O coco de Mijavelhas
Ontem conduzi a visita botânica “Entre Água e Vegetação”, no Reservatório da Pasteleira, com o privilégio da companhia de Luísa Jorge, ilustradora científica, e de Carla Stockler, arqueóloga da Câmara Municipal do Porto.
O percurso terminou diante de fragmentos de coco encontrados nas escavações do Metro do Porto na Arca de Água de Mijavelhas, no Campo 24 de Agosto. Pertenciam a um contexto do século XVII e estavam associados a uma carga perdida a montante, arrastada pelo Ribeiro de Mijavelhas e retida numa das bacias da arca. Durante a visita tivemos oportunidade de observar vários fragmentos desse conjunto.
A peça que serviu para encerrarmos o percurso foi uma metade de coco. A forma dura do endocarpo podia prestar-se a usos como pequeno recipiente ou utensílio. Num lugar ligado à água, essa possibilidade ganhava uma força particular.
O coco é o fruto do coqueiro (Cocos nucifera). A parte exterior dura e castanha corresponde ao endocarpo lenhoso. Os três olhos que se situam no endocarpo correspondem a poros, dos quais geralmente só um é funcional para a germinação.
A origem da espécie leva-nos ao Sudeste Asiático e às ilhas polinésicas. Quando os portugueses chegaram ao Oriente, a planta já circulava pelo Índico e pelo Pacífico. José E. Mendes Ferrão, em A aventura das plantas e os Descobrimentos Portugueses, situa o primeiro contacto real dos portugueses com o coqueiro na primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, iniciada em 1497 e com passagem por Moçambique em 1498, antes da chegada à costa do Malabar.
No século XVI, foram os portugueses que transportaram o coqueiro para o Atlântico, primeiro para Cabo Verde e depois, pelas suas rotas marítimas, para a costa ocidental africana, o Brasil e as Caraíbas.
Cabo Verde foi uma peça central nessa passagem. Por volta de 1545, um piloto português de uma das viagens atlânticas registou, na Ribeira Grande da ilha de Santiago, a presença de palmeiras que produziam cocos, então chamados “noz da Índia”. O registo mostra que o coqueiro já estava instalado em Cabo Verde em meados do século XVI.
Também a palavra coco tem origem portuguesa. João de Barros explicou-a na Década Terceira de Da Ásia, Livro III, Capítulo VII, dedicado às Maldivas.
Ao descrever o fruto, reparou que a casca dura mostrava uma saliência semelhante a nariz entre dois olhos redondos, por onde a planta lançava os rebentos ao germinar. Essa semelhança com uma cara bastou para que os portugueses lhe chamassem coco, palavra então usada para designar uma figura ou coisa com que se metia medo às crianças.
Barros registou também os nomes locais do fruto. Tenga, entre os malabares, Narle, entre os canarins. Descreveu ainda o coqueiro como uma planta de muitos usos. Da fibra exterior faziam-se cordas resistentes à água salgada. Da palmeira vinham alimento, bebida, cobertura, matéria para escrever e recurso para a navegação.
O imaginário popular aproxima ainda o coco das cocas da tradição peninsular. Coco e coca pertencem ao antigo universo das caras, das máscaras e das presenças usadas para assustar crianças. Em Portugal, a Coca de Monção conserva uma dessas sobrevivências, já transformada em figura ritual e festiva, no combate com São Jorge durante as festas do Corpo de Deus.
A palavra ficou na língua e ganhou outros caminhos. Ainda hoje dizemos “partir o coco a rir”, que é como quem diz rir muito, rir às gargalhadas. A explicação popular liga a expressão à alegria de ver partido o coco que representava a figura usada para assustar crianças.
Também dizemos “ficar à coca”, que significa ficar à espreita, atento ao momento certo de apanhar alguma coisa ou surpreender alguém. A expressão conserva o mesmo fundo de vigilância e ameaça doméstica onde se movem o coco e a coca.
Ontem não partimos o coco a rir, mas divertimo-nos muito. Estou seguro de que o grupo presente gostou da visita e levou consigo uma história inesperada.
Raramente uma peça tão pequena chama tantos lugares à conversa. Uma metade de coco encontrada em Mijavelhas levou-nos da água da cidade à arqueologia do Metro, do Índico ao Atlântico, de Cabo Verde ao Brasil, da língua portuguesa à vida material das plantas que viajam com as pessoas.
As visitas botânicas aos diferentes espaços museológicos da cidade têm sido um sucesso. Temos mais duas já agendadas, que serão anunciadas em breve. Siga a página do Museu do Porto e subscreva a newsletter para saber em primeira mão. As inscrições esgotam depressa.
O percurso terminou diante de fragmentos de coco encontrados nas escavações do Metro do Porto na Arca de Água de Mijavelhas, no Campo 24 de Agosto. Pertenciam a um contexto do século XVII e estavam associados a uma carga perdida a montante, arrastada pelo Ribeiro de Mijavelhas e retida numa das bacias da arca. Durante a visita tivemos oportunidade de observar vários fragmentos desse conjunto.
A peça que serviu para encerrarmos o percurso foi uma metade de coco. A forma dura do endocarpo podia prestar-se a usos como pequeno recipiente ou utensílio. Num lugar ligado à água, essa possibilidade ganhava uma força particular.
O coco é o fruto do coqueiro (Cocos nucifera). A parte exterior dura e castanha corresponde ao endocarpo lenhoso. Os três olhos que se situam no endocarpo correspondem a poros, dos quais geralmente só um é funcional para a germinação.
A origem da espécie leva-nos ao Sudeste Asiático e às ilhas polinésicas. Quando os portugueses chegaram ao Oriente, a planta já circulava pelo Índico e pelo Pacífico. José E. Mendes Ferrão, em A aventura das plantas e os Descobrimentos Portugueses, situa o primeiro contacto real dos portugueses com o coqueiro na primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, iniciada em 1497 e com passagem por Moçambique em 1498, antes da chegada à costa do Malabar.
No século XVI, foram os portugueses que transportaram o coqueiro para o Atlântico, primeiro para Cabo Verde e depois, pelas suas rotas marítimas, para a costa ocidental africana, o Brasil e as Caraíbas.
Cabo Verde foi uma peça central nessa passagem. Por volta de 1545, um piloto português de uma das viagens atlânticas registou, na Ribeira Grande da ilha de Santiago, a presença de palmeiras que produziam cocos, então chamados “noz da Índia”. O registo mostra que o coqueiro já estava instalado em Cabo Verde em meados do século XVI.
Também a palavra coco tem origem portuguesa. João de Barros explicou-a na Década Terceira de Da Ásia, Livro III, Capítulo VII, dedicado às Maldivas.
Ao descrever o fruto, reparou que a casca dura mostrava uma saliência semelhante a nariz entre dois olhos redondos, por onde a planta lançava os rebentos ao germinar. Essa semelhança com uma cara bastou para que os portugueses lhe chamassem coco, palavra então usada para designar uma figura ou coisa com que se metia medo às crianças.
Barros registou também os nomes locais do fruto. Tenga, entre os malabares, Narle, entre os canarins. Descreveu ainda o coqueiro como uma planta de muitos usos. Da fibra exterior faziam-se cordas resistentes à água salgada. Da palmeira vinham alimento, bebida, cobertura, matéria para escrever e recurso para a navegação.
O imaginário popular aproxima ainda o coco das cocas da tradição peninsular. Coco e coca pertencem ao antigo universo das caras, das máscaras e das presenças usadas para assustar crianças. Em Portugal, a Coca de Monção conserva uma dessas sobrevivências, já transformada em figura ritual e festiva, no combate com São Jorge durante as festas do Corpo de Deus.
A palavra ficou na língua e ganhou outros caminhos. Ainda hoje dizemos “partir o coco a rir”, que é como quem diz rir muito, rir às gargalhadas. A explicação popular liga a expressão à alegria de ver partido o coco que representava a figura usada para assustar crianças.
Também dizemos “ficar à coca”, que significa ficar à espreita, atento ao momento certo de apanhar alguma coisa ou surpreender alguém. A expressão conserva o mesmo fundo de vigilância e ameaça doméstica onde se movem o coco e a coca.
Ontem não partimos o coco a rir, mas divertimo-nos muito. Estou seguro de que o grupo presente gostou da visita e levou consigo uma história inesperada.
Raramente uma peça tão pequena chama tantos lugares à conversa. Uma metade de coco encontrada em Mijavelhas levou-nos da água da cidade à arqueologia do Metro, do Índico ao Atlântico, de Cabo Verde ao Brasil, da língua portuguesa à vida material das plantas que viajam com as pessoas.
As visitas botânicas aos diferentes espaços museológicos da cidade têm sido um sucesso. Temos mais duas já agendadas, que serão anunciadas em breve. Siga a página do Museu do Porto e subscreva a newsletter para saber em primeira mão. As inscrições esgotam depressa.




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