A cadeia alimentar intelectual (invertida)
Nem todos os conselhos sobre plantas merecem ser seguidos apenas porque são proferidos com segurança, repetidos muitas vezes ou embalados numa estética sedutora. Em agricultura e em jardinagem, a convicção no discurso não substitui o conhecimento, e a popularidade não é sinónimo de verdade. As plantas não reconhecem likes. Respondem apenas ao que lhes fazemos.
Vivemos um tempo em que qualquer pessoa pode falar de agricultura, plantas e jardins para uma vasta audiência, e isso tem um lado fértil e promissor. Nunca houve tanta curiosidade pelos solos, pelas sementes, pela biodiversidade e pelos ciclos naturais. Multiplicaram-se as vontades de aprender a cuidar, de produzir melhor, de compreender o que cresce à nossa volta. Mas esta fertilidade informativa também pode trazer consigo consequências menos desejáveis, que começam a tornar-se visíveis no terreno.
A mesma rede que aproxima saberes mistura, sem aviso, décadas de investigação com intuições apressadas, experiências isoladas e erros repetidos com entusiasmo contagiante. No mesmo feed convivem um ensaio científico rigoroso e um vídeo que promete resolver pragas, doenças e desequilíbrios ecológicos com uma receita caseira, sem dose, sem contexto e sem responsabilidade.
A desinformação não nasce necessariamente da má-fé. Muitas vezes nasce do excesso de simplificação. A agricultura é lenta e situada, dependente do clima, do solo, do contexto, da espécie, da variedade, do momento fenológico, da escala e do objetivo. A falsa promessa agrícola, pelo contrário, é rápida e portátil. Apresenta-se como universal, aplicável em qualquer lugar e a qualquer planta. É essa aparente facilidade que a torna tão atraente e tão facilmente replicável.
Estudos consistentes mostram que conteúdos falsos ou enganosamente simplificados tendem a circular mais depressa e a alcançar mais pessoas do que conteúdos cientificamente rigorosos, não por serem mais úteis, mas por exigirem menos esforço cognitivo e por estimularem reações imediatas. A ciência pede tempo, contexto e atenção. A desinformação pede apenas um gesto.
Quando este fenómeno entra no domínio das plantas e da agricultura, os danos deixam de ser abstratos. Um mau conselho não é apenas uma ideia errada. Traduz-se numa folha queimada, num solo degradado, numa colheita perdida, num agricultor que investiu mal, num jardineiro frustrado, num consumidor enganado.
Um vídeo viral a recomendar vinagre, borras de café ou misturas milagrosas pode comprometer a vida do solo durante anos. Um carrossel alarmista pode levar ao abandono de práticas adequadas por medo ou culpa. A agricultura não permite editar o passado. O erro fica inscrito no ecossistema.
Persiste também a fantasia da solução total. A planta que cura tudo, o preparado que resolve todas as pragas, o método único que ignora contexto, diversidade e limite. Esta narrativa é antiga, mas ganhou nova força na economia da atenção.
Circula em linguagem emocional, promete controlo absoluto e apaga a dúvida, esse elemento essencial do pensamento científico.
No campo das plantas medicinais e do bem-estar, esta simplificação torna-se particularmente perigosa, ao apagar doses, interações, toxicidades e contraindicações, substituindo conhecimento validado por testemunhos sedutores.
Os temas mais complexos e politizados não escapam a este processo. Pesticidas, fertilização, melhoramento genético, conservação da natureza. Questões que exigiriam debate informado acabam reduzidas a rótulos, trincheiras e certezas instantâneas.
A ciência, que é por natureza crítica e provisória, surge então ora como dogma intocável, ora como conspiração conveniente. Perde-se a nuance, perde-se o método, perde-se a capacidade de distinguir discordância legítima de erro factual.
O problema, portanto, não é falar de plantas. Falar de plantas é necessário e desejável. O problema reside no estatuto automático atribuído ao que é dito. No espaço digital, todas as afirmações tendem a ser tratadas como equivalentes, como se uma observação isolada tivesse o mesmo peso que anos de investigação replicada, como se a experiência pessoal fosse sinónimo de recomendação geral.
E quando alguém tenta corrigir, fá-lo muitas vezes tarde demais, com pouco alcance, ou num tom que, em vez de abrir espaço à compreensão, acaba por gerar resistência.
Há, felizmente, quem esteja a estudar este fenómeno com seriedade, analisando a desinformação nos sistemas agroalimentares e procurando compreendê-la para além do pânico e da censura. Estes trabalhos mostram que o problema não reside apenas na frase falsa, mas no ecossistema que a torna atraente, na arquitetura das plataformas, na lógica económica da atenção, na erosão da confiança e na dificuldade crescente em aceitar a complexidade.
No fim, a pergunta que importa é simples e profundamente ética. Quando partilha um conselho sobre plantas, está a partilhar beleza ou está a gerar consequência?
Porque na agricultura a consequência não é uma abstração. É uma planta que não cresce, um solo que empobrece, água que se contamina, um polinizador que desaparece, uma pessoa que perde rendimento, tempo ou saúde.
Não precisamos de menos vozes. Precisamos de mais rigor. Precisamos de agricultores e jardineiros capazes de dizer não sei. De professores e técnicos dispostos a explicar sem simplificar ao ponto de sacrificar o rigor em nome da facilidade.
De botânicos e investigadores presentes no espaço público com paciência, clareza e humildade. Precisamos de separar experiência pessoal de recomendação universal, inspiração de prescrição, opinião de evidência.
A relação com as plantas exige tempo, atenção e respeito. Não se constrói com slogans nem com atalhos. Constrói-se com leitura, observação, erro assumido e aprendizagem contínua. E depois, só depois, regressa-se à terra com menos pressa de ensinar e mais vontade de compreender.
Vivemos um tempo em que qualquer pessoa pode falar de agricultura, plantas e jardins para uma vasta audiência, e isso tem um lado fértil e promissor. Nunca houve tanta curiosidade pelos solos, pelas sementes, pela biodiversidade e pelos ciclos naturais. Multiplicaram-se as vontades de aprender a cuidar, de produzir melhor, de compreender o que cresce à nossa volta. Mas esta fertilidade informativa também pode trazer consigo consequências menos desejáveis, que começam a tornar-se visíveis no terreno.
A mesma rede que aproxima saberes mistura, sem aviso, décadas de investigação com intuições apressadas, experiências isoladas e erros repetidos com entusiasmo contagiante. No mesmo feed convivem um ensaio científico rigoroso e um vídeo que promete resolver pragas, doenças e desequilíbrios ecológicos com uma receita caseira, sem dose, sem contexto e sem responsabilidade.
A desinformação não nasce necessariamente da má-fé. Muitas vezes nasce do excesso de simplificação. A agricultura é lenta e situada, dependente do clima, do solo, do contexto, da espécie, da variedade, do momento fenológico, da escala e do objetivo. A falsa promessa agrícola, pelo contrário, é rápida e portátil. Apresenta-se como universal, aplicável em qualquer lugar e a qualquer planta. É essa aparente facilidade que a torna tão atraente e tão facilmente replicável.
Estudos consistentes mostram que conteúdos falsos ou enganosamente simplificados tendem a circular mais depressa e a alcançar mais pessoas do que conteúdos cientificamente rigorosos, não por serem mais úteis, mas por exigirem menos esforço cognitivo e por estimularem reações imediatas. A ciência pede tempo, contexto e atenção. A desinformação pede apenas um gesto.
Quando este fenómeno entra no domínio das plantas e da agricultura, os danos deixam de ser abstratos. Um mau conselho não é apenas uma ideia errada. Traduz-se numa folha queimada, num solo degradado, numa colheita perdida, num agricultor que investiu mal, num jardineiro frustrado, num consumidor enganado.
Um vídeo viral a recomendar vinagre, borras de café ou misturas milagrosas pode comprometer a vida do solo durante anos. Um carrossel alarmista pode levar ao abandono de práticas adequadas por medo ou culpa. A agricultura não permite editar o passado. O erro fica inscrito no ecossistema.
Persiste também a fantasia da solução total. A planta que cura tudo, o preparado que resolve todas as pragas, o método único que ignora contexto, diversidade e limite. Esta narrativa é antiga, mas ganhou nova força na economia da atenção.
Circula em linguagem emocional, promete controlo absoluto e apaga a dúvida, esse elemento essencial do pensamento científico.
No campo das plantas medicinais e do bem-estar, esta simplificação torna-se particularmente perigosa, ao apagar doses, interações, toxicidades e contraindicações, substituindo conhecimento validado por testemunhos sedutores.
Os temas mais complexos e politizados não escapam a este processo. Pesticidas, fertilização, melhoramento genético, conservação da natureza. Questões que exigiriam debate informado acabam reduzidas a rótulos, trincheiras e certezas instantâneas.
A ciência, que é por natureza crítica e provisória, surge então ora como dogma intocável, ora como conspiração conveniente. Perde-se a nuance, perde-se o método, perde-se a capacidade de distinguir discordância legítima de erro factual.
O problema, portanto, não é falar de plantas. Falar de plantas é necessário e desejável. O problema reside no estatuto automático atribuído ao que é dito. No espaço digital, todas as afirmações tendem a ser tratadas como equivalentes, como se uma observação isolada tivesse o mesmo peso que anos de investigação replicada, como se a experiência pessoal fosse sinónimo de recomendação geral.
E quando alguém tenta corrigir, fá-lo muitas vezes tarde demais, com pouco alcance, ou num tom que, em vez de abrir espaço à compreensão, acaba por gerar resistência.
Há, felizmente, quem esteja a estudar este fenómeno com seriedade, analisando a desinformação nos sistemas agroalimentares e procurando compreendê-la para além do pânico e da censura. Estes trabalhos mostram que o problema não reside apenas na frase falsa, mas no ecossistema que a torna atraente, na arquitetura das plataformas, na lógica económica da atenção, na erosão da confiança e na dificuldade crescente em aceitar a complexidade.
No fim, a pergunta que importa é simples e profundamente ética. Quando partilha um conselho sobre plantas, está a partilhar beleza ou está a gerar consequência?
Porque na agricultura a consequência não é uma abstração. É uma planta que não cresce, um solo que empobrece, água que se contamina, um polinizador que desaparece, uma pessoa que perde rendimento, tempo ou saúde.
Não precisamos de menos vozes. Precisamos de mais rigor. Precisamos de agricultores e jardineiros capazes de dizer não sei. De professores e técnicos dispostos a explicar sem simplificar ao ponto de sacrificar o rigor em nome da facilidade.
De botânicos e investigadores presentes no espaço público com paciência, clareza e humildade. Precisamos de separar experiência pessoal de recomendação universal, inspiração de prescrição, opinião de evidência.
A relação com as plantas exige tempo, atenção e respeito. Não se constrói com slogans nem com atalhos. Constrói-se com leitura, observação, erro assumido e aprendizagem contínua. E depois, só depois, regressa-se à terra com menos pressa de ensinar e mais vontade de compreender.
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