Negrilho Consulting, regenerar para prosperar

Sim, negrilho é uma árvore. Uma espécie autóctone da flora portuguesa, conhecida também como olmo ou ulmeiro (Ulmus minor), presente durante séculos nos caminhos, nos campos e nos lugares habitados, em adros e limites de propriedades, ao longo de estradas, em parques, jardins, organizando o espaço e oferecendo sombra generosa a quem passava, integrando-se naturalmente na vida quotidiana.

E para mim é também um fio invisível que atravessa a infância e se estende no tempo, revelando-se quando revejo o meu caminho e percebo que algumas escolhas nunca foram verdadeiramente escolhas, mas continuidades profundas, feitas de gestos repetidos, de afetos antigos e de uma relação duradoura com tudo o que vive e cresce devagar.

A empresa que fundámos em 2024, Negrilho Consulting, chama-se assim em honra da árvore favorita da minha avó materna, Maria Alves, uma mulher do Minho que marcou de forma profunda e duradoura o meu gosto pelas plantas, não por aquilo que ensinava em palavras, mas pela forma como habitava a terra e se relacionava com o mundo vegetal no quotidiano.

Com ela aprendi, ainda sem linguagem técnica, que as árvores não são apenas elementos da paisagem. São presenças. Dão sombra, orientam o olhar, estruturam o espaço e o tempo. Foi assim que percebi que a natureza não é pano de fundo, é relação, é companhia, é aprendizagem contínua.

O negrilho fazia parte desse mundo simples, onde a relação com a natureza era vivida, não explicada, e onde o conhecimento passava pela experiência direta, pela observação e pela repetição das práticas quotidianas.

Quando chegou o momento de dar nome a uma nova empresa, já depois de duas encarnações profissionais intensas e exigentes, percebemos que o nome não podia ser um exercício de marketing. Tinha de ser raiz, tinha de carregar história, responsabilidade e horizonte.

Nessa altura decidi que uma parte essencial do meu trabalho, dali em diante, seria contribuir ativamente para a plantação de milhares de árvores autóctones no nosso território, para a proteção de espécies ameaçadas e para o restauro ecológico, entendido como um processo mais amplo de regenerar para prosperar, devolvendo funcionalidade aos ecossistemas e coerência às decisões humanas.

O nome da empresa tinha de carregar este compromisso. Tinha de apontar para o futuro, sem perder contacto com o território, com os pés bem assentes na terra.

O negrilho é uma das mais belas e imponentes árvores da nossa flora autóctone. De copa ampla, tronco firme e presença serena, foi durante séculos uma árvore estruturante da paisagem rural e urbana.

Hoje, infelizmente, é também símbolo de perda. As populações de negrilho em Portugal e na Europa foram drasticamente afetadas pela grafiose, uma doença causada por fungos e disseminada por insetos, que reduziu severamente o número de árvores adultas e comprometeu a regeneração natural da espécie.

Onde antes havia alinhamentos majestosos, há agora vazios difíceis de ignorar, ausências que passaram a fazer parte da paisagem contemporânea.

Ainda assim, o negrilho continua a ensinar-nos sobre resiliência. Apesar das ameaças, é uma árvore tolerante à poluição atmosférica, capaz de se adaptar a uma grande diversidade de solos, incluindo solos pobres, e com boa capacidade de resistência tanto ao frio como ao calor.

Do ponto de vista ecológico, é um recurso de enorme importância, porque sustenta uma comunidade rica e discreta de vida, com um elevado número de espécies de insetos associadas, assumindo um papel relevante como suporte de biodiversidade, tanto em contextos agrícolas como urbanos.

Ao longo da história, o negrilho foi muito mais do que uma árvore ornamental. Em meio rural foi usado como corta-ventos e como separador de terrenos. No Minho e em Trás-os-Montes integrou sistemas agrícolas tradicionais em que a vinha era conduzida ao alto, apoiada nos seus ramos, numa relação antiga entre agricultura, árvore e paisagem, em que a produção se articulava com o sombreamento, a proteção do solo e a gestão do espaço agrícola.

A sua madeira, de coloração clara e avermelhada, é fácil de trabalhar e notavelmente resistente à deterioração pela água, o que explica a sua utilização em carpintaria, marcenaria, construção naval, utensílios domésticos, pavimentos e aplicações industriais, sendo particularmente valorizada em contextos onde a durabilidade e a resistência eram determinantes.

Há também uma dimensão alimentar e etnobotânica que importa não esquecer. As folhas jovens podem ser consumidas frescas ou cozinhadas, em sopas, saladas ou infusões. Os frutos, de sabor fresco e agradável, podem ser consumidos logo após a sua formação, integrando práticas alimentares pontuais e locais.

No passado, as folhas serviram de alimento ao gado suíno, bovino e aos coelhos de criação, sobretudo em épocas de escassez. A tradição regista ainda usos medicinais da casca, rica em taninos, em contextos de medicina popular, associando-lhe propriedades adstringentes e a sua aplicação no tratamento de problemas intestinais e de feridas, lembrando-nos que o conhecimento das plantas foi, durante séculos, uma forma de cuidado, adaptação e sobrevivência, transmitida sobretudo por observação, prática continuada e experiência direta.

Mas o negrilho vive também na literatura e na memória coletiva. Miguel Torga escreveu A um negrilho e fez da árvore não um mestre silencioso, mas um poeta imóvel, um lugar de escuta e permanência, onde a inquietação encontra serenidade e onde o tempo aprende a fazer ninho.

O Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental reconhece esta ligação profunda entre o poeta e o negrilho, revelando como certas árvores ultrapassam a dimensão botânica e se inscrevem na identidade cultural do país.

José Saramago convoca-o em A Jangada de Pedra, quando uma simples vara de negrilho risca o chão e desencadeia o impossível, como se uma árvore bastasse para pôr o mundo em movimento. A literatura lembra-nos que algumas espécies existem ao mesmo tempo no território e na linguagem, e que a sua perda não é apenas ecológica, mas também simbólica e cultural.

O negrilho representa também a síntese do meu próprio percurso. Na primeira encarnação profissional trabalhei nos jardins, como encarregado geral do Parque de Serralves, aprendendo a disciplina do cuidado, a leitura do detalhe e a responsabilidade de manter sistemas vivos em equilíbrio, bem como a humildade de reconhecer que a natureza não se controla, acompanha-se.

Na segunda, durante mais de duas décadas, dediquei-me às plantas aromáticas, medicinais e condimentares, no Cantinho das Aromáticas, com as mãos na terra e o trabalho orientado por conhecimento técnico, método e exigência, num trabalho contínuo entre produção, investigação, divulgação e pedagogia, tornando-me uma referência nessa área em Portugal.

Nesta terceira encarnação profissional, o caminho faz-se em equipa, ao lado da mulher da minha vida, Maria Cramês. A Negrilho Consulting nasce da conjugação de olhares complementares, onde a minha experiência técnica, científica e de campo se articula com a sua capacidade de organização, gestão, comunicação e relação com as pessoas, criando uma abordagem integrada e coerente.

Juntos trabalhamos ao serviço das empresas e organizações, ajudando-as a integrar sustentabilidade, natureza e responsabilidade nas suas decisões, não como conceitos abstratos, mas como critérios operacionais, assentes em conhecimento, método e aplicação no terreno, de forma prática, clara e consequente.

Decidi trabalhar com árvores, com restauro ecológico, com agricultura regenerativa e agroecologia, centrando o meu trabalho atual na área onde a experiência técnica acumulada é mais relevante, a auditoria ecológica e os processos de due diligence associados, ajudando organizações a compreenderem o seu impacto, a corrigirem trajetórias e a atingirem os seus objetivos de forma eficiente, responsável e alinhada com os limites ecológicos, sem soluções cosméticas nem discursos vazios.

Em paralelo, alargamos este trabalho à partilha de conhecimento, e os ebooks da Maria Health Academy já se encontram disponíveis na loja online, levando temas como a alimentação de base vegetal, a redução do desperdício alimentar e os alimentos fermentados a um público mais vasto, como extensão natural do nosso compromisso com escolhas informadas, saudáveis e sustentáveis.

A Negrilho Consulting nasceu assim, de uma memória familiar que não quis ficar apenas dentro de casa e de uma escolha profissional que não quis ficar apenas no discurso. Escolhemos um nome que é árvore porque trabalhamos com o que demora, com o que enraíza, com o que dá sombra e com aquilo que obriga a pensar para lá do imediato.

E porque acreditamos que é precisamente esse olhar de longo prazo, assente em conhecimento, método e responsabilidade, que cria valor real para as empresas e organizações que escolhem fazer parte da solução e assumir um papel ativo na regeneração do território. 
 

 

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