Restauro da Natureza como pilar da resiliência e da competitividade em Portugal
Durante décadas, habituámo-nos a pensar a natureza como pano de fundo. Algo que estava lá, discreta, resiliente por defeito, capaz de absorver impactos sem exigir resposta nem cuidado. Um sistema aparentemente infinito, sempre disponível, sempre tolerante ao uso e ao abuso. Esse tempo acabou.
Em Portugal, os sinais são inequívocos e acumulam-se. A sucessão de anos excecionalmente quentes, a intensificação das ondas de calor, a recorrência de secas severas, os incêndios florestais cada vez mais difíceis de controlar e os episódios de precipitação extrema deixaram de ser eventos isolados para se tornarem expressão regular de um clima em transformação.
Não se trata de perceção nem de dramatização. Portugal está entre as regiões europeias mais expostas aos impactos das alterações climáticas, resultado de um conjunto de fatores bem identificados, como a localização mediterrânica, a pressão histórica sobre os ecossistemas e a crescente variabilidade climática observada nas últimas décadas.
Ainda assim, persiste uma resistência cultural profunda à antecipação e ao planeamento de médio e longo prazo. Planeia-se pouco, previne-se menos ainda. Decisões estruturais continuam a ser adiadas, frequentemente justificadas pela ideia de que há sempre algo mais urgente, algo mais imediato, algo que aparenta garantir crescimento económico no curto prazo.
Como se proteger pessoas, territórios e infraestruturas fosse um custo supérfluo e não uma condição básica de estabilidade. Como se ignorar riscos amplamente identificados e documentados fosse uma forma aceitável de pragmatismo e não uma escolha consciente de exposição ao dano.
Mas a realidade não funciona assim. Quando fenómenos extremos atingem cidades, empresas, redes de transporte ou sistemas energéticos, o impacto não se limita ao ambiente. Propaga-se rapidamente à economia, à coesão social e ao funcionamento das instituições, afetando cadeias de abastecimento, serviços públicos e a confiança coletiva.
Perdem-se vidas, interrompem-se serviços essenciais, destroem-se ativos construídos ao longo de décadas e desviam-se recursos públicos para respostas de emergência que, segundo a evidência científica e económica, poderiam ter sido substancialmente reduzidas através de medidas de prevenção, adaptação e planeamento antecipado.
Os estudos da Agência Europeia do Ambiente (AEA), do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) e de múltiplos centros de investigação são consistentes ao demonstrar que a degradação dos ecossistemas não é neutra face aos extremos climáticos, antes amplifica a sua intensidade, frequência e impacto, aumentando de forma significativa os prejuízos humanos, económicos e territoriais associados.
É neste contexto que o restauro da natureza ganha verdadeira centralidade estratégica. Restaurar não é embelezar a paisagem nem regressar a um passado idealizado. É restabelecer funções ecológicas críticas que regulam os ciclos da água, estabilizam solos, atenuam extremos térmicos, reduzem riscos de cheias e sustentam atividades económicas fundamentais.
É investir em infraestruturas vivas que operam de forma contínua, frequentemente com custos de manutenção mais baixos e maior capacidade de adaptação do que soluções exclusivamente tecnológicas ou de engenharia pesada.
A União Europeia reconheceu esta evidência ao aprovar o Regulamento (UE) 2024/1991 relativo ao restauro da natureza. Trata-se de um instrumento jurídico vinculativo, diretamente aplicável, que estabelece metas claras, prazos definidos e obrigações concretas para os Estados-Membros, integrando o restauro ecológico como componente estrutural das políticas climáticas, ambientais e territoriais.
Portugal está agora perante a responsabilidade de definir e implementar um Plano Nacional de Restauro da Natureza que traduza estes objetivos em ações ajustadas ao território, aos ecossistemas e às comunidades. Este processo ultrapassa largamente a dimensão técnica, implicando escolhas políticas claras sobre prioridades, investimentos e modelos de desenvolvimento num contexto de risco climático crescente.
Para que esse plano não seja um exercício meramente formal, distante da complexidade ecológica e territorial, é indispensável integrar conhecimento científico atual, experiência de campo e capacidade técnica acumulada.
O próprio Regulamento (UE) 2024/1991 sublinha esta necessidade, ao exigir que os Estados-Membros fundamentem os seus planos em dados científicos, métodos adequados e sistemas de monitorização robustos. É neste enquadramento que se inscreve o papel da Rede de Conhecimento para o Restauro da Natureza, que apoia tecnicamente o Grupo de Trabalho para o Restauro da Natureza coordenado pelo ICNF.
A Rede funciona como um espaço estruturado de convergência entre especialistas de diferentes áreas científicas e técnicas, entre os quais me incluo, permitindo que decisões complexas se baseiem em evidência sólida, métodos consistentes e métricas comparáveis. Esta articulação reduz o risco de soluções simplistas ou descontextualizadas, assegurando que o restauro da natureza é pensado à escala dos ecossistemas, mas também das realidades sociais e económicas do território.
O nosso papel passa por analisar criticamente propostas, contribuir para a definição de métodos e indicadores alinhados com a melhor ciência disponível, avaliar medidas de restauro à luz da evidência científica e da experiência prática no terreno, e ajudar a traduzir objetivos europeus em soluções exequíveis no território português.
Trata-se de um trabalho de mediação entre ciência, política pública e implementação, essencial para que o Plano Nacional de Restauro da Natureza seja eficaz, credível e operacional.
Os municípios têm aqui uma responsabilidade central. São eles que conhecem o território ao detalhe, que gerem grande parte dos espaços urbanos e periurbanos e que estão na linha da frente da resposta e da adaptação a cheias, ondas de calor e outros eventos extremos, com impactos diretos na segurança das populações e no funcionamento dos serviços públicos.
Em Portugal, diversos municípios já deram passos concretos ao desenvolver Planos Municipais de Ação Climática e Estratégias Locais de Adaptação, integrando soluções baseadas na natureza como corredores verdes, renaturalização de linhas de água, aumento do coberto arbóreo urbano e recuperação de zonas húmidas.
Estas intervenções não são meramente ambientais, traduzem-se em redução de riscos, melhoria do conforto térmico, gestão mais eficiente da água e maior resiliência urbana.
Estes exemplos mostram que o restauro da natureza não é uma abstração europeia nem um conceito distante, mas uma ferramenta concreta de proteção local, planeamento territorial e adaptação climática, já em aplicação em múltiplos contextos municipais portugueses.
As empresas, por sua vez, começam a confrontar-se com esta realidade de forma cada vez mais direta. A avaliação de risco climático, a necessidade de planos de adaptação e de continuidade operacional e as obrigações de reporte associadas à Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) estão a trazer o tema para o centro da gestão estratégica e financeira.
Setores como a indústria, a energia, a logística, o turismo ou a agricultura reconhecem crescentemente que a degradação dos ecossistemas aumenta custos operacionais, fragiliza cadeias de abastecimento e expõe ativos a riscos físicos crescentes. Em resposta, começam a surgir investimentos em restauro ecológico, gestão sustentável da água, recuperação de solos e integração de soluções baseadas na natureza como parte da estratégia empresarial, não como filantropia, mas como gestão prudente de risco e proteção de valor.
Também os cidadãos têm um papel relevante neste processo. A participação em projetos de ciência cidadã, como programas de monitorização de biodiversidade, água ou polinizadores, contribui para a recolha de dados essenciais ao planeamento e à avaliação das medidas de restauro.
Para além disso, iniciativas comunitárias de renaturalização de espaços, envolvimento em processos participativos locais e escolhas informadas no quotidiano reforçam a ligação entre conhecimento científico, ação local e responsabilidade coletiva. O restauro da natureza é tanto um desafio técnico como um exercício de cidadania ativa.
É neste cruzamento entre conhecimento especializado, ação municipal, responsabilidade empresarial e envolvimento cívico informado que o restauro da natureza ganha escala, coerência e continuidade. Não como um exercício simbólico ou declarativo, mas como uma resposta estruturante a um país mais exposto e mais vulnerável, que é hoje obrigado a ser mais inteligente na forma como planeia, investe e gere o seu futuro.
Ignorar o restauro da natureza não é neutralidade. É uma escolha ativa por manter vulnerabilidades conhecidas, amplamente documentadas pela ciência e pelas instituições públicas. É aceitar que os custos futuros sejam maiores, mais frequentes e mais difíceis de gerir, tanto para o Estado como para os municípios, as empresas e as comunidades.
Pelo contrário, investir em restauro é reconhecer que resiliência e prosperidade caminham juntas. Que proteger ecossistemas é proteger pessoas, empresas e territórios. Que soluções baseadas na natureza, planeadas com rigor científico e implementadas com governação adequada, reduzem riscos, estabilizam sistemas e criam valor duradouro.
Em Portugal, os sinais são inequívocos e acumulam-se. A sucessão de anos excecionalmente quentes, a intensificação das ondas de calor, a recorrência de secas severas, os incêndios florestais cada vez mais difíceis de controlar e os episódios de precipitação extrema deixaram de ser eventos isolados para se tornarem expressão regular de um clima em transformação.
Não se trata de perceção nem de dramatização. Portugal está entre as regiões europeias mais expostas aos impactos das alterações climáticas, resultado de um conjunto de fatores bem identificados, como a localização mediterrânica, a pressão histórica sobre os ecossistemas e a crescente variabilidade climática observada nas últimas décadas.
Ainda assim, persiste uma resistência cultural profunda à antecipação e ao planeamento de médio e longo prazo. Planeia-se pouco, previne-se menos ainda. Decisões estruturais continuam a ser adiadas, frequentemente justificadas pela ideia de que há sempre algo mais urgente, algo mais imediato, algo que aparenta garantir crescimento económico no curto prazo.
Como se proteger pessoas, territórios e infraestruturas fosse um custo supérfluo e não uma condição básica de estabilidade. Como se ignorar riscos amplamente identificados e documentados fosse uma forma aceitável de pragmatismo e não uma escolha consciente de exposição ao dano.
Mas a realidade não funciona assim. Quando fenómenos extremos atingem cidades, empresas, redes de transporte ou sistemas energéticos, o impacto não se limita ao ambiente. Propaga-se rapidamente à economia, à coesão social e ao funcionamento das instituições, afetando cadeias de abastecimento, serviços públicos e a confiança coletiva.
Perdem-se vidas, interrompem-se serviços essenciais, destroem-se ativos construídos ao longo de décadas e desviam-se recursos públicos para respostas de emergência que, segundo a evidência científica e económica, poderiam ter sido substancialmente reduzidas através de medidas de prevenção, adaptação e planeamento antecipado.
Os estudos da Agência Europeia do Ambiente (AEA), do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) e de múltiplos centros de investigação são consistentes ao demonstrar que a degradação dos ecossistemas não é neutra face aos extremos climáticos, antes amplifica a sua intensidade, frequência e impacto, aumentando de forma significativa os prejuízos humanos, económicos e territoriais associados.
É neste contexto que o restauro da natureza ganha verdadeira centralidade estratégica. Restaurar não é embelezar a paisagem nem regressar a um passado idealizado. É restabelecer funções ecológicas críticas que regulam os ciclos da água, estabilizam solos, atenuam extremos térmicos, reduzem riscos de cheias e sustentam atividades económicas fundamentais.
É investir em infraestruturas vivas que operam de forma contínua, frequentemente com custos de manutenção mais baixos e maior capacidade de adaptação do que soluções exclusivamente tecnológicas ou de engenharia pesada.
A União Europeia reconheceu esta evidência ao aprovar o Regulamento (UE) 2024/1991 relativo ao restauro da natureza. Trata-se de um instrumento jurídico vinculativo, diretamente aplicável, que estabelece metas claras, prazos definidos e obrigações concretas para os Estados-Membros, integrando o restauro ecológico como componente estrutural das políticas climáticas, ambientais e territoriais.
Portugal está agora perante a responsabilidade de definir e implementar um Plano Nacional de Restauro da Natureza que traduza estes objetivos em ações ajustadas ao território, aos ecossistemas e às comunidades. Este processo ultrapassa largamente a dimensão técnica, implicando escolhas políticas claras sobre prioridades, investimentos e modelos de desenvolvimento num contexto de risco climático crescente.
Para que esse plano não seja um exercício meramente formal, distante da complexidade ecológica e territorial, é indispensável integrar conhecimento científico atual, experiência de campo e capacidade técnica acumulada.
O próprio Regulamento (UE) 2024/1991 sublinha esta necessidade, ao exigir que os Estados-Membros fundamentem os seus planos em dados científicos, métodos adequados e sistemas de monitorização robustos. É neste enquadramento que se inscreve o papel da Rede de Conhecimento para o Restauro da Natureza, que apoia tecnicamente o Grupo de Trabalho para o Restauro da Natureza coordenado pelo ICNF.
A Rede funciona como um espaço estruturado de convergência entre especialistas de diferentes áreas científicas e técnicas, entre os quais me incluo, permitindo que decisões complexas se baseiem em evidência sólida, métodos consistentes e métricas comparáveis. Esta articulação reduz o risco de soluções simplistas ou descontextualizadas, assegurando que o restauro da natureza é pensado à escala dos ecossistemas, mas também das realidades sociais e económicas do território.
O nosso papel passa por analisar criticamente propostas, contribuir para a definição de métodos e indicadores alinhados com a melhor ciência disponível, avaliar medidas de restauro à luz da evidência científica e da experiência prática no terreno, e ajudar a traduzir objetivos europeus em soluções exequíveis no território português.
Trata-se de um trabalho de mediação entre ciência, política pública e implementação, essencial para que o Plano Nacional de Restauro da Natureza seja eficaz, credível e operacional.
Os municípios têm aqui uma responsabilidade central. São eles que conhecem o território ao detalhe, que gerem grande parte dos espaços urbanos e periurbanos e que estão na linha da frente da resposta e da adaptação a cheias, ondas de calor e outros eventos extremos, com impactos diretos na segurança das populações e no funcionamento dos serviços públicos.
Em Portugal, diversos municípios já deram passos concretos ao desenvolver Planos Municipais de Ação Climática e Estratégias Locais de Adaptação, integrando soluções baseadas na natureza como corredores verdes, renaturalização de linhas de água, aumento do coberto arbóreo urbano e recuperação de zonas húmidas.
Estas intervenções não são meramente ambientais, traduzem-se em redução de riscos, melhoria do conforto térmico, gestão mais eficiente da água e maior resiliência urbana.
Estes exemplos mostram que o restauro da natureza não é uma abstração europeia nem um conceito distante, mas uma ferramenta concreta de proteção local, planeamento territorial e adaptação climática, já em aplicação em múltiplos contextos municipais portugueses.
As empresas, por sua vez, começam a confrontar-se com esta realidade de forma cada vez mais direta. A avaliação de risco climático, a necessidade de planos de adaptação e de continuidade operacional e as obrigações de reporte associadas à Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) estão a trazer o tema para o centro da gestão estratégica e financeira.
Setores como a indústria, a energia, a logística, o turismo ou a agricultura reconhecem crescentemente que a degradação dos ecossistemas aumenta custos operacionais, fragiliza cadeias de abastecimento e expõe ativos a riscos físicos crescentes. Em resposta, começam a surgir investimentos em restauro ecológico, gestão sustentável da água, recuperação de solos e integração de soluções baseadas na natureza como parte da estratégia empresarial, não como filantropia, mas como gestão prudente de risco e proteção de valor.
Também os cidadãos têm um papel relevante neste processo. A participação em projetos de ciência cidadã, como programas de monitorização de biodiversidade, água ou polinizadores, contribui para a recolha de dados essenciais ao planeamento e à avaliação das medidas de restauro.
Para além disso, iniciativas comunitárias de renaturalização de espaços, envolvimento em processos participativos locais e escolhas informadas no quotidiano reforçam a ligação entre conhecimento científico, ação local e responsabilidade coletiva. O restauro da natureza é tanto um desafio técnico como um exercício de cidadania ativa.
É neste cruzamento entre conhecimento especializado, ação municipal, responsabilidade empresarial e envolvimento cívico informado que o restauro da natureza ganha escala, coerência e continuidade. Não como um exercício simbólico ou declarativo, mas como uma resposta estruturante a um país mais exposto e mais vulnerável, que é hoje obrigado a ser mais inteligente na forma como planeia, investe e gere o seu futuro.
Ignorar o restauro da natureza não é neutralidade. É uma escolha ativa por manter vulnerabilidades conhecidas, amplamente documentadas pela ciência e pelas instituições públicas. É aceitar que os custos futuros sejam maiores, mais frequentes e mais difíceis de gerir, tanto para o Estado como para os municípios, as empresas e as comunidades.
Pelo contrário, investir em restauro é reconhecer que resiliência e prosperidade caminham juntas. Que proteger ecossistemas é proteger pessoas, empresas e territórios. Que soluções baseadas na natureza, planeadas com rigor científico e implementadas com governação adequada, reduzem riscos, estabilizam sistemas e criam valor duradouro.
Num século marcado por instabilidade climática, a competitividade depende menos de atalhos e mais da capacidade de antecipar, adaptar e cuidar do que sustenta tudo o resto. O verdadeiro atraso não está em agir cedo. Está em continuar a fingir que ainda há tempo para adiar.

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