A oliveira bimilenária de Pedras d’El Rei

Em Pedras d’El Rei, junto à Ria Formosa, cresce uma oliveira cuja idade estimada recua ao século III a.C. Terá lançado as primeiras raízes mais de treze séculos antes do nascimento do Reino de Portugal, em 1143. Tive o privilégio de estar junto dela demoradamente e de a fotografar, deliciado.

Encontra-se dentro do Aldeamento Pedras d’El Rei, perto da receção, entre casas e jardins. O acesso é livre, permitindo que qualquer pessoa se aproxime e observe de perto aquilo que mais de dois milénios estimados fizeram à madeira.

A largura e a complexidade do seu corpo causam o primeiro assombro. Os olhos percorrem as cavidades, seguem os grandes braços que se abrem para os lados e alcançam uma copa ampla e irregular, mais extensa do que alta. Encostados à base, percebíamos a verdadeira dimensão do tronco. A sua espessura fazia-nos parecer pequenos.

Feridas, rebentações e sucessivos crescimentos modelaram a base monumental em dobras profundas, cavidades e paredes espessas. Vista de perto, lembra uma construção erguida pela própria árvore, com arcos, contrafortes, aberturas e longos cordões de madeira que sobem para sustentar a copa.

Há partes que parecem consumidas pelos séculos e outras que continuam a engrossar, envolvendo os vazios e reconstruindo aquilo que o tempo desfez.

Estava carregada de frutos. Entre a folhagem pendiam azeitonas verdes, abundantes e de bom calibre. Perante aquele tronco aberto, fragmentado e atravessado por cavidades, tamanha abundância parecia quase impossível. Como pode uma árvore com semelhante corpo continuar a sustentar tantos frutos?

A resposta percorre os cordões de madeira funcional que ainda ligam as raízes aos grandes braços da copa. Nas oliveiras velhas, o tronco pode organizar-se em sistemas vasculares parcialmente independentes, cada um alimentado por determinadas raízes.

Enquanto os tecidos centrais desaparecem, o câmbio dos setores periféricos continua a formar novo xilema e novo floema. O xilema funcional conduz água e sais minerais até à copa, enquanto o floema distribui os açúcares produzidos pelas folhas. A cavidade ocupa o centro. A vida percorre as margens. Cada azeitona confirma que a árvore mantém a capacidade de crescer e frutificar.

Na última medição oficial, realizada em 2006, a oliveira (Olea europaea var. europaea) registava 10,3 metros de altura. O perímetro do tronco era então de 11 metros na base e de 7,74 metros a 1,30 metros do solo. A copa apresentava um diâmetro médio de 14 metros. Todos estes valores descrevem a árvore há vinte anos.

A medição pública mais recente que encontrei fora do inventário oficial foi efetuada a 14 de maio de 2016 e encontra-se no Monumental Trees. Nesse registo, o perímetro a 1,30 metros do solo aproximava-se dos 8 metros e a altura foi estimada em cerca de 9 metros.

Entre as duas medições existe uma diferença aproximada de 26 centímetros no perímetro. O valor sugere que a oliveira continuou a engrossar, embora a irregularidade do fuste aconselhe uma comparação prudente.

Passaram mais 10 anos desde esse último registo. Os setores ativos continuaram a produzir madeira e a remodelar o contorno do tronco, enquanto a perda ou poda de ramos poderá ter alterado a copa. Uma nova medição técnica permitiria conhecer as dimensões atuais e acompanhar com maior rigor a evolução deste monumento.

Classificada como Árvore de Interesse Público em 2 de agosto de 1984, a oliveira surge no inventário do ICNF com uma idade estimada de 2210 anos, associada à medição de 2006. Somados os vinte anos entretanto decorridos, terá hoje aproximadamente 2230 anos.

Trata-se de uma atualização cronológica da estimativa registada, sem o valor de uma nova datação. Nas oliveiras muito velhas, os troncos ocos, o crescimento irregular, os vários centros de crescimento e a descontinuidade dos anéis dificultam a determinação exata da idade. O número de 2230 anos permanece, por isso, uma aproximação.

Em Pedras d’El Rei existem também vestígios de uma villa romana. Se a estimativa oficial se aproximar da idade real, esta oliveira já crescia durante a presença romana na Península Ibérica. Depois atravessou os séculos de al-Andalus, viu formar-se o reino de Portugal e assistiu à integração do Algarve no território português.

A oliveira cultivada já existia no sul e no leste da Península antes da colonização romana. Os estudos arqueobotânicos e genéticos encontram indícios da sua presença desde a Idade do Bronze e revelam uma história mediterrânica mais complexa do que a simples introdução da cultura pelos romanos.

Portugal conserva outras oliveiras às quais foram atribuídas idades semelhantes ou superiores. Na Herdade do Peso, na Vidigueira, a Sogrape divulgou a existência de uma oliveira à qual foi atribuída uma idade estimada de 3712 anos. Segundo a empresa, esta estimativa resultou do trabalho realizado pela Oliveiras Milenares e pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro através de um modelo dendrométrico patenteado.

Entre as árvores oficialmente classificadas, a Oliveira do Mouchão, em Mouriscas, surge no inventário do ICNF com 3350 anos e uma última medição realizada em 2006. Uma oliveira de Santa Iria de Azóia, no concelho de Loures, apresenta uma estimativa de 2850 anos, associada à medição de 2011.

Em Estômbar, no concelho de Lagoa, encontra-se ainda a oliveira milenar do Morgado do Quintão. A propriedade e a ficha da candidatura ao concurso nacional Árvore do Ano atribuem-lhe cerca de dois mil anos.

As idades publicadas para estas oliveiras provêm de inventários, modelos e entidades diferentes. A sua comparação permite ordenar as estimativas divulgadas, sem estabelecer uma cronologia definitivamente comprovada. O título de oliveira mais velha de Portugal carece, por isso, de fundamento seguro quando aplicado ao exemplar de Pedras d’El Rei. Esta oliveira permanece entre os mais extraordinários monumentos vegetais do país.

A sua grandeza mede-se no corpo que continuou a refazer-se durante séculos, na memória da paisagem mediterrânica e na persistência da vida depois de tantas fraturas. É património natural e testemunha vegetal de uma história muito maior do que a nossa.

Enquanto continuar a cobrir-se de folhas e a carregar os ramos de azeitonas, cada nova frutificação acrescentará uma estação a uma história estimada em mais de dois milénios.










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