Dia Mundial do Ambiente


Hoje, Dia Mundial do Ambiente, algures em Terras de Barroso, comovi-me diante deste postal ilustrado de Portugal.

Uma casa humilde, pedra, cal, portas vermelhas gastas, céu aberto, com uma roseira monumental, uma esfera viva de flores brancas e rosadas. Um poema pendente sobre a fachada.

Esta região é uma das mais extraordinárias do nosso país. O sistema Agro-Silvo-Pastoril do Barroso, que integra esta região, é reconhecido pela FAO como património agrícola mundial. 

Aqui vive-se esta rara aliança entre comunidades, lameiros, pastagens, gado, matos, montanha e água.

A paisagem ainda sabe guardar a chuva, conduzi-la por regos, entregá-la aos lameiros, devolvê-la aos rios, mantê-la viva nas raízes.

Esta roseira tem de ser uma das primeiras a conservar no futuro jardim botânico dos meus sonhos. Um jardim das roseiras abandonadas, da flora portuguesa, da memória rural e da água que atravessa muros, campos, bosques e aldeias.

Recordo muitas vezes o Eden Project, na Cornualha, nascido numa mina de caulino desativada.

Nesse vazio mineral, ergueu-se um lugar para mostrar algumas das plantas mais importantes do mundo, com solos fabricados a partir de materiais considerados resíduos, água da chuva e biomas que se tornaram escola, jardim, arquitetura e espanto.

Hoje, o Eden Project é apresentado como um símbolo mundial de regeneração e renovação. 

Recebeu mais de 25 milhões de visitantes e gerou mais de 6,8 mil milhões de libras de impacto económico na Cornualha e no sudoeste de Inglaterra.

Quando visitei o Eden Project, fiquei de boca aberta ao entrar no Bioma Mediterrânico.

Dentro daquela paisagem reinventada podemos calcorrear uma belíssima recriação de um agrossistema mediterrânico, com oliveiras, vinhas, ervas aromáticas e papoilas.

Todos os anos chega gente do mundo inteiro para ver aquilo que, para nós, tantas vezes é tratado como banal. Um fragmento de paisagem que reconhecemos desde sempre, convertido ali em espanto, conhecimento e valor.

Foi uma lição extraordinária. A paisagem quotidiana, quando é compreendida, cuidada e narrada, pode tornar-se património, pedagogia, economia e futuro.

Este exemplo mostra que uma paisagem ferida pode voltar a gerar cultura, conhecimento, visitação, trabalho e esperança.

Antes de abrir novas feridas à montanha, importa olhar para aquilo que já existe à superfície e perceber a riqueza que pode ser restaurada, cuidada e partilhada.

No Barroso também precisamos desta coragem. Coragem política, institucional e imaginação económica para olhar para a montanha como capital vivo.

Cultivar floresta, cultivar água e cultivar jardins pode criar riqueza, fixar pessoas, atrair conhecimento, dar trabalho, valorizar aldeias, recuperar lameiros, cuidar das nascentes e transformar esta região num exemplo para o mundo.

Aqui poderíamos fazer o maior projeto de restauro ecológico do país. Um projeto que começasse pela regeneração, pelo cuidado e pela permanência da vida.

Que olhasse para a água como património, para os solos como ventre, para os lameiros como esponjas, para as sebes como abrigo, para os bosques como promessa e para as aldeias como lugares onde o futuro ainda pode morar.

Cultivar água é devolver tempo à paisagem. É pedir às encostas que voltem a segurar a chuva, aos solos que voltem a guardar vida, aos lameiros que retomem o seu ofício de esponja, às sebes que protejam o vento, aos bosques que abrandem a pressa da água, às raízes que prendam futuro.

O país precisa de mais jardins. Jardins que conservem plantas, convoquem pessoas, criem riqueza e ajudem as paisagens a respirar.

Talvez um futuro possível comece assim, com uma roseira a florir sobre uma casa humilde, no coração de uma região que merece ser tratada como uma fonte de vida, um jardim e um legado para as gerações futuras.

Um lugar onde a água, a biodiversidade, a cultura e a beleza sejam reconhecidas como aquilo que sempre foram, riqueza.

Esta poderá ser a mais bela herança que podemos deixar a quem vier depois de nós.










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