A vida que nos atravessa
Passei grande parte da vida entre plantas aromáticas, árvores, sementes e jardins. Foi aí que aprendi que a terra não se revela aos apressados. Há um tempo próprio nas raízes, na germinação, na lenta transformação das paisagens e das pessoas.
Ao longo dos anos vi paisagens degradadas recuperarem fertilidade, solos endurecidos voltarem a abrir-se à água, às raízes e à atividade invisível que alimenta o mundo vivo, insetos e aves regressarem onde antes parecia restar apenas abandono.
Foi assim que compreendi que preservar a vida exige presença, cuidado e permanência. Quanto mais observo o mundo vegetal, mais me convenço de que existe uma sabedoria inscrita na própria natureza, moldada por milhões de anos de adaptação, equilíbrio e interdependência.
As plantas ensinaram-me a demorar o olhar. A reconhecer que a verdadeira riqueza não nasce da acumulação, mas do encontro com a extraordinária complexidade da vida que nos rodeia.
Há uma grandeza difícil de traduzir no instante em que percebemos que cada jardim, cada bosque e cada punhado de terra fértil encerram mais relações, mais beleza e mais mistério do que alguma vez conseguiremos verdadeiramente contemplar.
Talvez por isso me seja impossível olhar para a destruição da vida como algo distante. Depois de reconhecermos a profundidade das relações que sustentam o vivo, torna-se impossível ignorar a fragilidade dos equilíbrios que levaram eras a formar-se e que a nossa própria espécie se tornou capaz de ferir profundamente.
Porque ao destruirmos a vida à nossa volta, desabitamos também aquilo que somos. Não há exílio maior do que atravessar o mundo sem reconhecer a riqueza que nos coube contemplar. Também nós pertencemos a essa mesma teia frágil de relações.
Quem vive entre as estações, as sementes e os ciclos da terra acaba por compreender que a vida não nos pertence. Atravessa-nos brevemente, como atravessa as árvores, as águas e as montanhas.
Resta-nos a fidelidade: participar nela com consciência, servi-la enquanto nos for dada e devolvê-la com dignidade.
No fim, que a minha passagem pela terra tenha honrado a vida que me atravessou. Quando a morte chegar, terei uma vida para lhe entregar.

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