Para lá da casca
Dentro de uma maçã viviam duas sementes. Tinham crescido lado a lado, protegidas por uma pequena câmara onde os dias chegavam adoçados pela polpa e o mundo possuía o tamanho exato de um fruto. Nunca tinham visto o céu, nunca tinham sentido a chuva e desconheciam completamente a luz. Ainda assim, recebiam tudo aquilo de que precisavam através de um fio que saía da maçã e a ligava a qualquer coisa que existia para lá da casca.
Certa manhã, enquanto o vento fazia balançar o ramo, uma das sementes perguntou à outra se acreditava numa vida para além da maçã. A irmã demorou algum tempo a responder. Considerava aquela pergunta própria de quem passava demasiadas horas a imaginar o que não podia ver.
A vida começava na polpa, decorria entre as cinco pequenas cavidades do fruto e terminava quando a maçã deixasse de as alimentar. Tudo o resto lhe parecia uma história inventada por sementes inquietas. A primeira insistiu. Tinha a sensação de que um dia sairiam dali e aprenderiam a beber água por si próprias.
A irmã achou a ideia pouco razoável. A água chegava-lhes todos os dias, misturada com os açúcares que enchiam a polpa. Existia ainda aquele fio seguro, preso ao alto, por onde a vida entrava sem que precisassem de fazer qualquer esforço. Procurar água seria uma ocupação cansativa e de utilidade duvidosa.
A semente curiosa confessou então que também acreditava que viriam a ter raízes. A irmã quase se riu. Dentro de uma maçã, uma raiz não teria espaço para avançar a largura de uma unha. Acabaria enrolada sobre si própria, incomodaria as outras sementes e talvez furasse a polpa. A natureza, que organizara tão bem aquele pequeno mundo, nunca criaria uma coisa tão inconveniente.
A primeira semente continuou. Imaginava que, depois das raízes, nasceria um caule. Desse caule surgiriam ramos e, nos ramos, folhas capazes de receber a luz e de, com ela, fabricar o seu próprio alimento.
A irmã já não conseguiu conter o riso. Nunca tinham encontrado luz em nenhuma parte da maçã. Tinham procurado entre a polpa, junto à casca e até na pequena cavidade que rodeava o pedúnculo. Encontraram humidade, açúcar e algumas fibras. Da luz, nem vestígios. Acreditar numa coisa que ninguém vira exigia uma imaginação muito fértil.
A semente curiosa ficou alguns instantes a sentir o balanço do fruto. Depois contou que acreditava ainda noutra coisa. A irmã quis conhecer essa nova crença, preparada para ouvir mais uma extravagância.
A semente disse que talvez existisse uma árvore. Aquela palavra pareceu maior do que a própria maçã. Nenhuma delas sabia ao certo o que poderia ser uma árvore. A curiosa imaginava uma presença imensa, com raízes mergulhadas na terra e ramos abertos no ar. Seria essa presença que as alimentava através do pedúnculo, que as embalava quando o vento passava e que segurava a maçã mesmo durante as noites de tempestade.
A irmã quis saber se alguma vez a tinha visto. Nunca. Se alguma das outras sementes a tinha visto. Também não. Se conhecia alguém que tivesse saído da maçã e regressado para contar. Ninguém. A irmã sentiu que o assunto estava encerrado. Uma árvore invisível, impossível de tocar e grande demais para caber dentro do fruto só podia pertencer ao domínio das histórias.
A semente curiosa procurou explicar melhor aquilo que sentia. Quando tudo estremecia, havia qualquer coisa que continuava a segurá-las. Quando a polpa crescia, havia qualquer coisa que lhes enviava alimento. Quando o calor apertava, chegava água através daquele fio. Talvez a árvore fosse precisamente essa presença que nenhuma semente conseguia ver e da qual todas recebiam a vida.
Os dias passaram e a maçã amadureceu. A casca ganhou cor, a polpa tornou-se mais doce e o pedúnculo começou a secar. Certa tarde, uma rajada atravessou o pomar. O fruto desprendeu-se do ramo e caiu sobre a erva. As duas sementes sentiram o mundo inteiro desabar.
Durante algum tempo, nada aconteceu. Depois a casca abriu, a polpa amoleceu e a maçã começou a desaparecer à volta delas. Aquele processo parecia o fim de tudo quanto conheciam. O mundo doce que as protegera entregava-se agora à terra, aos fungos e aos pequenos animais do solo.
Chegaram as chuvas. A água atravessou o chão e tocou as sementes pela primeira vez. Uma delas sentiu o tegumento ceder e uma raiz muito fina começou a crescer na escuridão. Logo depois, um pequeno caule procurou o caminho da superfície, guiado por uma luz que ainda não conhecia.
Naquele pequeno caule começava a revelar-se uma realidade maior que, até então, coubera apenas num pressentimento. Uma semente pode ignorar o céu e trazer em si a capacidade de o procurar. Pode desconhecer a chuva e guardar uma raiz preparada para a beber. Pode nunca ter visto uma árvore e carregar uma árvore inteira adormecida no coração.
Também nós conhecemos apenas uma parte da realidade. Vivemos dentro dela, recebemos alimento através de fios que raramente compreendemos e chamamos impossível ao que ainda não nos coube experimentar. Para lá da casca que nos envolve, haverá uma forma de vida que as nossas palavras ainda não conseguem descrever.
E talvez seja isso a fé, confiar na árvore quando o nosso mundo ainda tem o tamanho de uma maçã.
Certa manhã, enquanto o vento fazia balançar o ramo, uma das sementes perguntou à outra se acreditava numa vida para além da maçã. A irmã demorou algum tempo a responder. Considerava aquela pergunta própria de quem passava demasiadas horas a imaginar o que não podia ver.
A vida começava na polpa, decorria entre as cinco pequenas cavidades do fruto e terminava quando a maçã deixasse de as alimentar. Tudo o resto lhe parecia uma história inventada por sementes inquietas. A primeira insistiu. Tinha a sensação de que um dia sairiam dali e aprenderiam a beber água por si próprias.
A irmã achou a ideia pouco razoável. A água chegava-lhes todos os dias, misturada com os açúcares que enchiam a polpa. Existia ainda aquele fio seguro, preso ao alto, por onde a vida entrava sem que precisassem de fazer qualquer esforço. Procurar água seria uma ocupação cansativa e de utilidade duvidosa.
A semente curiosa confessou então que também acreditava que viriam a ter raízes. A irmã quase se riu. Dentro de uma maçã, uma raiz não teria espaço para avançar a largura de uma unha. Acabaria enrolada sobre si própria, incomodaria as outras sementes e talvez furasse a polpa. A natureza, que organizara tão bem aquele pequeno mundo, nunca criaria uma coisa tão inconveniente.
A primeira semente continuou. Imaginava que, depois das raízes, nasceria um caule. Desse caule surgiriam ramos e, nos ramos, folhas capazes de receber a luz e de, com ela, fabricar o seu próprio alimento.
A irmã já não conseguiu conter o riso. Nunca tinham encontrado luz em nenhuma parte da maçã. Tinham procurado entre a polpa, junto à casca e até na pequena cavidade que rodeava o pedúnculo. Encontraram humidade, açúcar e algumas fibras. Da luz, nem vestígios. Acreditar numa coisa que ninguém vira exigia uma imaginação muito fértil.
A semente curiosa ficou alguns instantes a sentir o balanço do fruto. Depois contou que acreditava ainda noutra coisa. A irmã quis conhecer essa nova crença, preparada para ouvir mais uma extravagância.
A semente disse que talvez existisse uma árvore. Aquela palavra pareceu maior do que a própria maçã. Nenhuma delas sabia ao certo o que poderia ser uma árvore. A curiosa imaginava uma presença imensa, com raízes mergulhadas na terra e ramos abertos no ar. Seria essa presença que as alimentava através do pedúnculo, que as embalava quando o vento passava e que segurava a maçã mesmo durante as noites de tempestade.
A irmã quis saber se alguma vez a tinha visto. Nunca. Se alguma das outras sementes a tinha visto. Também não. Se conhecia alguém que tivesse saído da maçã e regressado para contar. Ninguém. A irmã sentiu que o assunto estava encerrado. Uma árvore invisível, impossível de tocar e grande demais para caber dentro do fruto só podia pertencer ao domínio das histórias.
A semente curiosa procurou explicar melhor aquilo que sentia. Quando tudo estremecia, havia qualquer coisa que continuava a segurá-las. Quando a polpa crescia, havia qualquer coisa que lhes enviava alimento. Quando o calor apertava, chegava água através daquele fio. Talvez a árvore fosse precisamente essa presença que nenhuma semente conseguia ver e da qual todas recebiam a vida.
Os dias passaram e a maçã amadureceu. A casca ganhou cor, a polpa tornou-se mais doce e o pedúnculo começou a secar. Certa tarde, uma rajada atravessou o pomar. O fruto desprendeu-se do ramo e caiu sobre a erva. As duas sementes sentiram o mundo inteiro desabar.
Durante algum tempo, nada aconteceu. Depois a casca abriu, a polpa amoleceu e a maçã começou a desaparecer à volta delas. Aquele processo parecia o fim de tudo quanto conheciam. O mundo doce que as protegera entregava-se agora à terra, aos fungos e aos pequenos animais do solo.
Chegaram as chuvas. A água atravessou o chão e tocou as sementes pela primeira vez. Uma delas sentiu o tegumento ceder e uma raiz muito fina começou a crescer na escuridão. Logo depois, um pequeno caule procurou o caminho da superfície, guiado por uma luz que ainda não conhecia.
Naquele pequeno caule começava a revelar-se uma realidade maior que, até então, coubera apenas num pressentimento. Uma semente pode ignorar o céu e trazer em si a capacidade de o procurar. Pode desconhecer a chuva e guardar uma raiz preparada para a beber. Pode nunca ter visto uma árvore e carregar uma árvore inteira adormecida no coração.
Também nós conhecemos apenas uma parte da realidade. Vivemos dentro dela, recebemos alimento através de fios que raramente compreendemos e chamamos impossível ao que ainda não nos coube experimentar. Para lá da casca que nos envolve, haverá uma forma de vida que as nossas palavras ainda não conseguem descrever.
E talvez seja isso a fé, confiar na árvore quando o nosso mundo ainda tem o tamanho de uma maçã.

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