Acidente de viação

Aconteceu e tem sido terrível desde esse dia. Tive um acidente, após ter estado a dar a primeira aula num curso de plantas aromáticas, no regresso a casa, vinha montado no meu veículo habitual do dia-a-dia, uma mota, quando fui brutalmente embatido por um automóvel do meu lado esquerdo, que me projectou a vários metros, deixando-me todo o corpo com escoriações, 2 dedos fracturados, uma perna com queimaduras e ferimentos sérios, um pé cozido com vários pontos e dores horríveis nas costas, pescoço, enfim, por todo o corpo. Mas estas são apenas algumas das consequências do acidente.
O que me leva a publicar este texto prende-se com a forma animalesca como fui tratado ao longo da minha passagem pelo sistema hospitalar, será portanto um desabafo.
Se um dia me pedirem uma definição de inferno, responderei de imediato: Hospital de São João. Colocarei ponto por ponto porquê:

  • Após ter aqui dado entrada, demorou horas para ser visto realmente por alguém, tive ferimentos que necessitaram ser cozidos, que só o foram após 4 horas!!!

  • A fractura nos dedos só foi vista e ligada 8 horas após o acidente!!!

  • Num período breve de 2 horas não existi dentro do sistema hospitalar, estava esquecido num canto. Só após pedidos insistentes fui novamente descoberto (estava a dar futebol na televisão nesse dia, havia muita gente concentrada no jogo mas longe dos pacientes);

  • Neste período, observei vários doentes deambulando pelos corredores, sozinhos, uns com ferimentos graves, outros desorientados, mais parecia um cenário de batalha (o que faz sentido, sendo nós recordistas dos acidentes na estrada, uma espécie de guerra civil nas estradas de Portugal);

  • Quando finalmente fui visto por um ortopedista, este apenas me ligou a mão, dizendo não querer assumir nenhum tipo de responsabilidade sobre a minha situação, essa teria que ser assumida pelos técnicos de um hospital da minha região;

  • Fui então transferido às 2 da manhã (9 horas depois do acidente) para outro hospital, numa ambulância que partilhei com outro passageiro. Este teria que ficar primeiro no Hospital Magalhães Lemos, por onde passámos para o deixar. E a aventura não termina aqui;

  • Chegados a este hospital, mesmo à porta, a ambulância faz meia-volta e regressa. Explicou o motorista que alguém se teria esquecido dos documentos clínicos relativos aos passageiros e por isso tivemos que regressar ao Hospital de São João. Novo regresso ao Hospital Magalhães Lemos, onde ficou o primeiro passageiro, e só às 3 da manhã chegámos ao Hospital Santos Silva. A esta altura pensei estar num qualquer argumento do realizador Quentin Tarantino, pelo burlesco da situação;

  • Por falta de definição das radiografias enviadas por computador do anterior hospital, tive que repetir uma série de novas (quanto custará cada uma?), temo também pela minha saúde pelas dezenas de raios X aos quais fui submetido;

  • Também neste hospital a situação não melhorou muito. Colocado numa maca, foi-me dito pelo médico que só pela manhã teria uma equipa disponível para tomar decisões em relação à minha situação, teria que dormir num corredor, por falta de acomodação e assim foi, mesmo debaixo de uma das várias luzes que compõem a iluminação dos corredores, até às 10 horas do dia seguinte, quando finalmente me descobriram. Claro que não consegui dormir.

Aproveitei então o tempo disponível para tentar fazer uma ascensão do ‘inferno’ até um patamar mais tranquilo, mais espiritual, onde pude rever o ‘filme’ das últimas horas, tentando retirar apenas os momentos positivos. E são estes, apesar de tudo, que me tem ajudado a ultrapassar toda esta situação:

  • Ao longo de todo o processo encontrei diversas pessoas de uma amabilidade fantástica, com gestos e atenções que, por muito pequenos que sejam, para quem está a viver uma situação destas, se tornam grandes e fundamentais;

  • Tanto a técnica do INEM que me assistiu no local, como toda a equipa de bombeiros, foram impecáveis, chegando a fazer-me sorrir;

  • Os meus alunos, que assistiram ao acidente, foram fantásticos apoiando-me com palavras de conforto nos primeiros momentos, inesgotáveis nos esforços para me fazer sentir melhor. Não esquecerei;

  • Toda a família e amigos, assim que tomaram conta da ocorrência, como todas as famílias e amigos, preocupados e diligentes. A família e os amigos são um bem que se valoriza brutalmente nestas situações;

  • Observei diversos voluntários nos hospitais que ali estão apenas com o objectivo de ajudar (que enorme experiência de humildade será ser voluntário num serviço de emergências), e os cuidados e atenção que vão prestando aos doentes, que são tão importantes…;

  • Mais uma vez, os bombeiros que me transportaram de um hospital para o outro, às tantas da manhã, foram excepcionais no trato, nas palavras, no cuidado, estas pessoas mereciam ser homenageadas pois imagino que este será o seu comportamento habitual nestas situações;

  • E a enfermeira que traz um cobertor, por que está muito frio no corredor, e que me aconchega e transmite força, também não posso esquecer;

  • E por fim, percebo também que um hospital é um cenário de trabalho muito difícil, onde quem lá tem que estar todos os dias tem necessariamente que desenvolver técnicas de sobrevivência, tornando por isso muitas vezes a relação técnico/doente numa relação fria, quase desprovida de emoções.

O balanço de toda esta experiência leva-me a concluir que o sistema hospitalar é miserável, funciona mal, é desumano. Mas muitas das pessoas que gravitam à volta deste sistema ou que dele fazem parte são heróis anónimos, e foram eles que me ajudaram a ultrapassar toda esta experiência sem nunca perder a calma, foi a humildade deles que me inspirou e ajudou a ultrapassar a dor. Além disso, a famosa frase da canção dos Monty Python ‘Always look on the bright side of life’ esteve sempre presente, não vá o diabo tecê-las…

Regressarei às plantas e a este sítio mal possa, agora tenho algumas mazelas para recuperar. Até breve.

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CONVERSATION

8 comentários:

Anónimo disse...

Puxa... que odisseia. Ainda bem que conseguiu partilhar com os visitantes do Blog esta sua experiência e um modo tão (sobre)humano de a transformar numa coisa mais positiva. Uma lição, sim senhor.
Melhoras e obrigada
Leonor Moreira

Anónimo disse...

Olá Luís!


Depois de mais uma visita ao IPO, aí no Porto, (Hospital 5*****, ao contrário dos que percorreste ao longo desse aziago dia)desloquei-me ao teu cantinho, na esperança de poder falar ctigo. Em conversa com o teu pai, que me atende sempre com uma enorme delicadeza, ele contou-me o que te tinha acontecido e pelo odisseia recambulesca por que tinhas passado.
Desejo que te recomponhas o mais breve possível, pois por experiência própria, sei bem o tédio que é ficar em casa, longe daquilo que mais gostamos.
Um abraço

Alex Silva (o chato dos teixos da serra da Estrela

Hugo disse...

Caro luís,

nos últimos tempos tenho sido "espectador" do seu blog e como tal gostaria de lhe desejar sinceras melhoras!

Anónimo disse...

Parabéns pela forma como encaras a experiência vivida e obrigada pela partilha de sentimentos.
Agora resta aproveitar o sol da primavera, o carinho da familia e dos amigos, enquanto o florir da natureza te distraí do menos bom.

As melhoras,
força para ti e para a família.

Filipa Norte
Caldas da Rainha

Raízes disse...

Estou quase sem palavras...

Restam-me algumas para este comentário.

Era bom que todos os que passam pelo Hospital deixassem o seu testemunho também.
É incrivel como hoje os animais domésticos são melhor tratados e têm melhores "hospitais" que nós cada vez menos humanos. Por isso Luís.

Não somos tratados como animais, mas sim como Coisas, objectos...mas cá estamos na esperança de poder contribuir para que o futuro possa ser diferente.

Alegro-me pelos pontos positivos que encontras.

Anónimo disse...

Bébé,

EStimo as tuas melhoras e espero que te recomponhas BEM e rápido para podermos beber um Porto festejando a vida ...

Um abraço

RF

José Miguel Gomes disse...

Bolas Luís... Admiro a capacidade para tantas ilações num momento difícil.

As melhoras!

Fique bem,
Miguel

nm disse...

olá Luís,

é o país que temos... desejo-te rápidas melhoras. Força!!!

Nadine