Como o tomate está na origem da batata

Poucas relações de parentesco são tão improváveis, à primeira vista, como a que une a batata e o tomate. No prato, parecem mundos distintos. Um cresce escondido sob a terra, opaco, denso, cheio de amido e substância. O outro amadurece à luz do dia, vermelho, sumarento, quase luminoso. 
 
Durante muito tempo aceitámos esta diferença como definitiva, como se a natureza os tivesse colocado em margens opostas da mesma família. Mas a história, quando observada com a paciência da ciência e a profundidade do tempo, revela uma ligação inesperada.

Há cerca de 8 a 9 milhões de anos, muito antes de existirem agricultores, cozinhas ou receitas, quando os Andes ainda se erguiam lentamente e iam desenhando novos climas e paisagens na América do Sul, duas linhagens de plantas aparentadas cruzaram-se. De um lado, uma linhagem aparentada com o tomateiro (Solanum lycopersicum).

Do outro, um pequeno grupo hoje quase desconhecido, o Solanum etuberosum, restrito ao sul do continente chileno e a ilhas do Pacífico, as remotas Ilhas Juan Fernández. Esse encontro não foi passageiro nem inconsequente. Foi um acontecimento evolutivo profundo, daqueles que alteram para sempre o rumo da vida.

Desta união antiga nasceu uma nova linhagem, hoje reconhecida como o clado Petota, que inclui todas as batatas selvagens e a batata cultivada (Solanum tuberosum). Não se tratou de uma simples mistura genética, nem de um cruzamento ocasional perdido no tempo, mas de uma herança híbrida duradoura, inscrita na própria história evolutiva do grupo.

Foi uma hibridação estável, profunda, detetável em larga escala no genoma, partilhada por mais de 100 espécies selvagens ao longo de milhões de anos. Cada batata que hoje conhecemos carrega ainda essa memória antiga, como uma assinatura invisível, repartida entre dois progenitores que poucos associariam à sua origem.

O mais extraordinário é que essa herança não se limitou a uma simples mistura de genes. Trouxe consigo uma inovação decisiva. Nenhuma das plantas parentais produzia tubérculos, nem o tomate, nem o grupo etuberosum (não tuberoso).

Mas a combinação específica dos seus genes, herdados em mosaico a partir de ambos os progenitores, permitiu o aparecimento de um órgão novo nesta linhagem evolutiva. O tubérculo. Um reservatório subterrâneo de energia, água e sobrevivência, uma resposta elegante a um mundo em mudança.

Este novo órgão permitiu à jovem linhagem enfrentar ambientes mais frios, mais sazonais, mais extremos, sobretudo nas altitudes andinas que então se expandiam. Permitiu reproduzir-se vegetativamente, sem depender exclusivamente de sementes ou polinizadores. Permitiu persistir mesmo quando a reprodução sexual poderia ser limitada, guardando no solo a possibilidade de recomeçar.

E, sobretudo, abriu caminho a uma extraordinária diversificação. A batata não é uma espécie isolada, mas o centro de uma explosão de formas, habitats e adaptações que ainda hoje se estendem pelas Américas, do sudoeste dos Estados Unidos ao Chile, como um vasto ramo evolutivo nascido desta união ancestral.

Durante milhões de anos, esta história permaneceu invisível. As folhas semelhantes, as flores aparentadas e os pequenos frutos verdes da batateira, parecidos com tomates imaturos, eram pistas subtis, fáceis de ignorar. Só a análise detalhada de dezenas de genomas, cruzada com experiências funcionais em laboratório, permitiu reconstruir esta genealogia improvável com clareza. 

Hoje sabemos que a batata não existiria sem esta hibridação ancestral envolvendo uma linhagem aparentada com o tomate. Não como a conhecemos. Não como cultura alimentar, nem como presença fundamental de tantas paisagens agrícolas. 

Há algo de profundamente humano nesta descoberta. A ideia de que a inovação nasce do encontro, de que a diferença pode gerar algo inteiramente novo, de que uma herança mista pode ser fonte de força e criatividade, mesmo quando as origens se perdem na vastidão do tempo. 

A batata, tão comum e tão discreta, é afinal o resultado de uma antiga história de cruzamento e transformação. Um lembrete de que, mesmo no que parece mais simples e quotidiano, se escondem narrativas longas, complexas e surpreendentemente belas, à espera de serem reveladas pela inesgotável curiosidade do ser humano e pela ciência.
 
Esquema da hibridação ancestral entre uma linhagem aparentada ao tomate (Solanum lycopersicum) e o grupo Solanum etuberosum, que esteve na origem do clado Petota e permitiu a evolução dos tubérculos e a diversificação das batatas selvagens. Fonte: Zhang et al. (2025), Cell, doi:10.1016/j.cell.2025.06.034.

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