A Construção de um Léxico para as Infusões em Portugal

Este terá sido, talvez, um dos maiores méritos da minha vida profissional, o de ter contribuído para a criação de um léxico que é hoje cada vez mais utilizado em Portugal.

Na imagem que partilho com este texto, estabeleço um comparativo que me é particularmente querido. Aproximo o universo das infusões do mundo do vinho, elevado ao estado de arte. 

Um território onde também vivi durante muitos anos, e onde tive a honra de conquistar vários prémios internacionais com as infusões e tisanas que produzi, algumas delas reconhecidas entre as melhores do mundo.

É possível estabelecer um paralelo com o mundo dos vinhos, que congrega uma cultura amplamente partilhada por um público informado, para melhor compreender as diferenças no universo das infusões, onde essa cultura permanece ainda incipiente.

Ao longo do tempo fui percebendo que faltavam palavras. Faltava nomear o que fazíamos com rigor, faltava distinguir o que é apenas hábito do que é conhecimento estruturado. No vinho, a maioria das pessoas está familiarizada com as castas, com os processos e com os vários intervenientes que dão forma ao resultado final.

Sabemos o que é um enólogo, um provador, uma fermentação controlada, um perfil sensorial. Existe ciência, método e linguagem própria. No universo das plantas para infusão, durante décadas, tudo foi simplificado numa única palavra usada de forma indiscriminada.

Chamou-se chá a quase tudo. O termo generalizou-se por ausência de cultura específica no universo das infusões, transformando numa designação genérica aquilo que, do ponto de vista técnico, sempre foi mais diverso. E nessa simplificação perdeu-se precisão, perdeu-se identidade e diminuiu-se o reconhecimento científico e cultural associado às plantas e ao seu processo de transformação.

Foi nesse contexto que propus os termos infusologia e infusólogo, construídos a partir do latim infusio, que significa imersão, associada ao sufixo logia, que remete para estudo, e ao sufixo logo, que designa o especialista numa determinada área do conhecimento. 

Entendi a infusologia como a ciência que estuda todo o percurso das plantas destinadas a infusão, desde a escolha das espécies e das variedades, passando pelo cultivo, pela colheita e pela secagem, até à extração final na chávena, incluindo a investigação em análise sensorial e a construção de uma cultura técnica até então praticamente inexistente neste domínio.

E o infusólogo como o profissional capaz de integrar esse conhecimento técnico, agrícola, sensorial e cultural, conferindo-lhe coerência, rigor e identidade.

Tal como na enologia, também aqui existem protagonistas. Existem quem produza, quem prove, quem harmonize e quem simplesmente aprecie. Reconhecem-se perfis aromáticos, identidade territorial, tradição e inovação. Há plantas que se afirmam como verdadeiras castas, reconhecidas e difundidas, e outras que revelam carácter próprio, menos conhecidas, mas igualmente expressivas.

E importa sublinhar um ponto essencial. Chá é a infusão feita a partir da planta do chá ou chazeiro (Camellia sinensis), designação que em Portugal se vulgarizou como termo genérico para quase todas as infusões, apesar da sua definição botânica e técnica ser específica.

Todas as outras preparações vegetais pertencem ao vasto universo das infusões e das tisanas, cada uma com identidade própria. Esta clarificação terminológica nasce da necessidade de nomear com rigor aquilo que a ciência e a tradição há muito distinguem.

Ao estabelecer este paralelismo com o mundo do vinho, não procuro copiar um modelo, mas reconhecer que o rigor, a linguagem e a dignidade técnica que atribuímos ao vinho, com os seus processos bem definidos, os seus protagonistas e a sua cultura consolidada, podem e devem encontrar expressão igualmente no universo das infusões.

As plantas merecem esse cuidado. Quem as cultiva merece reconhecimento. Quem as comercializa encontra aqui uma oportunidade de diferenciação. E quem as consome tem o direito de saber, com rigor, o que verdadeiramente está a beber.

Assim, quando o conhecimento é nomeado com clareza, adquire força, consolida identidade e integra-se naturalmente na cultura de um país.

Não imagina o prazer que me dá entrar numa boa casa de chá e encontrar no menu a distinção clara entre infusões, chás e tisanas. Ouvir médicos e nutricionistas explicarem com rigor as diferenças.

Escutar alguém afirmar, com naturalidade, que o chá contém cafeína e que as infusões e tisanas que não incluem chá na sua composição não a possuem. Ver um chef de cozinha transmitir esse conhecimento aos seus clientes como parte da experiência gastronómica.

Reconheço que há um pequeno fragmento do meu trabalho inscrito nesta mudança. Um contributo de mais de duas décadas para a construção de uma cultura de consumo mais informada, mais consciente e mais exigente em Portugal.
 

 

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