Plantas do monte e a moral estética do jardim

Perdi a conta aos congressos, conferências e encontros técnicos em que participei ao longo da vida. Em finais dos anos 90, quando era encarregado geral dos jardins do Parque de Serralves, vivíamos em Portugal um período de grande entusiasmo em torno dos espaços verdes. Discutiam-se espécies, sistemas de rega, modelos de manutenção e novas formas de levar a natureza para dentro das cidades. Também nos jardins se construía uma cultura urbana.

Foi numa dessas conferências que ouvi uma intervenção que nunca esqueci. Durante um debate sobre a utilização de espécies autóctones, o autarca de uma cidade do interior, cujo nome já não recordo, contou que decidira plantar urzes e rosmaninhos nas rotundas. Eram plantas associadas aos matos da região, adaptadas à secura estival e menos exigentes em rega e manutenção do que muitas ornamentais então utilizadas.

A população recebeu a novidade com desagrado. Aquilo, diziam, não eram plantas de jardim. Eram plantas do monte. O autarca terminou com uma franqueza pouco habitual nestes encontros, afirmando: “Isto é muito bonito, mas, se continuar a insistir nestas espécies, corro o risco de não ser eleito nas próximas eleições”.

Aquelas pessoas conheciam bem as plantas. Tinham crescido rodeadas por elas nas encostas, junto aos caminhos e nos terrenos mais pobres. A familiaridade pertencia ao monte. No centro da cidade, as mesmas espécies pareciam deslocadas, como se aquele espaço estivesse reservado a plantas de outra dignidade ornamental. Mudara o contexto e, com ele, o juízo.

Este episódio deixou abertas perguntas que ainda hoje me acompanham. Até que ponto a estética interfere na moralidade? Precisa um jardim de espécies autóctones de parecer deliberadamente cuidado para ser valorizado?

Poderá a beleza condicionar aquilo a que prestamos atenção, aquilo que estudamos e aquilo que protegemos? Poderá o conhecimento, por sua vez, ensinar-nos a apreciar o que antes víamos como desordem?

Quando falo de moralidade, refiro-me à forma como decidimos o que merece cuidado e o que pode continuar a crescer. No jardim, essa escolha tem consequências concretas. Umas plantas recebem água, adubo, poda e proteção. Outras são arrancadas, roçadas ou pulverizadas antes de lhes sabermos o nome.

Entre a proteção e a eliminação intervém, muitas vezes, um juízo estético. A forma, a cor, a floração, o porte e o lugar onde uma planta surge condicionam a maneira como a interpretamos. É assim que a mesma espécie pode adquirir valor ornamental, representar a identidade de uma paisagem ou ser rejeitada como sinal de desordem e abandono.

Tendemos a atribuir maior consideração moral ao que julgamos belo. Quando valorizamos esteticamente uma paisagem ou um edifício, a sua preservação adquire maior importância e a destruição torna-se mais reprovável. Parte dessa inclinação parece nascer da associação entre beleza e pureza. A raridade, a idade e o caráter sagrado podem igualmente ampliar o valor moral que atribuímos ao que nos rodeia.

Nas plantas, uma flor vistosa, um porte harmonioso ou uma forma capaz de despertar ternura podem tornar certas espécies mais merecedoras de cuidado aos nossos olhos. A emoção leva-nos, por vezes, a atribuir-lhes senciência, intenção ou capacidade de sofrer, qualidades que a aparência, por si só, não permite reconhecer. Essa projeção nasce em quem observa e produz consequências. A convicção de que algo merece ser preservado pode começar numa experiência estética.

Passei grande parte da minha vida profissional entre a jardinagem e a agricultura. Aprendi que o destino de uma planta depende muitas vezes do lugar onde cresce e dos objetivos que ali orientam o trabalho. Na agricultura, a expressão flora adventícia designa o conjunto de plantas que surgem sem terem sido semeadas ou plantadas. Algumas adquirem caráter infestante quando interferem com os objetivos da produção ou da gestão da parcela.

Uma mesma espécie de papoila pode ser protegida num prado, semeada num jardim e eliminada num campo agrícola. A biologia permanece idêntica. O lugar altera a leitura e essa leitura pode determinar o seu destino.

O adjetivo ornamental descreve uma relação entre a planta e quem a escolhe. Aplicamo-lo às plantas cultivadas sobretudo pelo valor estético ou sensorial que acrescentam a um espaço. A planta ornamental chega escolhida e ocupa o lugar previsto no desenho. A intenção precede a sua presença.

Uma planta espontânea germina junto ao lancil, atravessa uma junta do pavimento ou cresce para além do traçado. Pode contribuir para proteger o solo, fornecer recursos a insetos e aumentar a diversidade vegetal. Arrisca ser eliminada porque nasceu fora do lugar que lhe tínhamos destinado.

Nas cidades, as comunidades vegetais precisam muitas vezes de tornar visível o cuidado humano. Um caminho, uma placa interpretativa ou uma orla mantida baixa junto ao passeio podem alterar a perceção de um prado urbano com vegetação mais alta. Esses elementos tornam legível uma decisão de gestão continuada.

Foi isto que faltou às urzes e aos rosmaninhos das rotundas. Continuavam presos à imagem do monte, da rusticidade e do terreno sem cultivo. Uma margem bem definida, um desenho reconhecível, a identificação das espécies ou simplesmente o tempo necessário para acompanhar as florações ao longo do ano poderiam ter ajudado a população a compreender a escolha. O autarca plantou as espécies e deixou por plantar a sua interpretação pública.

A experiência de campo ensinou-me que o conhecimento modifica a perceção. Quando compreendemos que um prado urbano adaptado ao local pode alimentar polinizadores, acolher outras formas de vida e exigir menos rega e menos cortes do que um relvado intensivo, aceitamos melhor uma aparência menos uniforme. A função ecológica acrescenta valor ao que vemos. Os sinais de acompanhamento ajudam a transformar o gosto.

O relvado e o prado urbano dão forma material a estas preferências. O relvado oferece uma superfície baixa, geralmente dominada por poucas espécies e adequada à circulação, ao repouso e ao recreio. O prado permite que uma comunidade herbácea mais diversa cresça e floresça entre cortes espaçados.

O problema surge quando o relvado se transforma na medida universal do cuidado. O verde homogéneo passa a ser esperado mesmo onde nenhuma função exige uma superfície curta, e o dente-de-leão, o trevo ou a tanchagem tornam-se imperfeições a corrigir. A aplicação de um herbicida pode então nascer da expectativa visual de uma superfície depurada.

Essa expectativa possui também uma dimensão social. Exposto ao julgamento dos vizinhos, o relvado pode comunicar trabalho, pertença e capacidade de cuidar. Cada ideal de beleza encerra, assim, um modelo de gestão, inscrito na frequência dos cortes, no consumo de água e na fertilização. A pressão social pode sustentar práticas intensivas mesmo entre pessoas preocupadas com o ambiente. A opção estética fica inscrita na água consumida, no tempo de máquina, nos produtos aplicados e na diversidade de formas de vida que o espaço consegue sustentar.

Há plantas que nem sequer chegam a ser objeto de julgamento estético. Dissolvem-se numa mancha verde antes de repararmos nelas. Quem cultivou, recolheu, cozinhou ou aprendeu a nomeá-las encontra diversidade onde outros veem apenas vegetação. Uma planta conhecida pelo nome ganha corpo e lugar no pensamento. Aquilo que permanece anónimo torna-se mais fácil de eliminar.

Esta desigualdade de atenção alcança a investigação científica. A cor e a visibilidade das flores, a amplitude da distribuição geográfica e a utilidade económica podem influenciar as espécies que escolhemos estudar.

Algumas das plantas mais ameaçadas permanecem, ainda assim, entre as menos conhecidas. A ciência dispõe de métodos para reconhecer estes enviesamentos, embora as preferências de quem investiga continuem a pesar na definição do que merece atenção.

O mesmo filtro estende-se a paisagens inteiras. Matagais, zonas húmidas, terrenos baldios e a vegetação ruderal que coloniza solos perturbados raramente correspondem à composição que aprendemos a chamar jardim. Podem proteger o solo, alimentar insetos, abrigar fauna e estabelecer continuidades entre habitats. Quando compreendemos essas relações, a paisagem adquire outra espessura. O conhecimento ecológico participa na educação do gosto.

Alargar o repertório do gosto exige discernimento ecológico e agronómico. Uma planta é espontânea quando cresce num lugar sem ter sido deliberadamente semeada ou plantada. Os termos autóctone e exótica referem-se à origem biogeográfica da espécie em relação ao território considerado.

Invasora designa, neste contexto, uma espécie exótica cuja introdução ou propagação ameaça a biodiversidade e os serviços prestados pelos ecossistemas. Uma planta espontânea pode, portanto, ser autóctone ou exótica, ocorrer sem impactos relevantes ou tornar-se problemática.

Qualquer decisão de gestão deve respeitar a legislação aplicável às espécies incluídas nas listas oficiais de espécies invasoras. As restrições à sua detenção, cultivo, comércio, transporte e introdução na natureza procuram impedir a propagação e os danos ecológicos que podem ultrapassar largamente os limites do lugar onde a planta foi introduzida.

Cada situação pede uma avaliação própria. Uma planta pode comprometer uma cultura, danificar uma infraestrutura, reduzir a visibilidade ou ameaçar habitats. Noutras circunstâncias, certas espécies exóticas podem oferecer sombra e recursos a polinizadores ou tolerar condições climáticas exigentes.

A origem, o comportamento ecológico, a relação entre as necessidades hídricas e a água disponível, a segurança, a função do espaço e os efeitos sobre outras espécies e sobre o funcionamento dos ecossistemas devem ser considerados em conjunto. O rigor começa quando as categorias servem para compreender antes de condenar.

A estética pode influenciar a consideração moral ao orientar a atenção, despertar emoções e aumentar a vontade de proteger. Por sua vez, o conhecimento ecológico, a experiência e a responsabilidade podem educar o gosto e tornar apreciáveis formas de vegetação antes associadas à desordem. Dessa relação nascem decisões concretas sobre espaço, água, trabalho, controlo e permanência.

Regresso às rotundas. Hoje, as espécies autóctones que nelas encontro devolvem-me às perguntas nascidas naquele congresso. As urzes e os rosmaninhos tinham levado o monte para dentro da cidade, onde já ocupavam um lugar. Faltava-lhes ainda caber na nossa ideia de jardim.
 

 

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