O Anticiclone e o Paraíso

Amo os Açores. Quando fantasio com o paraíso, invariavelmente imagino-me numa das nove ilhas, que a vida se encarregou de me fazer descobrir e apaixonar, uma a uma, devagar, em terra, pelos algares e túneis lávicos, descendo ao seu coração de pedra pomes, e também debaixo de água, em sucessivos mergulhos, no tempo em que fazia caça submarina e o mar era o meu território.

Quis a vida que o meu caminho se cruzasse com uma faialense que amo, e que me deu um filho que traz no nome e no sangue os genes Dutra da Horta. Algures entre o Pico e o Faial vivemos, em 2025, o melhor dia da vida do jovem Francisco, que aos 7 anos avistou, a escassos metros, alguns dos maiores animais do planeta e disse, com a certeza das crianças, “o melhor dia da minha vida”.

O mais precioso que o arquipélago me trouxe foi a Maria, o Francisco e a minha querida soglinha. Mas há forças que nascem nestas ilhas e que vão muito além da intimidade de uma família. Nunca tive dúvidas de que este pedaço maravilhoso de Portugal sustenta, sobre o continente, um guardião atmosférico e decisivo, o anticiclone dos Açores.

Na linguagem da ciência, ele é o grande centro subtropical de altas pressões do Atlântico Norte, um dos principais centros de ação da circulação atmosférica nesta bacia oceânica, uma presença semipermanente que se revela nas cartas de isóbaras, os mapas que começaram a organizar o caos do tempo no século XIX, quando Francis Galton ajudou a consolidar o termo anticiclone e a tornar legíveis os grandes padrões da atmosfera.

Não é uma entidade imóvel, nem um escudo perfeito, mas uma respiração atmosférica que se desloca e oscila, mudando de latitude e de intensidade ao longo das estações, e assim moldando a rota das depressões atlânticas e a forma como a dinâmica do oceano e da atmosfera chega até nós.

Para Portugal continental, o anticiclone dos Açores é quase uma espécie de promessa. Está para o nosso território como Nossa Senhora de Fátima, uma figura tutelar a quem se atribui proteção nos momentos de aflição, porque a sua posição e intensidade modulam a circulação do Atlântico Norte e condicionam a frequência e a rota das tempestades que atingem a Península Ibérica.

É um abrigo frequente, uma engenharia da Terra que, em muitas ocasiões, favorece a estabilidade atmosférica sobre o território, abrindo espaço a verões de luz e a invernos menos severos, traduzindo-se em dias mais estáveis, céus mais abertos e numa espécie de bonança prolongada que marca o ritmo das estações. Um milagre meteorológico, uma arquitetura atmosférica que tantas vezes nos afasta da rota mais direta das tempestades nascidas no Atlântico.

Nas últimas semanas, o seu centro estabeleceu-se numa posição mais meridional do que a média climatológica, favorecendo a passagem sucessiva de depressões atlânticas em direção à Península Ibérica, como se o Atlântico, por instantes, tivesse encontrado um corredor aberto.

Episódios como este lembram-nos a variabilidade natural da circulação do Atlântico Norte, mas também dialogam com um contexto mais amplo de mudanças observadas no sistema climático, cuja evolução futura dependerá das escolhas coletivas que formos capazes de fazer. Nas próximas horas, poderá reforçar a sua influência e deslocar-se para latitudes mais altas, e com esta subida poderá abrir-se, enfim, um caminho de bonança.

Talvez seja esta a lição mais bonita do anticiclone dos Açores, que também se parece com a vida. Há momentos em que o céu se abre e a tempestade passa, outros em que a pressão desce e somos obrigados a lembrar-nos da nossa fragilidade.

As ilhas deram-me a Maria, o Francisco e a família que ganhei no meio do Atlântico, mas deram-me também a consciência de que, muito acima das nossas vidas, há forças que moldam o destino de todos. Este guardião permanente recorda-nos que Portugal não é apenas um país à beira-mar plantado.

É um país cujo clima é, 
por enquanto, fortemente influenciado por uma delicada e complexa arquitetura do planeta. Uma arquitetura que merece ser compreendida, respeitada e, acima de tudo, cuidada, para que a bonança de hoje não seja apenas uma breve exceção no mundo de amanhã.
 

 

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