A planta dos monges, das senhoras e dos cavalheiros impressionáveis
A árvore-da-castidade (Vitex agnus-castus) é uma das plantas medicinais mais bonitas para cultivar em hortas, jardins e coleções botânicas. Também chamada agno-casto, agno-puro e pimenta-dos-monges, traz no nome, no aroma e nos frutos uma daquelas histórias em que a botânica, a farmácia, a moral, o desejo e o humor se sentam todos à mesma mesa.
É um arbusto caducifólio de matriz mediterrânica. A classificação atual coloca a espécie na família Lamiaceae. Muitos dos meus livros ainda a apresentam na família Verbenaceae, sinal do caminho que a sistemática botânica foi fazendo à medida que novas leituras morfológicas e moleculares foram reorganizando parentescos que pareciam arrumados.
Em jardim, pode ultrapassar facilmente os 2 metros de altura e, em condições muito favoráveis, ganhar porte de grande arbusto ou pequena árvore. Há registos notáveis de exemplares muito desenvolvidos, com vários troncos desde a base, capazes de mostrar que esta espécie tem mais fôlego do que a discrição com que costuma surgir descrita em muitos manuais de botânica e jardinagem.
Quem a vê pela primeira vez fica muitas vezes surpreendido com a semelhança visual das suas folhas com as do cânhamo (Cannabis sativa). À primeira vista, a ilusão é quase inevitável. A semelhança, porém, termina no desenho da folha. A árvore-da-castidade pertence a outro mundo botânico, a outra linhagem, a outro temperamento vegetal.
Ainda assim, confesso que esta parecença sempre me deu jeito nas visitas guiadas. Bastava alguém olhar para as folhas, arregalar ligeiramente os olhos e sorrir de lado para eu perceber que a conversa já estava lançada e que a planta tinha começado a trabalhar por mim.
Na altura da floração, a partir de junho, ergue inflorescências terminais densas, alongadas, com pequenas flores azuladas, lilases ou violáceas, por vezes rosadas ou brancas. Vistas de perto, são flores delicadas, bilabiadas, muito atrativas para insetos polinizadores. Vistas de longe, parecem pequenas labaredas violetas a subir dos ramos no calor do verão.
As formas de flor branca têm uma história própria. Em algumas tradições do sul da Europa, eram vistas como símbolo de virtude. A imagem é quase perfeita para uma planta com este nome. Quando floresce em azul ou violeta, celebra o verão com exuberância. Quando floresce em branco, parece vestir a túnica moral que a história lhe foi costurando.
No seu estado espontâneo, gosta de margens de ribeiros, linhas de água, fundos de vale, leitos temporários e barrancos mediterrânicos de caudal intermitente, onde a água pode desaparecer da superfície durante parte do ano.
É um arbusto caducifólio de matriz mediterrânica. A classificação atual coloca a espécie na família Lamiaceae. Muitos dos meus livros ainda a apresentam na família Verbenaceae, sinal do caminho que a sistemática botânica foi fazendo à medida que novas leituras morfológicas e moleculares foram reorganizando parentescos que pareciam arrumados.
Em jardim, pode ultrapassar facilmente os 2 metros de altura e, em condições muito favoráveis, ganhar porte de grande arbusto ou pequena árvore. Há registos notáveis de exemplares muito desenvolvidos, com vários troncos desde a base, capazes de mostrar que esta espécie tem mais fôlego do que a discrição com que costuma surgir descrita em muitos manuais de botânica e jardinagem.
Quem a vê pela primeira vez fica muitas vezes surpreendido com a semelhança visual das suas folhas com as do cânhamo (Cannabis sativa). À primeira vista, a ilusão é quase inevitável. A semelhança, porém, termina no desenho da folha. A árvore-da-castidade pertence a outro mundo botânico, a outra linhagem, a outro temperamento vegetal.
Ainda assim, confesso que esta parecença sempre me deu jeito nas visitas guiadas. Bastava alguém olhar para as folhas, arregalar ligeiramente os olhos e sorrir de lado para eu perceber que a conversa já estava lançada e que a planta tinha começado a trabalhar por mim.
Na altura da floração, a partir de junho, ergue inflorescências terminais densas, alongadas, com pequenas flores azuladas, lilases ou violáceas, por vezes rosadas ou brancas. Vistas de perto, são flores delicadas, bilabiadas, muito atrativas para insetos polinizadores. Vistas de longe, parecem pequenas labaredas violetas a subir dos ramos no calor do verão.
As formas de flor branca têm uma história própria. Em algumas tradições do sul da Europa, eram vistas como símbolo de virtude. A imagem é quase perfeita para uma planta com este nome. Quando floresce em azul ou violeta, celebra o verão com exuberância. Quando floresce em branco, parece vestir a túnica moral que a história lhe foi costurando.
No seu estado espontâneo, gosta de margens de ribeiros, linhas de água, fundos de vale, leitos temporários e barrancos mediterrânicos de caudal intermitente, onde a água pode desaparecer da superfície durante parte do ano.
Nos jardins, depois de bem instalada, suporta verões exigentes, agradece sol pleno e revela grande rusticidade, desde que não seja condenada a solos encharcados.
O nome Vitex é geralmente associado ao latim viere, atar, entrelaçar ou tecer, numa referência à flexibilidade dos caules jovens, usados em cestaria, em trabalhos de vime e pequenas amarrações agrícolas.
Agnus aproxima-se do grego agnos, nome antigo da planta, associado por tradição à ideia de pureza, e castus reforça a mesma direção moral. A aproximação ao latim agnus, cordeiro, ajudou a criar a imagem curiosa do “cordeiro casto”, mas a leitura que mais interessa à história da planta é outra.
Uma espécie cujo próprio nome repete a ideia de castidade. O nome científico soa quase a repetição enfática. Casto puro. Casto duas vezes. Casto até ao exagero. A botânica também sabe fazer trocadilhos.
Os frutos são pequenas drupas escuras, quase negras, por vezes com tons avermelhados, de sabor pungente, amargo-doce e ligeiramente adstringente. Quando esmagados, libertam um cheiro acre, resinoso e apimentado, com notas de pimenta, menta e eucalipto. A parte mais relevante em fitoterapia é precisamente o fruto seco.
É destes pequenos frutos que nasce a pimenta-dos-monges. Durante séculos, a árvore-da-castidade foi cultivada em hortas monásticas e jardins conventuais com um propósito tão prático quanto moral.
Fornecer aos monges uma espécie de pimenta vegetal, aromática e austera, que temperava a comida e, segundo a crença da época, ajudava a manter os votos de castidade. Os frutos secos eram usados como condimento, não apenas pelo sabor apimentado, mas pela fama de sossegarem os apetites do corpo.
Gosto muito desta imagem. Uma despensa monástica com ervas secas, frutos aromáticos, frascos alinhados, moral bem arrumada nas prateleiras e um frasquinho de frutos secos de árvore-da-castidade pronto a salvar a disciplina comunitária quando a primavera entrasse pela janela.
Lá fora, o mundo podia florir em tentações, cá dentro, havia uma pimenta de jardim para lembrar ao corpo que os votos também se temperavam à mesa.
Do ponto de vista medicinal, a árvore-da-castidade é uma velha conhecida da farmácia mediterrânica e europeia. Os frutos maduros e secos foram usados ao longo dos séculos em temas ligados ao corpo feminino, ao ciclo menstrual, à fertilidade, à lactação, ao desejo e à sua contenção.
A farmacognosia moderna trouxe outra exigência. Hoje, a utilização mais bem sustentada está associada a preparações padronizadas dos frutos no alívio de sintomas da síndrome pré-menstrual, incluindo irritabilidade, alterações do humor, tensão mamária, cefaleias e desconforto cíclico.
Convém dizê-lo com clareza. Uma preparação padronizada dos frutos é uma coisa. Uma infusão improvisada com meia dúzia de folhas é outro campeonato. A planta merece respeito, dose, identificação correta, conhecimento da parte usada e prudência clínica.
Por atuar em processos ligados ao equilíbrio hormonal, deve ser usada com critério e, quando há dúvidas clínicas ou medicação em curso, com aconselhamento profissional. Com esta planta, o entusiasmo pelas plantas medicinais não deve passar à frente do conhecimento.
A tradição atribuiu-lhe também usos na menopausa, em perturbações nervosas, em espasmos, em dores, em alterações da lactação e em várias situações que os autores clássicos descreviam com o vocabulário médico do seu tempo.
A investigação contemporânea, a prática clínica e a segurança de utilização exigem outro cuidado, sobretudo durante a gravidez e a amamentação, em pessoas com problemas hormonais ou antecedentes oncológicos, e sempre que existam medicamentos em curso, em particular tratamentos hormonais ou medicamentos que atuem sobre o sistema nervoso.
Como tínhamos a árvore-da-castidade em vaso à venda na loja online, perdi a conta à quantidade de telefonemas que atendi com senhoras do outro lado a perguntar: “Tem Vitex?” Das primeiras vezes respondíamos que sim, tínhamos a planta em vaso, um pouco espantados por alguém em Portugal pedir uma planta pelo seu nome botânico.
Rapidamente percebemos o equívoco. Muitas destas senhoras não estavam à procura da planta viva, com folhas, raízes, vaso e vontade própria. Procuravam produtos de farmácia e suplementos alimentares vendidos com o nome Vitex, quase sempre em comprimidos, cápsulas ou gotas.
O nome botânico tinha saltado do herbário para o rótulo, do rótulo para a farmácia, da farmácia para a pesquisa na internet, e da pesquisa na internet para o telefone do viveiro.
Hoje basta procurar um pouco para encontrar uma pequena multidão de produtos comerciais com este nome ou com esta planta na composição. Quase todos gravitam em torno da mesma galáxia. O ciclo feminino, o desconforto pré-menstrual, as alterações de humor, a tensão mamária, a irregularidade menstrual e, em certas formulações comerciais, a menopausa.
Esta proliferação comercial tem graça, porque confirma o que os antigos livros de plantas medicinais já sabiam há muitos séculos. A planta nunca foi discreta na vida das mulheres.
Entre uma planta em vaso, um suplemento alimentar, um medicamento tradicional à base de plantas e uma preparação farmacêutica padronizada, há diferenças importantes.
Para mim, como Engenheiro Agrónomo, etnobotânico e investigador, esta diferença interessa muito. A planta viva ensina botânica, ecologia e cultura. O produto comercial pertence ao campo da farmacognosia, da regulação, da posologia e da segurança. São parentes, sem dúvida. Só não moram exatamente na mesma casa.
Durante décadas comercializei plantas para infusões. Há espécies de uso muito seguro, quando corretamente identificadas e preparadas. Há outras que pedem dose, indicação, acompanhamento e respeito. Algumas pertencem ao domínio do uso quotidiano.
Outras devem ser usadas seguindo posologias claras ou com orientação de naturopata, fitoterapeuta, farmacêutico ou médico. A regra é simples: planta medicinal não é sinónimo de inocência botânica, e a automedicação, sobretudo em matérias hormonais, deve ser evitada.
Durante décadas comercializei plantas para infusões. Há espécies de uso muito seguro, quando corretamente identificadas e preparadas. Há outras que pedem dose, indicação, acompanhamento e respeito. Algumas pertencem ao domínio do uso quotidiano.
Outras devem ser usadas seguindo posologias claras ou com orientação de naturopata, fitoterapeuta, farmacêutico ou médico. A regra é simples: planta medicinal não é sinónimo de inocência botânica, e a automedicação, sobretudo em matérias hormonais, deve ser evitada.
A fotografia da capa do livro Plantas Medicinais da Farmacopeia Portuguesa: Constituintes, Controlo, Farmacologia e Utilização, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, é de uma planta de árvore-da-castidade da minha coleção, que tive o prazer de ceder ao Professor Proença da Cunha, a seu pedido.
Este livro surgiu num contexto importante. A 9 edição da Farmacopeia Portuguesa, publicada em 2008, ajudou a recolocar várias plantas medicinais no universo exigente das monografias farmacêuticas.
Este livro surgiu num contexto importante. A 9 edição da Farmacopeia Portuguesa, publicada em 2008, ajudou a recolocar várias plantas medicinais no universo exigente das monografias farmacêuticas.
Aí, cada fármaco vegetal é descrito por critérios de identificação botânica, controlo de qualidade, ensaios laboratoriais e, quando aplicável, dosagem dos constituintes mais relevantes. É aqui que a memória popular ganha uma companhia mais exigente: identificação, autenticidade, qualidade e segurança.
Tenho uma ligação pessoal muito forte à árvore-da-castidade. Durante anos produzi esta espécie em viveiro, em vaso, para venda ao público. Era uma planta que me dava gosto cultivar e ainda mais gosto mostrar.
Durante as visitas à minha coleção botânica, a árvore-da-castidade era uma paragem quase obrigatória. Quando estava em flor, com aquelas espigas azuladas e violáceas, parava sempre ao seu lado como quem apresenta uma personagem. Quando estava carregada de frutos, o cenário era perfeito.
Pedia às pessoas que tirassem um fruto, que o esmagassem levemente entre os dedos e que o cheirassem. Primeiro vinha o espanto do aroma. Depois vinha a explicação botânica. Depois vinha a farmácia.
E, finalmente, vinha a parte em que deixava de ser uma visita guiada e se transformava numa pequena comédia botânica. Perdi a conta às gargalhadas que ali ficaram. Talvez as plantas também se alimentassem delas, porque as árvores-da-castidade pareciam florir com mais entusiasmo de ano para ano.
Começava quase sempre pelas chamadas virtudes das senhoras. Falava da síndrome pré-menstrual, dos frutos maduros e secos, da tradição medicinal, da entrada da planta na farmacognosia moderna. As senhoras ouviam com atenção, muitas com aquele ar de quem sabe que a botânica, quando fala do corpo, fala sempre de algo muito concreto.
Havia perguntas, sorrisos, comentários cúmplices. A árvore-da-castidade tinha essa capacidade rara de abrir conversas onde a saúde, a intimidade e o jardim se encontravam sem cerimónia.
Depois, passava para os cavalheiros. Explicava que, na tradição europeia, os frutos maduros e secos ganharam fama de anafrodisíacos, ou seja, de ajudarem a acalmar os chamados ardores da carne. Era neste ponto que a compostura botânica começava a perder folhas. Um dia, no meio de um grupo, estava um senhor que ouviu a explicação com uma atenção cada vez mais aflita.
De repente, ficou pálido como um litro de leite magro e perguntou, quase em modo de emergência nacional:
“E se cheirar, também é anafrodisíaco?”
A gargalhada foi geral. Daquelas que ficam na memória para todo o sempre.
A minha resposta, tanto quanto a gargalhada permitiu, foi tranquilizadora. Até onde chegam a botânica, a farmacognosia e o bom senso, ninguém perdeu o vigor por cheirar um fruto de árvore-da-castidade.
A humanidade enfrenta perigos maiores do que aproximar o nariz do seu fruto. Ainda assim, percebi nesse dia que o poder simbólico das plantas pode ser mais rápido do que qualquer princípio ativo.
Outras vezes eram as senhoras que levavam a conversa para territórios mais domésticos. Algumas diziam, em tom de brincadeira, que tinham de levar um vaso para oferecer ao marido, “a ver se ele me deixa em paz”.
Outras, mais dedicadas às ciências ocultas e às receitas que vivem entre a crença, a confidência e a vingança conjugal, compravam a planta para depois a recomendar às clientes que se queixavam das infidelidades dos maridos. Ou, como se diz no Porto, “daqueles que andavam a mijar fora do penico”.
Cheguei a ouvir relatos contados em tom de vitória, com uma convicção que faria tremer qualquer ensaio clínico. Havia quem jurasse que, depois da planta entrar lá em casa, o companheiro ficara duas semanas com o sistema hidráulico avariado.
Dito de forma mais nortenha e arquitetónica, “sem a sua Ponte de Leça conseguir elevar-se”. Tratei sempre estes relatos como folclore vivo, daqueles que nascem quando uma planta atravessa a fronteira entre o jardim e a vida íntima das pessoas.
E a verdade é que a árvore-da-castidade sempre viveu nessa fronteira. Em algumas tradições, os frutos frescos e ainda incompletamente desenvolvidos chegaram a ser vistos como afrodisíacos. Noutras, os frutos maduros e secos ganharam fama inversa, ligados à contenção do desejo.
Paracelso terá chamado satânica à planta, precisamente por essa intimidade incómoda com os ardores da carne. Andrés Laguna escreveu que a semente diminuía o apetite venéreo.
A minha resposta, tanto quanto a gargalhada permitiu, foi tranquilizadora. Até onde chegam a botânica, a farmacognosia e o bom senso, ninguém perdeu o vigor por cheirar um fruto de árvore-da-castidade.
A humanidade enfrenta perigos maiores do que aproximar o nariz do seu fruto. Ainda assim, percebi nesse dia que o poder simbólico das plantas pode ser mais rápido do que qualquer princípio ativo.
Outras vezes eram as senhoras que levavam a conversa para territórios mais domésticos. Algumas diziam, em tom de brincadeira, que tinham de levar um vaso para oferecer ao marido, “a ver se ele me deixa em paz”.
Outras, mais dedicadas às ciências ocultas e às receitas que vivem entre a crença, a confidência e a vingança conjugal, compravam a planta para depois a recomendar às clientes que se queixavam das infidelidades dos maridos. Ou, como se diz no Porto, “daqueles que andavam a mijar fora do penico”.
Cheguei a ouvir relatos contados em tom de vitória, com uma convicção que faria tremer qualquer ensaio clínico. Havia quem jurasse que, depois da planta entrar lá em casa, o companheiro ficara duas semanas com o sistema hidráulico avariado.
Dito de forma mais nortenha e arquitetónica, “sem a sua Ponte de Leça conseguir elevar-se”. Tratei sempre estes relatos como folclore vivo, daqueles que nascem quando uma planta atravessa a fronteira entre o jardim e a vida íntima das pessoas.
E a verdade é que a árvore-da-castidade sempre viveu nessa fronteira. Em algumas tradições, os frutos frescos e ainda incompletamente desenvolvidos chegaram a ser vistos como afrodisíacos. Noutras, os frutos maduros e secos ganharam fama inversa, ligados à contenção do desejo.
Paracelso terá chamado satânica à planta, precisamente por essa intimidade incómoda com os ardores da carne. Andrés Laguna escreveu que a semente diminuía o apetite venéreo.
Arnau de Vilanova surge associado à curiosa recomendação de usar um cabo de faca feito da sua madeira para afastar pensamentos voluptuosos. Imagino o objeto numa cozinha medieval, muito sério, muito moralizador, pronto a cortar legumes e tentações com a mesma eficácia.
A tradição clássica vai ainda mais longe. Nas festas femininas dedicadas a Deméter, as Tesmofórias, as matronas gregas espalhavam ramos e folhas de árvore-da-castidade nos seus leitos.
A tradição clássica vai ainda mais longe. Nas festas femininas dedicadas a Deméter, as Tesmofórias, as matronas gregas espalhavam ramos e folhas de árvore-da-castidade nos seus leitos.
Plínio, o Velho, refere que os gregos lhe chamavam lygos ou agnos e ligava diretamente esse gesto à preservação ritual da castidade. O gesto tinha valor ritual, associado à pureza temporária, à fertilidade, à contenção e talvez à proteção contra serpentes.
Uma espécie ligada aos ciclos femininos, usada em festas de fertilidade, deitada nos leitos para guardar castidade, cultivada em hortas monásticas para ajudar os monges a honrar os seus votos, estudada pela farmacognosia, vendida por mim em pequenos vasos durante muitos anos, dada a cheirar a milhares de visitantes e temida por cavalheiros impressionáveis.
Espanta-me que uma planta com tanta beleza, rusticidade e uma história fabulosa continue praticamente ausente do circuito comercial dos viveiros em Portugal. Vê-se pouco em hortos, aparece raramente em jardins públicos e privados. Custa-me perceber porquê.
A árvore-da-castidade é resistente à seca, pouco atreita a pragas e doenças, generosa na floração, elegante na folhagem, interessante no fruto, aromática ao toque e extraordinária para abrir horas de conversa e boa disposição.
Entre tantas ornamentais repetidas até à exaustão, continua injustamente esquecida. Para mim, é uma das mais belas, floridas e úteis espécies arbustivas que podemos oferecer aos jardins portugueses.
Falta-lhe apenas aquilo que tantas boas plantas ainda esperam entre nós. Mais viveiristas que a propaguem, mais paisagistas que a prescrevam, mais jardineiros que a conheçam e mais pessoas dispostas a parar ao seu lado, cheirar-lhe os frutos e deixar que uma planta conte uma história.
Poucas plantas conseguem juntar tanto num só arbusto. A árvore-da-castidade é ornamental sem ser banal, medicinal sem dispensar rigor, aromática sem pedir licença, moralista no nome e malandra nas histórias que provoca.
Ensina botânica pela forma das folhas, ecologia pelo lugar onde cresce, farmacognosia pelos frutos, história pelo seu percurso nos herbários, etnobotânica pelas crenças que arrasta, e humor pela rapidez com que um simples cheiro pode pôr um grupo inteiro a rir.
Talvez seja por isso que continuo a gostar tanto dela. Há plantas que se limitam a estar no jardim. A árvore-da-castidade entra na conversa, muda o tom da visita, levanta perguntas, baixa certezas, perfuma os dedos e deixa no ar uma gargalhada.
Entre o azul das flores, o aroma apimentado dos frutos, a seriedade das farmacopeias e a inquietação dos cavalheiros, esta é uma daquelas espécies que nos recorda uma verdade essencial da etnobotânica. As plantas curam, alimentam, ornamentam, confundem, assustam, seduzem e fazem rir.
E se cheirar também é anafrodisíaco? Até hoje, que eu saiba, só provocou uma consequência imediata e clinicamente observável. Gargalhadas.
Uma espécie ligada aos ciclos femininos, usada em festas de fertilidade, deitada nos leitos para guardar castidade, cultivada em hortas monásticas para ajudar os monges a honrar os seus votos, estudada pela farmacognosia, vendida por mim em pequenos vasos durante muitos anos, dada a cheirar a milhares de visitantes e temida por cavalheiros impressionáveis.
Espanta-me que uma planta com tanta beleza, rusticidade e uma história fabulosa continue praticamente ausente do circuito comercial dos viveiros em Portugal. Vê-se pouco em hortos, aparece raramente em jardins públicos e privados. Custa-me perceber porquê.
A árvore-da-castidade é resistente à seca, pouco atreita a pragas e doenças, generosa na floração, elegante na folhagem, interessante no fruto, aromática ao toque e extraordinária para abrir horas de conversa e boa disposição.
Entre tantas ornamentais repetidas até à exaustão, continua injustamente esquecida. Para mim, é uma das mais belas, floridas e úteis espécies arbustivas que podemos oferecer aos jardins portugueses.
Falta-lhe apenas aquilo que tantas boas plantas ainda esperam entre nós. Mais viveiristas que a propaguem, mais paisagistas que a prescrevam, mais jardineiros que a conheçam e mais pessoas dispostas a parar ao seu lado, cheirar-lhe os frutos e deixar que uma planta conte uma história.
Poucas plantas conseguem juntar tanto num só arbusto. A árvore-da-castidade é ornamental sem ser banal, medicinal sem dispensar rigor, aromática sem pedir licença, moralista no nome e malandra nas histórias que provoca.
Ensina botânica pela forma das folhas, ecologia pelo lugar onde cresce, farmacognosia pelos frutos, história pelo seu percurso nos herbários, etnobotânica pelas crenças que arrasta, e humor pela rapidez com que um simples cheiro pode pôr um grupo inteiro a rir.
Talvez seja por isso que continuo a gostar tanto dela. Há plantas que se limitam a estar no jardim. A árvore-da-castidade entra na conversa, muda o tom da visita, levanta perguntas, baixa certezas, perfuma os dedos e deixa no ar uma gargalhada.
Entre o azul das flores, o aroma apimentado dos frutos, a seriedade das farmacopeias e a inquietação dos cavalheiros, esta é uma daquelas espécies que nos recorda uma verdade essencial da etnobotânica. As plantas curam, alimentam, ornamentam, confundem, assustam, seduzem e fazem rir.
E se cheirar também é anafrodisíaco? Até hoje, que eu saiba, só provocou uma consequência imediata e clinicamente observável. Gargalhadas.

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