A Alfarrobeira da Quinta da Parra

Cheguei à Quinta da Parra, em Moncarapacho, atraído pelas dimensões registadas e pela vontade de conhecer uma das grandes alfarrobeiras portuguesas. A realidade excedeu qualquer medida. No centro de um pomar de laranjeiras, a copa ergue-se numa massa ampla e cerrada, sustentada por longas pernadas que se projetam em todas as direções e anunciam, ainda à distância, a dimensão de uma árvore excecional.

O tronco abre-se em pregas profundas, cavidades e volumes unidos pela passagem dos séculos. Junto da base, a escala humana torna-se mínima. Esta é uma das árvores monumentais mais belas, vigorosas e imponentes que encontrei em Portugal e no mundo, e uma das que mais me emocionou.

A idade estimada, superior a 600 anos, situa o início do crescimento da Alfarrobeira da Quinta da Parra nas primeiras décadas do século XV, durante o reinado de D. João I e antes de Gil Eanes dobrar o cabo Bojador, em 1434. Desde então, Portugal atravessou dinastias, abriu rotas oceânicas, transformou a agricultura e refez inúmeras vezes a paisagem. A árvore permaneceu em Moncarapacho, guardando no corpo uma parte da história rural do Algarve.

Foi classificada como Árvore de Interesse Público em 2001. É atualmente a única alfarrobeira com classificação individual no Registo Nacional do Arvoredo de Interesse Público. As medições registadas nesse ano atribuem-lhe 13,40 m de perímetro do tronco, medido a 1,30 m do solo. Este valor coloca-a entre as 5 árvores com maior perímetro do tronco em Portugal. O diâmetro médio da copa foi registado em 15,50 m e a árvore mantém-se produtiva.

Decorridos 25 anos, estas medições constituem uma referência histórica e já não são suficientes para caracterizar as dimensões atuais. Uma nova avaliação dendrométrica, realizada segundo o mesmo protocolo, permitiria atualizar os valores e acompanhar com rigor a evolução deste exemplar.

A alfarrobeira (Ceratonia siliqua) pertence à família Fabaceae. É uma árvore perenifólia, de copa densa, folhas paripinadas e folíolos coriáceos, lustrosos na página superior e mais claros na inferior. Esta folhagem persistente, associada ao controlo da transpiração e a um sistema radicular extenso, ajuda-a a atravessar os longos períodos de secura do clima mediterrânico.

As flores são pequenas, sem pétalas, e reúnem-se em cachos sobre ramos formados há vários anos e também sobre o tronco. Este fenómeno, designado por caulifloria, é uma das características botânicas que mais a singularizam entre as fruteiras cultivadas em Portugal.

A floração inicia-se no verão e atinge o seu máximo no outono, coincidindo durante algumas semanas com a maturação das vagens formadas no ciclo anterior. A copa reúne então as últimas alfarrobas maduras de uma campanha e as inflorescências que darão origem à seguinte.

A espécie é predominantemente dioica. As flores masculinas e femininas surgem em árvores diferentes, existindo também formas hermafroditas. A polinização decorre essencialmente entre setembro e outubro. É realizada sobretudo por insetos, podendo o vento contribuir também para o transporte do pólen. A presença e a distribuição das árvores polinizadoras tornam-se decisivas nos pomares constituídos por cultivares femininas.

A alfarroba é uma vagem indeiscente que leva cerca de 10 a 11 meses a completar o desenvolvimento. Amadurece durante o verão e adquire então a cor castanho-escura que a caracteriza. A alfarrobeira apresenta alternância de produção, que pode assumir um padrão marcado de anos de safra e contrassafra.

Ensaios realizados no Algarve mostraram que a rega e, sobretudo, a fertilização podem aumentar a produtividade ao longo de campanhas sucessivas. A alternância está também associada a ritmos endógenos, de natureza hormonal, que regulam a floração e a indução floral.

As plantas já enxertadas quando são instaladas no terreno podem começar a produzir cerca de 5 anos depois. Quando a enxertia é realizada no local definitivo, a entrada em produção pode demorar 7 ou 8 anos. As produções com interesse económico surgem com maior expressão entre os 15 e os 20 anos e o pico de produção ocorre habitualmente entre os 30 e os 40 anos. O material vegetal, a cultivar, a polinização, o solo, a água disponível e as práticas culturais alteram profundamente estes intervalos.

Entre as leguminosas, a alfarrobeira apresenta uma particularidade importante. É uma espécie não nodulante e não possui capacidade para fixar azoto atmosférico. O sistema radicular estabelece associações com fungos micorrízicos arbusculares, cujas hifas ampliam o volume de solo explorado e favorecem a nutrição mineral, sobretudo quando a disponibilidade de nutrientes é reduzida.

Durante muito tempo, a origem da alfarrobeira em Portugal permaneceu em discussão. A investigação arqueobotânica e genética mais recente sustenta que a forma silvestre integra a flora autóctone do sul da Península Ibérica. As populações cultivadas resultam de uma história mais complexa, marcada pela seleção agrícola, pela circulação de material vegetal e pela diversidade regional dos processos de domesticação.

Vestígios polínicos com cerca de 17,5 milhões de anos documentam a presença do género Ceratonia no sul da Península Ibérica durante o Miocénico. Existem também evidências da presença da alfarrobeira no Pleistocénico e no Holocénico. Séculos de cultivo e de trocas entre comunidades mediterrânicas sobrepuseram à distribuição natural uma geografia moldada pela ação humana.

O nome português conserva essa viagem cultural. «Alfarroba» deriva do árabe al-harruba. A árvore acompanhou rotas comerciais, comunidades agrícolas e sistemas de sequeiro ao longo de muitos séculos. No Algarve integrou o pomar tradicional ao lado da amendoeira, da figueira e da oliveira. As diferentes épocas de colheita repartiam o trabalho e o risco ao longo do ano, permitindo produzir em terrenos pedregosos e num regime de precipitação muito irregular.

A presença histórica da cultura deixou marcas documentais precisas. O topónimo Farrobeira surge nas proximidades de Loulé em 1477. O foral manuelino de Silves, concedido em 1504, menciona as farrobas. Em 1693, um recibo do Convento de Nossa Senhora da Graça, em Tavira, registou a aquisição de um saco do fruto. A alfarroba ganhou valor comercial durante o século XVIII e tornou-se um produto importante da economia e das exportações algarvias no século XIX.

Portugal conserva um património genético próprio. As variedades Mulata, Galhosa, Canela, Spargale, Aida e Gasparinha foram inscritas e registadas em 2006. A coleção instalada no Centro de Experimentação Agrária de Tavira reúne 44 acessos, dos quais 38 são femininos, 2 hermafroditas e 4 masculinos.

Nesse conjunto sobrevivem nomes profundamente ligados aos lugares e aos agricultores que selecionaram as árvores, como Costela de Vaca, Preta de Lagos, Brava de Lagoa, Galhó, Mulata da Parra e Canela do Moal. Cada acesso corresponde a material genético identificado e conservado.

Esta diversidade nasceu de uma longa seleção realizada pelos agricultores. O tamanho e a forma da vagem, a proporção de semente, o teor de açúcares, a época de maturação, a produtividade e a adaptação a cada lugar orientaram a escolha das árvores.

Estudos morfológicos e genéticos revelaram diversidade apreciável entre os materiais portugueses e forneceram bases para a sua conservação. Perder estes recursos reduziria as possibilidades de selecionar cultivares capazes de responder ao frio, à escassez de água, à irregularidade produtiva e às exigências da indústria.

O interesse agronómico português pela espécie vem de longe. Em 1885, José de Almeida Coelho Bivar apresentou a dissertação inaugural A alfarrobeira. Cultura, meios de a melhorar, alcoolisação e destillação do fructo.

A investigação desenvolvida nas últimas décadas aprofundou a fisiologia, a nutrição, a resposta à rega, a alternância produtiva, a caracterização do fruto, a propagação e a diversidade genética. Este trabalho continuado sustenta uma fileira que colocou Portugal entre os principais produtores mundiais e criou no Algarve uma indústria especializada na transformação do fruto.

Cerca de 90% da massa da alfarroba corresponde à polpa. Rica em açúcares e fibra, foi durante muito tempo destinada sobretudo à alimentação animal. Hoje entra em farinhas, pão, bolos, biscoitos, gelados, xaropes, licores, aguardentes e outras bebidas.

A torrefação desenvolve aromas que explicam a sua utilização como sucedâneo do cacau. A alfarroba possui identidade sensorial e composição próprias. A cozinha algarvia transformou-a num dos sabores reconhecíveis da região e devolveu ao fruto um lugar na alimentação humana.

As sementes representam aproximadamente 10% da massa do fruto e concentram grande parte do seu valor económico. A moagem do endosperma fornece a goma de alfarroba, ou goma de semente de alfarroba, identificada como E410 na União Europeia. As suas propriedades espessantes, estabilizantes e gelificantes são aproveitadas em gelados, produtos lácteos, molhos, alimentos para lactentes e muitas outras formulações.

A indústria farmacêutica e a cosmética utilizam igualmente esta galactomanana. O gérmen é rico em proteína e a polpa contém fibra, polifenóis e D-pinitol, componentes que continuam a motivar investigação alimentar e nutricional.

As sementes ligam ainda a alfarrobeira à história da metrologia. O grego kerátion, transmitido por outras línguas do Mediterrâneo, encontra-se na origem da palavra «quilate». Sementes escolhidas pela semelhança de tamanho foram utilizadas como pequenos pesos na avaliação de pedras e metais preciosos.

A sua massa apresenta variação, como sucede em qualquer população de sementes. A seleção visual permitia obter conjuntos suficientemente uniformes para a pesagem praticada na época. O quilate métrico foi mais tarde fixado em 200 mg. A designação passou também a exprimir a pureza do ouro numa escala de 24 partes.

Durante gerações, a alfarroba representou rendimento, alimento para os animais e uma reserva que podia ser armazenada. A perda de importância do pomar tradicional resultou do envelhecimento das árvores, da escassa renovação das plantações, do abandono agrícola, da valorização imobiliária dos terrenos, dos custos da apanha e da expansão de culturas de regadio com retorno mais rápido.

A colheita manual em terrenos pedregosos exige muita mão de obra e pesa fortemente no custo final. A valorização da semente e o desenvolvimento de novos produtos devolveram interesse à cultura e estimularam plantações com maior densidade, material selecionado e apoio de rega nos primeiros anos.

Em Portugal, a alfarrobeira continua profundamente ligada ao Algarve. O Recenseamento Agrícola de 2019, o mais recente realizado em Portugal, registou 14 449 ha no país, dos quais 13 584 ha se encontravam nesta região. O Algarve concentrava, assim, cerca de 94% da superfície cultivada.

A cultura estende-se também ao Baixo Alentejo. Na Herdade dos Lagos, no concelho de Mértola, existe um alfarrobal biológico com 260 ha, instalado em solos pouco profundos derivados de xisto e conduzido em sequeiro depois dos primeiros anos. Um estudo recente avaliou igualmente a viabilidade da instalação de alfarrobeiras no concelho de Évora.

Esta distribuição acompanha as exigências climáticas da espécie. A floração outonal e o desenvolvimento dos frutos beneficiam de invernos amenos. O verão prolongado permite completar a maturação das vagens. As baixas temperaturas e as geadas podem danificar plantas jovens, flores, gomos e tecidos lenhosos.

Conheço a plasticidade desta árvore por experiência própria. Cultivei uma alfarrobeira em Vila Nova de Gaia e vi-a atingir grandes dimensões sem problemas. O clima ameno do litoral, os locais abrigados e os microclimas urbanos permitem cultivar bons exemplares muito para norte do Algarve.

A produção regular de fruto exige condições mais específicas. Esta diferença ajuda a explicar a presença ocasional da espécie em jardins e coleções de outras regiões e a sua utilização paisagística muito mais frequente no Algarve, onde encontra clima favorável e uma identidade cultural construída ao longo de séculos.

Considero a alfarrobeira uma das árvores autóctones mais subaproveitadas no desenho de parques e jardins. É uma árvore ornamental de eleição para espaços amplos. A copa perenifólia proporciona sombra ao longo de todo o ano. O porte escultórico, a extraordinária longevidade e a adaptação aos verões secos conferem-lhe grande valor paisagístico. O local de plantação deve dispor de espaço suficiente para o desenvolvimento da copa e do sistema radicular e ter em conta a queda das vagens.

As alterações climáticas renovaram o interesse pela alfarrobeira. A espécie tolera temperaturas elevadas, secura estival e solos de reduzida fertilidade. As folhas acumuladas sob a copa protegem o solo, favorecem a infiltração da água, reduzem a erosão e devolvem nutrientes à medida que se decompõem.

O futuro da cultura dependerá da conservação dos recursos genéticos, da qualidade das plantas produzidas em viveiro, da escolha das cultivares e da correta instalação dos pomares. A resistência à secura permite reduzir as necessidades de água.

Uma produção economicamente estável beneficia da disponibilidade hídrica nas fases críticas, de uma nutrição equilibrada e de uma polinização eficaz. Uma gestão criteriosa da rega, ajustada à precipitação, ao estado hídrico das árvores e aos momentos mais sensíveis do ciclo, permite melhorar a eficiência do uso da água e favorecer a produtividade.

A colheita permanece predominantemente manual em Portugal. Já foram ensaiados vibradores portáteis e vibradores de tronco, com limitações relacionadas com os danos provocados no tronco. Em Espanha utiliza-se também a aspiração das alfarrobas caídas no solo.

A mecanização beneficia de pomares com copas formadas, compassos adequados e terreno preparado para a recolha. A rusticidade da alfarrobeira oferece uma base valiosa para construir sistemas agrícolas mais duradouros no sul da Península Ibérica.

Na Quinta da Parra, a alfarrobeira monumental ergue-se hoje no centro de um pomar de citrinos. Algumas alfarrobeiras foram poupadas quando as laranjeiras começaram a ocupar a propriedade. A maior de todas permaneceu no seu lugar e o novo pomar cresceu à sua volta.

O tronco foi a parte que mais me impressionou. Abre-se em cavidades profundas, fendas, nervuras e colunas de madeira que se aproximam, afastam e voltam a unir. Há espaços inteiros dentro dele.

A casca rugosa, a madeira exposta, as raízes que afloram à superfície e os vários eixos que sustentam a copa compõem uma forma verdadeiramente escultórica. Cada concavidade guarda a marca de uma perda e cada tecido renovado confirma a extraordinária vitalidade da árvore. Nas árvores monumentais, estas estruturas oferecem abrigo e substrato a numerosos organismos. A escultura que vemos é também habitat.

A árvore encontra-se numa propriedade privada e não está aberta à visita livre. Qualquer visita depende de autorização prévia da Parra da Alfarrobeira, Sociedade Agrícola, Lda. Agradeço ao Pedro Dias, que nos recebeu com enorme gentileza e permitiu que a visitássemos em família. Agradeço-lhe a disponibilidade, a confiança e o cuidado dedicado a esta alfarrobeira. Proteger uma árvore com mais de 600 anos representa uma responsabilidade extraordinária, hoje assumida pela família Dias.

Conversei também com Pedro sobre a possibilidade de criar condições para visitas organizadas. Um percurso de visita cuidadosamente delineado permitiria valorizar este lugar como espaço de educação botânica, memória agrícola e conhecimento do território, salvaguardando o solo, as raízes e a integridade do exemplar.

No dia seguinte, visitei no Palácio da Galeria, em Tavira, a exposição «Uma Árvore», de Daniel Moreira eRita Castro Neves, com curadoria de Ana Anacleto. Gostei muito da forma como 3 anos de investigação e criação em torno da Alfarrobeira da Quinta da Parra deram origem a fotografias, desenhos, vídeos, objetos e salas concebidas como ambientes.

A exposição confirmou uma ideia que me acompanhava desde a visita. Uma única árvore monumental contém matéria suficiente para ocupar um museu inteiro e continua a exceder tudo o que conseguimos dizer sobre ela.

Saí da Quinta da Parra com a sensação rara de ter estado perante uma medida viva do tempo. Naquela copa cabem mais de 600 verões algarvios. Naquele tronco permanece uma parte da história agrícola portuguesa. Conhecê-la foi um privilégio, fotografá-la foi uma emoção, regressar a ela tornou-se uma vontade permanente.






 

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