Portugal e a dependência invisível debaixo dos nossos campos

Um campo de milho, um olival, uma vinha ou uma horta parecem nascer em solo português. Uma parte decisiva da fertilidade que os alimenta tem origem muito mais longe, num poço de gás natural, numa mina de fosfatos ou num jazigo de sais potássicos.

Para chegar às culturas sob a forma de adubo, essas matérias-primas atravessam fábricas, portos, fronteiras e milhares de quilómetros. É por essa cadeia invisível que guerras distantes e subidas do preço da energia se repercutem rapidamente na conta de cultura de uma exploração portuguesa.

Os dados mais recentes da FAOSTAT permitem estimar essa dependência. Em 2023, a agricultura portuguesa utilizou cerca de 89 mil toneladas de azoto, 36,7 mil toneladas de P₂O₅ e 40,3 mil toneladas de K₂O, provenientes de adubos minerais. A partir dos valores de produção, importação e exportação registados na mesma base, calcula-se que as importações líquidas representem aproximadamente 54% da disponibilidade comercial aparente de azoto, 13% da de fósforo e 100% da de potássio.

Estas percentagens descrevem o mercado de adubos minerais e oferecem apenas uma aproximação ao seu grau de dependência externa. No fósforo, os 13% não captam toda a exposição existente no início da cadeia, uma vez que a produção nacional de adubos fosfatados utiliza rocha fosfática e ácido fosfórico importados.

O azoto revela outra dimensão desta vulnerabilidade, ao ligar a fertilização à energia e à geopolítica. A síntese industrial de amoníaco utiliza hidrogénio obtido sobretudo a partir de gás natural. Portugal não produz este recurso e depende integralmente da sua importação.

Em 2025, importámos 272,7 mil toneladas de adubos azotados. Espanha forneceu 46,5%, a Argélia 23,1% e o Egito 16,3%, concentrando 85,9% das compras. Importámos ainda 303,2 mil toneladas de amoníaco, uma matéria-prima utilizada no fabrico de adubos e noutras atividades industriais. Nas trocas intra-UE, o Eurostat regista como parceiro o país de expedição, que pode não coincidir com a origem da matéria-prima. Parte da dependência portuguesa fica escondida dentro da dependência europeia.

No fósforo, Marrocos e Argélia forneceram 99,8% das 53,9 mil toneladas de rocha fosfática importadas em 2025, e Marrocos assegurou 91,8% das 36,5 mil toneladas registadas na categoria aduaneira dos ácidos fosfórico e polifosfóricos. No potássio, a FAOSTAT estima uma produção nacional nula de adubos minerais potássicos em 2023.

Em 2025, Portugal importou 78 mil toneladas de adubos potássicos. Espanha forneceu 82,2% e a Alemanha 13,6%, concentrando 95,7% das compras. Grande parte da fertilidade adquirida pela nossa agricultura entra por um número muito reduzido de portas. Os dados comerciais de 2025 provêm da Comext do Eurostat, consultada em 16 de julho de 2026.

A escalada militar iniciada no Médio Oriente mostrou que, perante cadeias de abastecimento tão concentradas, a distância comercial oferece pouca proteção. Segundo a FAO, entre 20% e 30% das exportações mundiais de fertilizantes atravessam o Estreito de Ormuz.

A região do Golfo representa entre 30% e 35% das exportações mundiais de ureia e entre 20% e 30% das exportações mundiais de amoníaco. Nos primeiros dias do conflito, o tráfego de navios-tanque através dessa passagem caiu mais de 90%.

Pela mesma passagem circula cerca de 50% das exportações mundiais de enxofre, indispensável à produção do ácido sulfúrico usado na transformação da rocha fosfática.

Uma fábrica marroquina ou argelina pode continuar a abastecer Portugal e refletir no preço final a menor disponibilidade de enxofre, o encarecimento da energia e o agravamento dos seguros e dos fretes. Um adubo pode chegar de um país próximo e trazer inscrita no preço uma crise ocorrida a milhares de quilómetros.

Na exploração agrícola, os efeitos tornam-se concretos sob a forma de preços voláteis, crédito mais caro, margens comprimidas e planos de fertilização ditados pela tesouraria. Perante esta pressão, o agricultor pode reduzir as doses para proteger a campanha em curso, arriscando perdas de produtividade no presente e, no caso do fósforo e do potássio, a diminuição das reservas do solo. A soberania alimentar enfraquece quando o preço de uma matéria-prima distante se sobrepõe às necessidades do solo e da cultura.

Esta pressão expõe os limites do modelo linear que ainda sustenta grande parte da agricultura convencional. O gás natural e os minerais são extraídos, transformados em adubos, transportados e aplicados no campo. Ao longo deste percurso, uma parte dos nutrientes perde-se por volatilização, lixiviação, erosão ou escoamento superficial.

Outra abandona o campo com as colheitas e percorre a cadeia alimentar, dispersando-se quando os resíduos e efluentes não são recuperados. Depois, o ciclo recomeça com a compra de nutrientes provenientes de novas extrações.

Este modelo elevou a produtividade e contribuiu para a segurança alimentar. Hoje, a sua continuidade permanece ligada à energia fóssil importada, aos recursos minerais finitos e a mercados fortemente concentrados.

A própria Comissão Europeia reconhece esta vulnerabilidade no Plano de Ação para os Fertilizantes, apresentado em 19 de maio de 2026. As importações cobrem entre 25% e 30% do consumo europeu de adubos azotados, entre 35% e 45% do consumo de adubos potássicos e cerca de 70% do consumo de adubos fosfatados.

O gás natural representa entre 70% e 80% dos custos de produção dos adubos azotados. Entre outras medidas, o plano procura aumentar a eficiência no uso dos nutrientes, recuperar e reciclar uma parte maior desses recursos e acelerar a transição para adubos de base biológica, circulares e hipocarbónicos.

A agricultura regenerativa assume, assim, uma importância que ultrapassa largamente o domínio ambiental. Torna-se uma estratégia económica, agronómica e de segurança nacional, orientada para devolver ao agroecossistema uma parte do trabalho que o modelo linear transferiu para as fábricas.

Quando adaptadas às condições de cada exploração, a redução da mobilização do solo, a proteção proporcionada pelos cobertos vegetais, a inclusão de culturas leguminosas em rotações diversificadas, a aplicação criteriosa de composto e, sempre que seja agronomicamente adequada, a integração da pecuária podem favorecer a infiltração e a retenção da água, melhorar a estrutura do solo e estimular a atividade microbiana e a biodiversidade.

A circularidade começa quando aquilo que era tratado como resíduo regressa ao ciclo produtivo. Restos de culturas, efluentes pecuários, subprodutos agroindustriais e biorresíduos podem ser transformados, através da compostagem, da digestão anaeróbia e de outras tecnologias de recuperação, em matéria orgânica e nutrientes novamente disponíveis para a agricultura.

As bactérias simbióticas associadas às leguminosas fixam azoto atmosférico, enquanto os fungos micorrízicos podem favorecer a absorção de fósforo e água. Estas relações biológicas aumentam a eficiência com que as culturas utilizam os recursos disponíveis.

O fósforo e o potássio retirados pelas colheitas continuam, contudo, a ter de ser repostos. A fertilidade duradoura exige balanços de nutrientes, análises do solo e a devolução segura de composto, efluentes tratados, digeridos e nutrientes recuperados, recorrendo a fontes minerais sempre que o equilíbrio agronómico o exija.

Regenerar o solo significa também ampliar o próprio conceito de produtividade. A segurança alimentar depende das toneladas colhidas, da qualidade nutricional dos alimentos, da capacidade das culturas para resistir à seca e da continuidade económica das explorações.

A qualidade de um alimento depende da variedade, do clima, do estado de maturação e da fertilidade do solo. Alguns estudos começam a relacionar práticas regenerativas e solos biologicamente mais ativos com concentrações superiores de alguns minerais, vitaminas e compostos fitoquímicos.

Cada nutriente recuperado no território, cada hectare protegido da erosão e cada exploração que reduz a dependência de fatores de produção importados reforçam a resiliência e a viabilidade económica da agricultura portuguesa.

A verdadeira soberania alimentar começa quando reduzimos a distância entre a fertilidade de que precisamos e o território onde a produzimos, conservamos e recuperamos. Essa transformação ganha forma nos campos, nas explorações pecuárias e nos sistemas que recuperam e devolvem nutrientes à agricultura. 

Debaixo dos nossos pés existe uma infraestrutura biológica extraordinária. Regenerá-la devolve ao agricultor uma parte da capacidade de decisão que hoje pertence ao preço do gás, às minas distantes e às rotas marítimas. A fertilidade dos nossos solos exige, por isso, a mesma atenção estratégica que a energia e a água, pois nela assenta uma parte da segurança do país.


 

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