Tempestades, árvores e cidades

A discussão sobre a escolha das espécies de árvores a plantar em espaço urbano, sobre as condições técnicas e paisagísticas da sua instalação, a sua origem, a quantidade e a distribuição desejável da cobertura arbórea nas cidades, a forma de tutoragem, a relação com os edifícios, as práticas de poda, a manutenção do estado fitossanitário e a avaliação do risco, antecede largamente a entrada das alterações climáticas no vocabulário corrente e no debate público. 

Entre 1997 e 2003, período em que exerci funções como encarregado geral do Parque de Serralves, já se discutiam de forma intensa questões centrais como a resistência das árvores à poluição atmosférica, a sua resposta a contextos urbanos exigentes, a seleção de espécies de menor manutenção e a valorização de espécies autóctones enquanto opção técnica fundamentada.

Mesmo a pergunta aparentemente simples sobre quanto vale uma árvore em meio urbano já se colocava nessa altura, recorrendo às primeiras fórmulas de avaliação então disponíveis.


Foi nesse contexto que participei em diversos congressos e encontros académicos e profissionais, onde se procuravam pontos de convergência técnicos e científicos sobre estas matérias. Falava-se da importância do solo e da sua qualidade, dos volumes mínimos necessários ao desenvolvimento das raízes, da diversidade como fator de estabilidade, da adaptação ao clima e da necessidade de um planeamento pensado à escala de décadas e não de mandatos.

Falava-se, sobretudo, da necessidade de reconhecer as árvores urbanas como organismos vivos, com ciclos próprios e exigências específicas, e não como meros elementos decorativos ao serviço do desenho urbano. Passaram mais de 20 anos. Em termos estruturais, pouco se alterou nas cidades portuguesas.

Hoje, as árvores são cada vez mais encaradas como um incómodo. São associadas a alergias, a sujidade nos passeios e nos carros, às folhas no outono e às flores na primavera, às raízes que interferem com infraestruturas mal dimensionadas. Quando caem em dias de tempestade, passam rapidamente de património urbano a ameaça percebida, independentemente das causas estruturais subjacentes.

Esquece-se com facilidade o papel determinante das árvores na redução da temperatura, na melhoria da qualidade do ar, na atenuação do ruído, na regulação da água da chuva, no acolhimento da biodiversidade e na construção de condições de vida suportáveis em cidades cada vez mais quentes e densas.

A Organização Mundial da Saúde tem vindo a demonstrar de forma consistente, em contexto europeu, que a presença de árvores em meio urbano está associada à redução da mortalidade durante ondas de calor e à melhoria da saúde física e mental das populações, com impacto particularmente relevante nos grupos mais vulneráveis.

Basta olhar para a forma como se edificam novos prédios para compreender a fragilidade do modelo urbano dominante. Construções cada vez mais densas, lotes progressivamente impermeabilizados, espaços verdes reduzidos a áreas residuais, quando chegam a existir. Cidades que crescem em altura e em extensão, sem um planeamento consistente da sua infraestrutura verde.

A Agência Europeia do Ambiente tem vindo a alertar de forma reiterada para o facto de a impermeabilização crescente dos solos urbanos aumentar significativamente o risco associado a eventos extremos, como precipitação intensa e tempestades de vento, agravando os impactos sobre as árvores, os edifícios e as próprias populações.

Apesar de muitos municípios portugueses terem evoluído nas práticas de poda, o erro estrutural persiste. Continuam a plantar-se árvores em covas de um metro por um metro, isoladas entre si, sem continuidade de solo, sem uma estratégia de tutoragem adequada, sem fertilização de instalação, sem acompanhamento nos primeiros anos, sem espaço para a infiltração da água da chuva e sem margem para o desenvolvimento natural do sistema radicular.

As boas práticas internacionais em arboricultura urbana são claras e consistentes ao identificar o volume e a qualidade do solo como fatores determinantes para a estabilidade das árvores e para a sua capacidade de resistir ao vento.

Depois vêm as tempestades. O solo satura rapidamente. As raízes, confinadas e frequentemente deformadas, perdem capacidade de ancoragem. Copas alteradas por podas sucessivas, frequentemente assimétricas e com inserções estruturais fragilizadas, oferecem maior resistência ao vento. E as árvores acabam por cair.

Os episódios extremos tendem a tornar-se mais frequentes, como evidenciam os relatórios do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas e as análises regionais para a Europa. Na maioria dos casos, cada árvore que cai não resulta de um acaso nem de um excesso da natureza. É um erro do passado que se torna visível, uma decisão mal tomada, um compromisso assumido contra o tempo longo das árvores. 

Perante estes acontecimentos, não podemos aceitar leituras superficiais que marginalizam as árvores e as transformam em bode expiatório. A redução da arborização urbana não diminui o risco global. Pelo contrário, amplifica-o.

Menos árvores significam mais calor, maior degradação da qualidade do ar, aumento da escorrência superficial, maior pressão sobre os sistemas de drenagem e uma vulnerabilidade social mais acentuada. 

Estudos europeus têm demonstrado que cidades com maior cobertura arbórea, planeada com critério técnico e diversidade, apresentam maior capacidade de adaptação a eventos climáticos extremos e uma recuperação mais eficaz após tempestades. 

O que precisa de mudar é conhecido e discutido há décadas. Mais solo disponível e funcional, capaz de sustentar árvores ao longo do tempo. Mais diversidade de espécies, evitando dependências excessivas de um número reduzido de árvores. Planeamento a longo prazo, assente em monitorização contínua do estado estrutural e fitossanitário. Uma integração efetiva da arborização com a gestão da água da chuva.

Respeito pelo porte adulto das árvores e pelo seu tempo de crescimento. Menos decisões defensivas orientadas pelo medo e mais decisões informadas pelo conhecimento acumulado e pela experiência técnica.

As tempestades recentes em Portugal não constituem um argumento contra as árvores nas cidades. Constituem um aviso inequívoco de que persistimos num modelo urbano que não soube aprender com o que já conhece. Se queremos continuar a habitar as cidades num clima que já mudou e continuará a mudar, precisamos de plantar mais árvores.
 
Precisamos sobretudo de plantar melhor. Não por romantismo, nem por estética, mas porque a evidência acumulada demonstra que, sem árvores resilientes, bem integradas e respeitadas, o futuro urbano torna-se progressivamente mais difícil de sustentar.
 

 

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