A importância dos nomes científicos na relação com as plantas

Quando se dizem ou escrevem os nomes científicos das plantas, não se procura soar erudito nem erguer uma fronteira entre quem sabe e quem está a aprender. A intenção original é, precisamente, a contrária.

Há séculos que existe um esforço contínuo para garantir que cada planta tenha um nome único, estável e reconhecível em qualquer parte do mundo, independentemente da língua falada ou do contexto cultural de quem o utiliza.

O latim funciona como uma convenção partilhada, uma ponte entre línguas e culturas, e não como um exercício de estilo académico. Trata-se de um instrumento comum, construído para permitir entendimento global.

Essa necessidade torna-se particularmente evidente quando se observam os nomes comuns das plantas. Eles são belíssimos, vivos, profundamente enraizados na cultura e na história dos lugares, mas são também múltiplos e, muitas vezes, ambíguos.

A mesma espécie pode ter dezenas de nomes vulgares, e o mesmo nome vulgar pode designar plantas diferentes consoante a região. Essa diversidade é de enorme valor cultural e etnobotânico, mas constitui um obstáculo real quando se procura comunicar com rigor e precisão.

A nomenclatura científica surge precisamente como resposta a essa limitação. Ao assegurar um nome único, estável e universalmente aceite para cada espécie, facilita a aprendizagem e torna a partilha de conhecimento mais clara e fiável, seja num jardim, numa aula, num viveiro, num relatório técnico ou numa conversa de campo.

Apesar disso, muitas pessoas optam por manter os nomes científicos à margem do seu contacto com as plantas. Não por rejeição da botânica, nem por incapacidade de aprender, mas porque os nomes vulgares são mais familiares. São a linguagem do quotidiano, da tradição e da memória afetiva, enquanto os nomes científicos surgem, à primeira vista, como estranhos e distantes.

Há também quem evite o uso dos nomes científicos das plantas pelo receio de os pronunciar incorretamente ou pela crença de que existe apenas uma forma correta de os dizer.

Essa crença não encontra suporte nos códigos oficiais de nomenclatura. O Código Internacional de Nomenclatura para Algas, Fungos e Plantas (na sua versão mais recente, o Código de Madrid), regula a escrita, a ortografia, a prioridade e a estabilidade dos nomes científicos, mas não impõe nem normaliza a sua pronúncia.

O chamado latim botânico não é latim clássico nem foi concebido como uma língua viva. Trata-se de um sistema funcional de nomenclatura, baseado na tradição latina, destinado a identificar organismos de forma inequívoca, independentemente da forma como os seus nomes são pronunciados.

Muitos dos seus termos têm origem no grego antigo, outros resultam da latinização de palavras de línguas modernas, de nomes de pessoas, de lugares ou de expressões vernaculares. O propósito dessa diversidade não é fonético, mas informativo. O objetivo é incorporar significado, contexto histórico, morfológico ou geográfico sobre a planta, e não impor uma determinada forma de a pronunciar.

Por essa razão, a pronúncia dos nomes científicos varia naturalmente conforme a língua materna e a tradição cultural de quem os utiliza. Um botânico português, um botânico alemão ou um botânico japonês poderão pronunciar Quercus robur de forma diferente e, ainda assim, estarão todos a identificar exatamente a mesma espécie.

Isso não constitui uma falha do sistema, mas uma consequência direta da sua função enquanto linguagem de referência mundial, concebida para ser escrita, estável e partilhável, independentemente da diversidade linguística de quem a utiliza.

Quando alguém corrige a pronúncia de um nome científico como forma de afirmação de autoridade, esse gesto pouco ou nada tem a ver com rigor científico. Para a botânica, o que importa não é a correção fonética, mas a capacidade de comunicar de forma inequívoca sobre organismos biológicos, algo que o sistema de nomenclatura garante através da escrita.

Se um nome científico é pronunciado de forma diferente, mas é inequívoco a que planta se refere, então o essencial está cumprido. A comunicação ocorreu, e esse é, em última análise, o propósito fundamental da nomenclatura científica. Ela existe para unir, para clarificar e para permitir entendimento mútuo à escala global, nunca para intimidar ou excluir com base na forma como um nome é pronunciado.

A minha experiência enquanto formador, construída ao longo de anos de partilha com milhares de pessoas de percursos muito diferentes, mostra que o momento em que alguém passa a interessar-se pelos nomes científicos das plantas marca uma mudança clara e duradoura na sua relação com elas.

Não se trata apenas de memorizar palavras novas, mas de adquirir uma ferramenta conceptual que transforma a forma de observar, de procurar informação e de agir.

Quando os nomes científicos passam a integrar o quotidiano, as pesquisas tornam-se mais eficazes, as escolhas mais acertadas e os erros mais raros. Identificam-se com maior precisão as espécies e variedades corretas, aumenta-se a probabilidade de sucesso na germinação e no cultivo, aprofunda-se a capacidade de leitura crítica e cresce o interesse por bibliografia mais exigente e especializada.

Ao mesmo tempo, reduz-se significativamente o risco de introdução inadvertida de espécies potencialmente invasoras e aumenta-se a consciência sobre a origem, o comportamento ecológico e o impacto das plantas com que se trabalha. O conhecimento deixa de ser disperso e passa a ser mais estruturado, comparável e cumulativo.

Quem passa a usar os nomes científicos observa com maior atenção, questiona mais, aprende de forma mais rápida e profunda. A relação torna-se mais consciente, mais responsável e, sobretudo, mais fértil, não apenas em resultados práticos, mas também em curiosidade, respeito e autonomia.

Partilho um episódio pessoal que ilustra de forma particularmente clara a dimensão universal da nomenclatura científica. Em julho de 2001, durante o World Congress of Medicinal and Aromatic Plants, em Budapeste, era um dos poucos portugueses presentes entre centenas de participantes oriundos de todo o mundo.

Nesse contexto surgiu uma amizade improvável com dois agrónomos do Butão. Tinham acabado de sair do seu país pela primeira vez, falavam muito pouco inglês e tudo à sua volta lhes parecia novo, desde o ruído constante da cidade até ao simples ato de andar de elétrico.

A comunicação verbal era limitada. Ainda assim, conversamos durante horas. A língua comum não foi o inglês. Foram os nomes científicos das plantas. Foi através deles que se partilharam ideias, experiências, preocupações e visões sobre agricultura, sustentabilidade e futuro.

Nessas conversas surgiu o relato de um projeto ambicioso. O rei do Butão pretendia expandir a agricultura, já então a principal atividade económica do país, orientando-a para modelos sustentáveis. No final do congresso, a despedida foi emotiva e acompanhada de um convite inesperado para colaborar nesses novos projetos.

Para meu grande espanto, meses mais tarde, o convite chegou formalizado, numa carta em nome de Sua Majestade o Rei do Butão. A decisão de não o aceitar permanece, ainda hoje, como uma daquelas escolhas de vida que lamento não ter ponderado com maior profundidade.

Esta história revela algo essencial. Saber os nomes científicos das plantas não é um exercício académico estéril. É uma verdadeira chave de comunicação global. Essa linguagem comum permite que pessoas de culturas, línguas e contextos completamente diferentes se entendam, colaborem e desenvolvam projetos comuns.

Em casos raros e extraordinários, pode mesmo abrir portas inesperadas para trabalhar em prol de um povo distante!

A nomenclatura científica oferece não apenas rigor, mas possibilidade. Não apenas precisão, mas encontro. Uma linguagem comum que liga jardins, campos, universidades e países inteiros, tendo as plantas como ponto de contacto e de diálogo. Sempre em itálico!
 

 
 
 

 

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