infiltração, recuperação de galerias ripícolas e sistema Keyline são formas diferentes de trabalhar com a mesma intenção.

Ler o terreno, abrandar a escorrência, proteger o solo, aumentar a matéria orgânica e criar condições para que a água entre no chão, alimente a fertilidade, suba pelas plantas, refresque o ar e regresse ao céu pela respiração da vida.

A expressão sementeira de água é feliz porque transforma uma ideia técnica num gesto que qualquer agricultor reconhece. Semeiam-se condições de porosidade, coberto vegetal, sombra, matéria orgânica e leitura do relevo, para que a chuva abrande, entre no solo, alimente raízes, refresque o ar e permaneça na paisagem quando a secura regressar.

Semeia-se água ao travar a escorrência numa encosta, recuperar ou abrir valas de infiltração, criar charcas bem desenhadas, cobrir o solo agrícola, devolver vegetação às margens das ribeiras sazonais e conduzir o pastoreio de modo a estimular raízes, proteger a superfície e aumentar a matéria orgânica.

Em sistemas bem pensados e bem acompanhados, estes gestos aumentam a infiltração, melhoram a retenção de água no solo e no território e preparam a paisagem para resistir melhor à secura.

Os exemplos acumulam-se em geografias muito diferentes.

No Rajastão, os johads, pequenas barragens tradicionais de terra para captação da água da chuva, ajudaram comunidades a recarregar aquíferos, recuperar poços e devolver caudal a cursos de água sazonais.

No Sahel, meias-luas, covas zaï e cordões de pedra em curva de nível ajudam a recuperar solos difíceis. As covas retêm água da chuva e matéria orgânica, os cordões de pedra travam a escorrência e, em conjunto, estas técnicas aumentam a infiltração e devolvem fertilidade ao terreno.

Em Espanha, as antigas acequias de Aldeanueva de la Vera, canais tradicionais de rega e infiltração, voltaram a ser estudadas como soluções baseadas na natureza para reforçar a recarga hídrica e os caudais de verão.

Em Inglaterra, os castores regressaram ao rio Otter e mostraram a sua competência hidráulica, armazenando água, atenuando picos de cheia e criando zonas húmidas cheias de vida.

Em Portugal, esta leitura encontra terreno fértil e urgência evidente, porque quase tudo no nosso território pede uma nova relação com a água. Temos verões longos, solos pobres em matéria orgânica, linhas de água degradadas, incêndios recorrentes, encostas expostas, ribeiras que passam da secura à fúria em poucas horas e cidades onde sobra pavimento, falta sombra e a água da chuva é conduzida depressa demais para fora do lugar onde cai.

Temos também montados, lameiros, socalcos, galerias ripícolas, baldios, sistemas tradicionais de rega, agricultores experientes, técnicos qualificados, universidades, municípios e uma cultura agronómica capaz de juntar ciência, prática e imaginação territorial.

A pergunta passa a nascer no próprio território. Que paisagem estamos a construir para receber a chuva, guardar a água no solo, alimentar as plantas, arrefecer o ar e devolvê-la ao ciclo da vida?

A resposta começa nos gestos concretos com que tocamos o território, no solo mobilizado com cuidado, no coberto vegetal que protege a terra, na matéria orgânica que devolvemos ao chão, no pastoreio que alimenta raízes e fertilidade, nas linhas de água que voltam a ser corredores vivos e nas cidades que trocam parte do calor acumulado por árvores, sombra e solo permeável.

A chuva começa muito antes de a vermos no céu. Começa na transpiração das folhas, no caminho aberto pelas raízes, na rede subterrânea dos fungos, nas bactérias que viajam com os aerossóis biológicos, nas galerias das minhocas, na erva que veste o solo, na charca que abranda a enxurrada, na árvore que refresca a rua e na decisão de não deixar a terra nua. Antes de cair, a chuva já percorreu a vida.

Talvez seja esta a promessa mais fértil do novo paradigma da água. A água responde à forma que damos à terra. Fica onde encontra solo poroso, sombra, raízes, matéria orgânica, vegetação e tempo. Quando este caminho se recompõe, a regeneração ganha corpo no território.


 

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