terça-feira, 17 de Março de 2009

A aventura das plantas - trazidas das Américas

Inspirado na minha viagem a África e no fantástico livro "A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses" (3ª Edição) de José Mendes Ferrão, decidi construir a rubrica da Praça à volta das plantas trazidas das Américas. Pena que o tempo foi pouco e só deu para falar de algumas das que tinha levado, mas este tema será retomado mais para a frente. Ficam aqui alguns apontamentos baseados no livro e a prestação, acompanhado pelo simpático Francisco Mendes.
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Abacateiro (Persea americana) - Origem: América central, México e norte da América do sul.
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Já se encontravam muito dispersos pelo continente americano quando lá chegaram os europeus; embora os naturais os valorizassem, não seduziu de imediato os europeus. Para os índios era uma árvore quase sagrada, que lhes dava força e virilidade e os curava de várias doenças. Até ao século passado não tinha grande interesse fora da sua região de origem. A partir de certa altura, começaram a surgir apreciadores deste fruto e a conhecer melhor as suas características.
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Amendoim (Arachis hypogaea) - Origem: Paraguai, Perú, Brasil.
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2 tipos de amendoim; 1 tipo brasileiro, que os portugueses encontraram e difundiram em África e possivelmente também no oriente, no séc. XVI; e outro tipo peruano, levado pelos espanhóis para o oriente, via pacífico, possivelmente através do México. Os 2 são diferentes, sobretudo nos frutos: o tipo brasileiro tem 2 frutos; o tipo peruano 3. Quando os portugueses chegaram ao Brasil já ai existia e era cultivado.
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Ananaseiro (Ananas comosus) - Origem: Brasil, México.
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Como fruto produtor de sumo e planta medicinal, assumiu enorme importância. Muitos defendem a opinião que logo após a descoberta das Américas, esta planta terá sido uma das primeiras a ser levada para a Europa, África e Ásia, onde se propagou tão rapidamente como não há outro exemplo na história de qualquer outra planta frutífera. Foi designado rei dos frutos, considerado o mais belo e o melhor dos que existem sobre a terra.
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Batateira (Solanum tuberosum) - Origem: Chile, Colômbia.
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De início, não houve um interesse muito grande na sua introdução na Europa. Só se conseguiu impor no séc. XIX. A principal razão está no facto de se acreditar que o seu consumo estava associado à lepra. Só depois das grandes fomes na Irlanda a batata se impôs como cultura de escala na Europa. As primeiras introduções tinham objectivos ornamentais ou científicos. Também pode ter sido influenciado pelos sistemas de agricultura seguidos na altura, que privilegiavam os cereais e os produtos secos, de mais fácil conservação. Foi Parmantier, um agrónomo-hortelão do sec. XVII que desempenhou um papel fundamental na sua disseminação em França e depois na Europa. Algumas histórias contam que terá convidado para um banquete altas personalidades francesas, servindo-lhes diversos pratos, exclusivamente preparados com batatas. Outros contam que terá mandado plantar um campo nos arredores de Paris, colocando uma guarda de soldados a este campo. Os agricultores ficaram curiosos e perguntaram que cultura era aquela tão valiosa para ser guardada por soldados. Logo que chegaram à fase de ser colhidas, mandou retirar a guarda durante a noite para que fossem roubadas, graças ao desejo entretanto criado de experimentarem também esta cultura. No séc. XVIII ainda era pouco usada em Portugal.
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Batata-doce (Ipomoea batatas) - Origem: Colômbia, Equador, Perú, Brasil.
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Já existia no Brasil aquando da chegada dos portugueses. Colombo trouxe-a e ofereceu-a a Isabel, a católica, como prova do achamento das Américas. Na 2ª metade do séc. XVI a sua cultura, ao contrário da batata-comum, já estava bastante divulgada em Portugal, Espanha e Itália. Os portugueses introduziram-na em África para alimentar os escravos, na Índia, na Indonésia, na China e no Japão. Hoje em dia é uma das culturas mais importantes da grande zona inter-tropical. Em África representam uma % elevada da alimentação. A China é o primeiro produtor mundial. De cultura fácil, protege bem o terreno do efeito dos tornados.
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Baunilha (Vanilla planifolia) - Origem: México.
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Os espanhóis conheceram pela primeira vez o aroma e fragância dos seus frutos quando Montezuma ofereceu a Cortez, em taças de ouro, uma iguaria constituída por uma massa de cacau torrado, triturado, misturado com farinha de milho, e aromatizada com baunilha. O povo azteca procurou guardar ciosamente o segredo da origem deste aromatizante, que usavam naquela bebida tradicional dos ricos, por isso só na 2ª metade do séc. XVI os espanhóis conseguiram conhecer a planta e a sua origem. Os europeus tentaram desenvolver o seu cultivo em estufas, mas não havia frutificação (ausência dos agentes responsáveis pela fecundação). Só no séc. XIX a baunilha se difundiu pelo mundo. Apesar dos sucedâneos de síntese, o extracto da vagem de baunilha ainda hoje é muito utilizado em produtos de grande qualidade. Os maiores produtores mundiais são Madagáscar e a Indonésia.
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Cacaueiro (Theobroma cacao) - Origem: Florestas do Orinoco/Amazonas.
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O primeiro contacto dos europeus com o cacau só se terá dado em 1502 quando Colombo encontrou um barco nativo de negociantes que transportava, entre outras mercadorias, uma espécie de amêndoas que os locais usavam como moeda e com as quais preparavam também uma bebida deliciosa. Moeda que não cultiva a avareza pois não se conserva durante muito tempo. A sua importância nas trocas comerciais na região foi tão grande que se manteve em circulação em muitas regiões americanas até meados do séc. XIX. Nesses tempos finais, 100 sementes de cacau tinham um valor monetário de 1 dólar americano. Nas tabelas de equivalências, um escravo valia 100 sementes, bem como uma mulher, e um coelho comprava-se por 10 sementes. A bebida era considerada nutritiva, fortificante e afrodisíaca, feita com o pó das sementes torradas. Já na altura era usado pelas mulheres em tratamentos de beleza. Espanha deteve o monopólio do seu comércio durante todo o séc. XVI, graças a serem os únicos a conhecerem o segredo da preparação da pasta de cacau. No séc. XVII um italiano aaprende os segredos e ensina-os aos italianos do norte. Este conhecimento chega à Áustria, onde a bebida se torna extremamente popular na corte, à altura, uma das mais ricas da Europa. O cacaueiro progrediu muito em São Tomé após a abolição da escravatura, graças aos elevados preços que este atingiu nos mercados internacionais, e nos princípios do séc. XX São Tomé era o 1º produtor mundial. Hoje o maiores produtores mundiais são a Costa do Marfim, Brasil e Malásia.
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Feijoeiros (Phaseolus vulgaris) - Origem: América do sul.
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É assente que foram os portugueses que trouxeram o Phaseolus vulgaris para a Europa e o difundiram pelo mundo tropical, logo no séc XVI, onde esta espécie suplantou, na maior parte dos casos, outros feijões. Esta planta provocou profundas transformações na agricultura e na alimentação, em quase todo o mundo. Na Europa do sul veio a ocupar um lugar muito importante na consociação com o milho e abóboras, também introduzidas, e substituíram, em parte, o consumo de grão-de-bico, lentilhas e outras tradicionais na Europa desse tempo.
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Milho (Zea mays) - Origem: México, Perú.
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Descoberto por portugueses e espanhóis no novo mundo, foi difundido pelas terras com as quais tinham contacto, o que provocou uma verdadeira revolução na economia agrícola de muitas regiões e interferiu fortemente na alimentação básica de alguns povos. Os portugueses foram buscar este grão novo aos campos de Sevilha e semearam-no no séc. XVI nos campos de Coimbra? Ou então trouxeram-no do Brasil directamente para África, onde foi cultivado e só depois enviado para Portugal. É o terceiro cereal produzido no planeta, a seguir ao trigo e ao arroz. Cultivado pelos que possuem a mais elevada tecnologia e pelos que nele encontram subsistência, a maior parte é cultivado para alimentação animal, mas nos países em desenvolvimento é largamente utilizado na alimentação.
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Pimentos (Capsicum sp.) - Origem: México, América-central.
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Doces e picantes (chili ou piripiri). O seu aproveitamento já se fazia 7000 anos antes da chegada dos europeus, onde fazia parte da alimentação corrente das populações. O pimento espalhou-se por quase todas as latitudes, como planta hortícola, cujos frutos se comem assados, fritos, crus, o piripiri espalhou-se mais nas regiões tropicais. Mesmo no oriente, apesar de ser terra de especiarias, onde poderia ser mais difícil a sua aceitação, o piripiri atingiu grande difusão. Chamado a pimenta dos pobres, por ser muito mais barato e ter o sabor ardente e picante semelhante à pimenta.
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Tabaco (Nicotiana tabacum) - Origem: América central e sul.
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A história do tabaco é das mais interessantes e acidentadas entre as de todas as plantas que os europeus conheceram no período dos descobrimentos. As 1ª informações chegam com a primeira viagem de Colombo às Américas. Os índios já fumavam as suas folhas. Foi considerada uma fantástica planta medicinal, pelas suas inúmeras virtudes. Hoje em dia conhecem-se bem os malefícios do uso do tabaco e movimentam-se campanhas internacionais contra o seu uso. Jean de Nicot, embaixador de França em Portugal, levou para França e ofereceu folhas de tabaco à Rainha Catarina de Médicis, que sofria de dores de cabeça crónicas. As folhas foram utilizadas aspirando o fumo de braseiras onde a folha era queimada, tendo sentido grande alívio com esse tratamento. Lineu deu assim o nome de Nicotiana a esta planta. Pela importância atribuída pela Rainha a esta planta, esta ficou a ser conhecida como erva-da-rainha, erva-médica. Enquanto na América o tabaco era e continuava a ser fumado, na Europa difundiu-se como medicinal, sendo o seu fumo aspirado em defumadouro. Fumar e fumar tabaco eram 2 coisas distintas. O hábito de fumar ervas aromáticas já estava espalhado no velho mundo, centenas ou milhares de anos antes da descoberta da América. Certos missionários portugueses terão levado o tabaco e o seu uso para a China e para o Japão. Fumar tabaco começou a ser alvo de perseguição na Europa e alvo de penalizações no séc. XVII. Outros começaram a centrar a sua venda em farmácias e a cobrar taxas, de forma regular o seu consumo. No Douro, e após a morte das vinhas causada pela filoxera, tentou impor-se o seu cultivo, mas o tabaco não tinha qualidade suficiente. É das poucas culturas que chega ao mercado mundial sob a forma de folha, é a planta comercial não comestível mais cultivada do mundo, ultrapassando mesmo o algodão e outras fibras.
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Tomateiro (Lycopersicon esculentum) - Origem: Equador/Perú/Bolívia/México.
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De pouca importância para as culturas indígenas, eram muito pequenos e possuíam um cheiro intenso ao toque. Foi trazida para a Europa pelos espanhóis no séc. XVI e depois levado para Itália e Inglaterra. Os italianos já o cultivavam em 1550 e terá sido o primeiro país europeu a consumir os seus frutos. As variedades mais utilizadas devem ter sido as de frutos amarelos. A cor e a forma do fruto devem estar na origem da designação italiana para o tomate: pomodoro (maçã de ouro). Foi submetido a trabalho de melhoramento, daí resultando frutos maiores. Tudo indica que as formas melhoradas vieram mais tarde a ser introduzidas no continente americano, e só então a planta adquiriu interesse económico na região. O tomate é ao mesmo tempo fruta, hortaliça e tempero.

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